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[Nesse artigo de 1948, o escritor Alceu Amoroso Lima relembra o seu amigo e diretor espiritual padre Leonel Franca, então recém falecido.  Padre Leonel Franca, de quem a editora Ecclesiae está relançando as obras, foi um dos maiores intelectuais brasileiros da primeira metade do século XX].

Éramos cinco, em nossa geração, os companheiros de 1893: Ronald de Carvalho, Mário de Andrade, Leonel Franca, Sobral Pinto e eu.

O primeiro a nos deixar foi Ronald de Carvalho, em 1936, depois de ter dado à nossa geração o balanço mais perfeito de nossas letras, do ponto de vista estético e uma obra poética da mais aguda versatilidade e elegância.

Em seguida, Mário de Andrade, em 1945, depois de ter empreendido a mais profunda revolução literária dos nossos tempos e ter aberto o caminho a uma nova fase de nossa literatura.

Agora, Leonel Franca. Já somos apenas dois e sabe Deus até quando?

De todos, foi incontestavelmente Leonel Franca o que subiu mais alto, o que se colocou tão acima de sua própria geração, que dominou de longe todas as gerações ainda conviventes, nesta hora sulcada por opções decisivas.

No panegírico que o Provincial da Companhia de Jesus traçou do nosso grande companheiro, do púlpito de Santo Inácio, ante a face ainda descoberta daquele que naquela hora se mostrava “tel qu’en lui-même enfin l’éternité le change”, disse o Padre Alonso por duas vezes, com a autoridade do seu cargo, das circunstâncias e das qualidades dos presentes, que àquele cujos despojos ali estavam fora indiscutivelmente um santo.

Escolheu desde cedo o caminho da santidade e daí o domínio absoluto e silencioso que exerceu não só sobre a sua geração toda, mas ainda sobre a sua época. Ninguém o excedeu em prestígio intelectual no Brasil, nesses últimos vinte anos. É evidente que nem todos o seguiam. É evidente que nem todos o aceitaram. Já não digo suas ideias ou sua direção, mas ainda mesmo o seu feitio intelectual, a sua intangível disciplina, o sua “lógica de cimento armado”, como me dizia Murilo Mendes, um dia, ao lado ainda de Ismael Nery, durante as memoráveis conferências que por três anos o Padre Franca pronunciou no Santo Inácio uma vez por mês, às sextas-feiras à noite, a convite do Centro Dom Vital, aí por volta de 1932 a 1935, se não me engano.

Se não havia naturalmente unanimidade, nem podia haver, em torno de um homem que tinha optado desde menino por uma Verdade que não admite vacilações no rigor dos seus princípios e das suas adesões profundas ao Dogma, se bem que permita todas as liberdades nos caminhos que chegam a ela ou que partem da encruzilhado central — se assim tinha de ser considerável a margem de atitudes diversas em frente a um homem como o Padre Franca, o que não havia eram discordâncias quanto à profundidade, à solidez, à harmonia incomparável do seu saber e à agilidade assombrosa de sua dialética.

Leonel Franca foi, no plano teológico e filosófico, o que Rui Barbosa foi no plano político e jurídico. Um florete de analista invencível, nas mãos de um lutador de cultura inabalável e profunda.

Sua cultura não era brilhante. Não era como em geral é a nossa aqui no Brasil, alimentada pelos brotos das árvores. Era cultura de raízes, de profundidade, de baixo para cima. Não dava, à primeira vista, a impressão de saber muito. Sabia calar. Sabia ouvir. Sabia ouvir como ninguém! Não fazia questão de brilhar. Muito pelo contrário. Silenciava quanto podia. Mas à medida que íamos debatendo o assunto, à medida que íamos entrando no âmago da sua ciência, íamos sendo tomados de uma impressão de respeito, até desistirmos de avançar mais, pois quanto mais descíamos e aprofundávamos um tema, mais sólido encontrávamos o terreno, mais difícil ia sendo qualquer contradição, mais convincentes iam sendo os seus argumentos, a sua dialética de “cimento armado”.

Não conheci, no Brasil, nenhuma cabeça mais organizada que a do nosso glorioso companheiro de geração, cujo saber no entanto ainda era nada ao lado da santidade.

O segredo da consagração que foi o seu enterro e da influência incomparável que exerceu sobre esses últimos vinte anos da vida brasileira estava, como todos os oradores à beira do seu túmulo acentuaram, novos e velhos, na aliança profunda entre o saber e o amor, entre o sábio e o Santo.

A virtude máxima, por isso mesmo, que irradiava dessa figura ascética, que agia pela simples presença, tal a irradiação espiritual daquele corpo esbelto e daquele olhar agudo e bom, como já em 1928 me advertia Jackson de Figueiredo, quando me aconselhava a ir ter com ele para pôr ordem e paz em minhas angústias metafísicas — a virtude máxima desse homem singular, que talvez um dia se instale ali em Santo Inácio no altar reservado a Anchieta, foi o equilíbrio. Um equilíbrio que não prejudicava em nada, antes ressaltava, a vivacidade, a autenticidade, a plenitude de cada elemento em jogo, nessa personalidade diferente e solitária, em que se encarnou tudo o que temos de melhor em nossa alma brasileira, com a exclusão de tudo o que tem de ruim e de imperfeito.

Tanto saber e tanta bondade, reunidas na mesma pessoa, não podiam deixar de produzir esse milagre de nossa geração. Geração traumatizada por duas guerras mundiais, por uma Revolução Social, por uma Crise contínua e universal, que Leonel Franca estudou com a meticulosidade que punha em todas as suas análises da realidade, geração de inquietos, de sacrificados, de angustiados ou de fanáticos, de que ele foi o centro de gravidade. Girávamos em torno dele, mesmo os que não participaram de suas ideias, mesmo os que o combateram violentamente ou recusaram as suas ideias ou o seu feitio. Estávamos com ele ou contra ele. Mais longe ou mais perto dele. Com o seu temperamento, sem o seu temperamento ou contra o seu temperamento.

Não importa. Pelo equilíbrio, pela profundidade do saber, pela harmonia da cultura filosófica, teológica, científica, sociológica e pessoal, que ia do trato intimo diário com Deus em suas meditações das madrugadas e dos noites altas, ao trato não menos íntimo com o segredo dos almas atormentadas, no confessionário ou na cela — por tudo isso, em face de amigos, indiferentes ou inimigos, foi o centro de gravidade de nosso geração, a encruzilhada de nossos caminhos nesses últimos vinte anos, nosso refúgio.

Éramos cinco. Depois quatro. Depois três. Hoje dois…

(Jornal A Manhã, Suplemento Letras e Artes, 12/09/1948)