antonio livi

[Após longa doença, morreu o grande filósofo e teólogo Monsenhor Antonio Livi (1938-2020), docente de filosofia da Universidade Pontifícia Lateranense. Foi implacável ao defender a objetividade da verdade contra a evidente decadência da teologia católica e a protestantização da Igreja.]

A má filosofia produz má teologia e esta leva a Igreja a perder o rumo. Monsenhor Antonio Livi, que ontem nos deixou aos 82 anos em Roma para nos esperar na Glória de Deus, quando também chegar a nossa hora, não tinha dúvidas de que a Igreja estava perdendo o rumo. Ele havia comprometido toda a sua vida de filósofo e teólogo explicando e defendendo a recta ratio, a verdade natural, a filosofia espontânea do espírito humano, sem as quais a recta fides não é possível, a fé não apenas como um ato subjetivo (fides qua), mas também como conhecimento das verdades reveladas e salvíficas (fides quae).

O deslocamento atual do objeto para o sujeito, do conteúdo para a prática, da doutrina para a pastoral, típica das épocas de decadência, segundo Josef Pieper (“Todas as épocas em processo de dissolução são subjetivas, enquanto todas as épocas que miram à frente possuem uma direção objetiva”), caracteriza bem a nossa época decadente e a situação da Igreja. Para Antonio Livi a teologia católica está perdendo toda referência a um sistema natural de pensamento, sem o qual ela se reduz a uma genérica literatura religiosa, a uma vaga exortação parenética, à assimilação mimética e complacente da linguagem do mundo, fazendo com que o dogma não seja mais necessário.

A fé cristã, sem a estrutura da verdade em seu pensamento — ele usava a expressão “epistemologia alética” — deixa de ser um saber autêntico, não mais se refere a todos os homens, não apresenta os dogmas em sua imutabilidade, nem os defende das heresias.

Na esteira de seu mestre Étienne Gilson, Antonio Livi foi um grande tomista que viveu em uma época em que a teologia católica deixou completamente de lado o realismo metafísico. É por isso que a sua vida foi uma “luta” teórica e prática — “Se você soubesse por quantas já passei!”, ele me disse um dia —, uma luta que durou até o último momento, uma luta que ele deixou como herança: “Eu tenho poucos momentos lúcidos em minha agonia, mas sei que outros a continuarão depois de mim”.

Assim como Gilson, Livi denunciou todas as tentativas modernas, necessariamente confluentes no modernismo, de negar o realismo filosófico, sabendo que, se se concede ao pensamento moderno uma pequena vantagem no início, mais cedo ou mais tarde o jogo estará perdido. A mesma batalha que Gilson havia empreendido orgulhosamente contra a escola de Louvain nos anos trinta do século passado, Livi enfrentou-a contra os neo-modernistas de nossa época, denunciando o crescente racionalismo de origem protestante presente na teologia católica e que anima a própria protestantização do catolicismo, agora já bem evidente a todos.

Sua “filosofia do senso comum” eliminava qualquer concessão à dúvida cartesiana e ao criticismo kantiano; impedia com firmeza qualquer acordo entre o realismo metafísico e os princípios da filosofia moderna; descartou como inconsistente e prejudicial a teologia oficialmente professada em muitos centros acadêmicos católicos, incluindo as universidades pontifícias; enfrentou abertamente os mestres mais aclamados do pensamento católico atualmente em voga, tão inconsistentes quanto paparicados pelo novo establishment eclesiástico.

Como Réginald Garrigou-Lagrange havia feito nos anos quarenta do século passado, Antonio Livi se perguntava para onde estava indo a “nouvelle théologie” e seu diagnóstico confirmava o do grande dominicano: ela conduz à tese de que uma teologia não atual é falsa e que a teologia verdadeira, para ser verdadeira, deve ser atual. É assim que Rahner pensava e Walter Kasper pensa hoje, para os quais o ser é tempo e o tempo é ser: a teologia surgiria da existência que está sempre mudando e, por isso, também ela mudaria.

Uma teologia imutavelmente verdadeira hoje é considerada impossível, mesmo pelo vértice da Igreja, mas não por Antonio Livi. Em seu talvez mais famoso livro, Verdadeira e falsa teologia, ele apresentou uma lista de teólogos, depois várias vezes atualizada, que distorceram a teologia católica e, no entanto, foram homenageados pela autoridade eclesiástica. Em seus últimos editoriais da revista Fides Catholica, da qual assumira a direção após os conhecidos eventos referentes aos Franciscanos da Imaculada, denunciou a lógica hegeliana que havia penetrado no próprio Magistério, como uma conseqüência madura da nova teologia modernista (para a qual um certo ensinamento doutrinário ou moral é verdadeiro, mas os tempos mudam e, portanto, é necessário reconsiderá-lo).

Antonio Livi deve ser comparado, como já observado, a Garrigou-Lagrange, Étienne Gilson, Cornelio Fabro, aos grandes filósofos e teólogos da Escola Romana, cuja riqueza foi rejeitada e esquecida sem que ninguém soubesse dizer por quê. Rejeitar uma verdade por não ser mais atual, significa rejeitá-la sem um motivo convincente. Certamente é triste que os grandes sejam rejeitados sem motivo. De resto, porém, isso evidencia a sua grandeza, em relação à qual nenhum motivo é suficientemente forte para rejeitá-la.

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