Catedral cátara

A língua inglesa tem duas metáforas interessantes para designar tipos opostos de pessoas: mainstream (literalmente corrente principal) e fringe (literalmente franja, borda). Sempre houve pessoas assim: as que se deixam levar pela corrente dominante das opiniões e as que se sentem mais à vontade nadando contra a corrente. A razão pode estar ora de um lado, ora de outro, vista pela maioria ou só por poucos.

O melhor exemplo talvez seja o cristianismo, que começou desprezado pela corrente dominante à época de Jesus e, mais tarde, fundaria uma civilização (a maior de todas as civilizações, na visão de uma minoria fringe de cristãos atuais…), passando então a sofrer, em suas orlas, os efeitos de tais minorias adversárias, contra a corrente, “heréticas”, como ele próprio foi em seu início.

Não faltam exemplos de correntes minoritárias que passaram ao centro. Foi o que ocorreu com uma dessas heresias cristãs, o catarismo: seita maniqueísta, que afirmava ser bom somente o espírito, criado por Deus, enquanto a matéria era essencialmente má, pois teria origem diabólica. Eram inimigos da propriedade privada e o corpo era visto como sórdida prisão da alma. Dividiam-se em duas categorias: os “perfeitos” e os “simples”.

Os verdadeiros cátaros, os “perfeitos”, consideravam o sexo uma coisa abominável e se retiravam do mundo, vivendo em pobreza e mortificação. Eram vegetarianos — não ingeriam comida animal, produzida sexualmente. Já os “simples”, que compunham a grande maioria, viviam sem maiores constrangimentos morais. Para serem salvos, bastava que, na hora da morte, recebessem o “consolamentum”, imposição de mãos que apagava todos os pecados anteriores (uma espécie de batismo sem água). Casamento e filhos deviam ser evitados, enquanto o aborto, o suicídio e a eutanásia eram práticas legítimas, pois favoreciam a libertação da alma.

A ameaça social do catarismo logo chamou a atenção da Igreja, que se apressou a combatê-lo. Inocêncio III, o grande Papa desse período, percebeu que o mal avançava devido à ignorância religiosa dos católicos e enviou missionários especialmente preparados às regiões mais impregnadas da heresia.

São Domingos de Gusmão, contemporâneo de São Francisco de Assis, foi um dos protagonistas na batalha espiritual contra o catarismo (que exigiu, também, outras armas). Espanhol de família ilustre, teve sólida formação intelectual e era de uma lucidez notável, imbatível na argumentação. Foi, ao mesmo tempo, profundo místico e homem de ação, um pregador como poucos em sua época. A ordem por ele fundada em 1215, os Irmãos Pregadores, seria mais tarde a célebre Ordem Dominicana. Em contraste com padres e bispos de então, vestiam-se com extrema simplicidade. Iam de aldeia em aldeia, esclarecendo os cristãos sobre as verdades católicas. Onde houvesse ameaça à fé, São Domingos para lá enviava seus pregadores, que não viam nenhuma incompatibilidade entre a vida de estudo e a pobreza evangélica.

Esses pregadores de aldeia logo conquistaram cátedras nas grandes universidades da Europa (era dominicano o maior pensador católico da Idade Média, Santo Tomás de Aquino, nascido alguns anos após a morte de São Domingos). Enfim, uma das ordens religiosas mais fecundas da Igreja Católica surgiu da luta contra a devastadora heresia cátara — atualíssima em muitos aspectos.

Não é difícil ver no gnosticismo cátaro as origens de muitos dos males modernos. Nada é mais atual do que o maniqueísmo corpo-espírito, que continua a existir, embora de forma invertida: procura-se libertar o corpo da rédea moral do espírito. A recusa da propriedade privada encontra perfeita ressonância no comunismo. A divisão das pessoas em “perfeitos” e “simples” se transformou no dualismo burguês-versus-proletário do comunismo; no dualismo repressor-versus-liberado da revolução freud-marxista de 1968.

Um extremismo se transforma facilmente em seu oposto. Enquanto os cátaros “perfeitos” consideravam o sexo uma coisa abominável e se retiravam do mundo, vivendo em pobreza e mortificação, os neocátaros consideram o espírito algo abominável e mergulham de cabeça nas coisas mundanas: comprando, comendo, bebendo, drogando-se, fazendo sexo sem limites. A maioria dos cátaros antigos, ditos “simples”, viviam sem maiores constrangimentos morais. Hoje, quem assim vive são considerados, eles sim, os “perfeitos”.

Se os cátaros ditos “perfeitos” do passado evitavam o casamento, pois era fonte da detestável procriação humana, os neocátaros de hoje também evitam filhos. Se o aborto, o suicídio e a eutanásia eram práticas legítimas entre os velhos cátaros, não o são menos entre novos (naqueles, pois favoreciam a libertação da alma; nesses, pois favorecem a libertação do corpo e da libido).

E, por incrível que pareça, o vegetarianismo dos cátaros está hoje na ordem do dia, ainda que por razões distintas: ontem, a carne dos animais devia ser evitada, pois era produzida sexualmente; hoje, a carne dos animais não deve ser comida pois são, enfim, nossos irmãos, o mesmo valendo para nossas irmãs as árvores, que não podem mais ser abatidas em hipótese alguma, nem modificado o curso de nossos irmãos os rios com a construção de hidroelétricas. A natureza, em vez de racionalmente defendida, é idolatrada.

O neocatarismo, minoria perigosa na Idade Média, está se transformando em corrente dominante, mainstream. E o cristianismo parece retornar à condição marginal (fringe) que tinha à época de Jesus, possibilidade que Nosso Senhor mesmo admitiu, numa das perguntas mais terríveis da Bíblia: “Quando vier o Filho do Homem, acaso achará fé sobre a terra?” (São Lucas, 18, 8)