readymade-art

Com todos os seus problemas, no capitalismo ainda é possível reservar algum espaço e tempo para as artes mais elevadas, na estreita faixa de liberdade que nos concedem além da efervescência pragmática. É possível escolher entre A e B, ainda que com dificuldade. Já nos regimes fascistas e comunistas, os padrões artísticos são formulados no alto do morro burocrático e o pescoço do público deve se acomodar ao cabresto que o Estado arremessa lá de cima.

Com a tendência atual, no Ocidente, de Estados mais fortes para fazer frente às sucessivas crises econômicas (e agora sanitárias) da Aldeia Global, em que uma flatulência no Canadá pode abalar uma pirâmide egípcia, as artes correm sempre o risco da tutela estatal (interessante para certo tipo de artista, que prefere ter um travesseiro estável onde repousar a cabeça toda noite e dormir tranquilo; interessante para a máquina que governa, pois tem um grande aliado no serviço de (de)formação das consciências).

Alguns diriam: tutela por tutela, antes a proteção da Igreja medieval ou contra-reformista, que, interferindo, dava uma certa direção à criação artística e algum conforto aos artistas, tanto material como estético. Foi, porém, graças à progressiva perda de influência secular da Igreja, indesejável do ponto de vista da fé, que nos últimos séculos os compositores puderam acrescentar, à grande música coral da Idade Média, da Renascença e da Contra-Reforma, a riqueza da música instrumental sinfônica, camerística e operística dos últimos séculos, suscitada pelo novo público burguês; e isso, também, sem esquecer o que a evolução musical deve à sua própria dinâmica, como a tecnologia dos instrumentos musicais.

As artes plásticas libertaram-se da camisa de força da figuração, numa varredura da imagem, auxiliada pela técnica fotográfica, que começou timidamente no impressionismo e chegou ao radicalismo da arte abstrata. E a literatura, por fim, inventou o romance, arte narrativa do indivíduo livre para representar o mundo cotidiano em suas mais incômodas contradições, seguido mais tarde pelo cinema.

Mas a liberdade burguesa foi tanta, que a arte logo se viu diante de um beco sem saída, com quase todas as fontes secas, depois de esgotadas as possibilidades de experimentação e o crescente desinteresse dos novos públicos para as chamadas belas artes.

A música dodecafônica ameaçou acabar com a música, ao expulsar o talento em nome da técnica serialista; não acabou, mas criou uma espécie de complexo de inferioridade em todos os que gostariam de compor nos velhos padrões, deixando à trilha sonora dos filmes esse privilégio.

E o abstracionismo, nas artes plásticas? Tornava, ao contrário, quase dispensável a técnica mais elaborada e de algum modo abria o espaço fechado dos ateliês aos aventureiros (sem esquecer, obviamente, que pode haver trabalhos abstratos de grande beleza, mas realizados sempre por pessoas que dominavam as “regras da arte” do desenho e da pintura).

O ready made (um objeto qualquer que, fora de seu contexto original, acaba se transformando em obra artística) acabou com a arte? O zombeteiro Duchamp, quando expôs um mictório como obra de arte, não queria somente escarnecer da tradição artística ocidental, mas sugerir que, de agora em diante, a arte não contava mais entre as coisas necessárias. Sua necessidade era somente a de continuar a dizer ao mundo que a arte, finalmente, não era mais algo necessário, pois na era da fotografia todos podiam ser artistas.

Foi o que essa estética niilista, desprovida de princípios espirituais, conseguiu fazer no século XX: destruir a arte elevada com a prática disruptiva e revolucionária da anti-arte. Como a arte é tão necessária como respirar, os marchands capitalistas passaram a vender a anti-arte do ready made, que já foi canonizado e hoje, deploravelmente, é mais uma entre outras modalidades de… arte.

Esses senhores não nos enganam. Felizmente, sabemos onde encontrar a arte e os artistas que valem a pena.