distração

O escritor americano Saul Bellow escreveu um interessante ensaio, em 1990 (“O público distraído”), para mostrar como o homem contemporâneo é essencialmente um distraído: envolve-o um grande barulho, “o barulho moderno”, que visa roubar-lhe a atenção das coisas essenciais para as supérfluas. Esse mega barulho provém sobretudo da mídia, que despeja sobre o público, honesta ou desonestamente, informações de toda a espécie: do dia a dia da política até guerras e revoluções, passando por conflitos religiosos e raciais, questões ligadas à revolução sexual (e suas consequências na vida familiar, na educação dos filhos, na relação entre os sexos), novidades da medicina, lançamento de livros, o mundo dos espetáculos etc.

Concluía Bellow que, com tanto barulho no ar, não era fácil despertar a atenção das pessoas para aquilo que realmente vale a pena e muito menos fazê-las entrar num acordo. Se tivesse esperado mais alguns anos, ouviria novos ruídos acrescentados a essa sinfonia dodecafônica em que se transformou a vida moderna (ou, vá lá, pós-moderna): o movimento pela livre escolha do próprio sexo (LGBT), o apocalipse climático, a necessidade da redução populacional (pelo casamento homossexual, o aborto, a eutanásia).

As pessoas estão muito distraídas. No atual confinamento contra o coronavírus, o que é que a maioria delas estará fazendo? Não é preciso muito esforço de imaginação para adivinhar: trocando mensagens pelas redes sociais, vendo filmes, jogando videogame, fazendo sexo, comprando pela internet, abrindo a geladeira a todo instante etc., totalmente rendidas à indústria da informação e do divertimento Ou seja, os mesmos ingredientes de antes, com algumas justificadas pitadas de pânico, sobretudo entre os mais velhos.

Há quem diga apocaliticamente, à esquerda e à direita, que o mundo não será mais como antes da pandemia, devendo surgir obrigatoriamente um novo mundo da crise econômica e social que se seguirá. Mas será possível, com um material semelhante ao descrito no parágrafo anterior — mensagens do whatsapp, filmes ocos, joguinhos eletrônicos, sexo fácil, gula, compras pela internet —, lançar as bases para a construção de uma nova época?

Salvo em casos excepcionais aqui e ali, o sentido espiritual da atual pandemia — chamar a atenção para a transitoriedade desta vida — se perderá inevitavelmente nesse oceano de frivolidade que é a vida moderna (ou pós-moderna, como se queira).

É até mais provável que ocorra o contrário das grandes conversões espirituais: pessoas que procuravam as Missas dominicais só por hábito, preferirem depois do coronavírus aproveitar mais criativamente aquela hora. Afinal, não faltarão mensagens de whatsapp, filmes vazios, joguinhos eletrônicos, sexo fácil, gula insaciável, compras pela internet etc.

Para o homem de hoje despertar dessa profunda distração existencial em que está mergulhado, não bastam leves puxões de orelha de Deus. Pois é isto essa pandemia, se comparada às grandes pestes medievais (sobretudo a de 1348) e do início da época moderna, das quais nos livre Deus em sua misericórdia…