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Quem conhece as novelas da Globo sabe em que medida, e com que truques narrativos, elas levavam o já trôpego Brasil católico a cruzar, quase imperceptivelmente, o limiar da pós-modernidade. O caminho mais curto, para isso, era a esculhambação da família com as palavras de ordem do politicamente correto, procurando converter o vasto público à nova religião universal, que tem no centro não mais o Deus que fez homem, mas o ser humano alçado à condição de deus.

Há exatos dez anos, a Globo exibia o seriado Dalva e Herivelto, engajadíssimo nesse projeto venenoso. Com algumas boas reconstituições do passado radiofônico brasileiro e interpretações não mais que medianas dos atores, o seriado da Globo foi muito mais uma pregação feminista sobre as consequências nefastas do machismo opressor, do que a história de um casamento infeliz entre dois artistas talentosos e humanos como nós. No caso de Herivelto, um compositor popular de grandes sucessos, como “Ave Maria no morro”, “Caminhemos”, “Segredo”, “A camisola do dia”, “Isaura”, “Praça Onze”.

As categorias da velha narrativa maniqueísta (em que de um lado está o bem e de outro o mal, separados por um abismo de inverosimilhança) estavam mais presentes que nunca: o Herivelto da roteirista Maria Adelaide Amaral é o canalha irrecuperável que arruína a vida da virtuosa Dalva.

O melhor da série foi a trama, embora montada para favorecer a manipulação ideológica da roteirista: os momentos finais da história, com a agonia de Dalva em 1972 e sua expectativa frustrada de rever o ex-marido pela última vez, eram contraponteados por longos retornos no tempo, que iam contando a vida da dupla radiofônica e mostrando por que Herivelto foi tão malévolo nos últimos minutos de vida da cantora.

Os dois personagens centrais sempre se desencontravam, pois giravam em órbitas sociais bem diferentes: ele era um anacrônico patriarca brasileiro da roça, enquanto ela já era uma valente profetiza feminista, prenunciando o clima disruptivo dos anos sessenta. Mensagem da história? Não há canção bonita, por mais belas que sejam algumas de Herivelto, que supere em beleza a prática político-libertária de uma mulher cansada de ser Amélia.

Tudo indica, porém, que a personagem global Dalva de Oliveira, transformada em quase santa para melhor veicular a mensagem feminista do seriado, coincidisse muito pouco com a mulher real que tantos discou gravou. A prova estava na matéria que a imprensa publicou durante a exibição do seriado, sobre uma filha que a cantora teve com um comediante argentino — por nome Dalva Climent — e que não foi mencionada na obra.

Ficou patente a intenção da roteirista de distorcer os fatos reais, em proveito da sua utilização ideológica: a grande cantora não foi tão virtuosa quanto gostaria a produção do seriado. Segundo a advogada da filha, Dalva Climent morava pobremente na favela de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, e sofria de câncer. Essa filha, que tentou impedir a exibição de Dalva e Herivelto, movia um processo contra Pery e Ubiratan Ribeiro, filhos de Dalva e Herivelto, esses sim assumidos pela minissérie. Contra a Globo, prometia entrar com uma ação por danos morais e materiais. Essa era a novela da vida real, a “reality show” que a Globo jamais poderia mostrar.

Era o blefe ideológico exposto à luz do sol. Segundo a Folha de São Paulo (19/01/2010), Maria Adelaide do Amaral se justificou dizendo que fez um “recorte” na história da cantora. “Meu foco foi a relação de Dalva e Herivelto. Na história e na obra do casal, ela não teve importância. Não estou dizendo que não foi importante para Dalva, mas que não fez parte do período que optei por retratar [ela não havia nascido nessa época]”.

Que importava se a realidade histórica não batia com as ideias da escritora? Mais importante que os fatos é a agenda ideológica a ser cumprida. Por mais, porém, que nesse caso a arte tenha falsificado a vida, a súbita aparição da filha da cantora tornou a novela da vida real bem mais interessante e convincente do que o engajado seriado da Globo, escrito e dirigido não para servir à verdade dos fatos, porém ao mais tosco feminismo esquerdista.