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Não só Fernando Pessoa tem heterônimos. Manuel Bandeira também os tem, embora sem nomeá-los. São as várias facetas do poeta, que permanentemente reaparecem em suas obras: o agnóstico e o católico, o hedonista e o estoico, o mórbido e o erótico, o clássico e o romântico — as linhas conflitantes e muitas vezes complementares de sua poesia.

Essas facetas são familiares aos que frequentam os seus livros de poemas. Se Manuel Bandeira, o poeta das estrelas frias e inacessíveis, também foi marcado pela influência de Machado de Assis, sua visão pessimista do mundo era contrabalançada por um lirismo que suavizava os aspectos mais cruéis do seu desengano existencial, provocado pela doença que o acompanhou durante a vida e que jamais conseguir suportar de forma cristã. Seu humor não era cáustico como o do mestre carioca e, de vez em quando, inesperadamente, fazia entrar em cena um homem católico em franco contraste com o viajante hedonista de Pasárgada ou o doente estoico aguardando ansiosamente pela morte do corpo e da alma.

Compreendia a sua vida pessoal como uma espécie de poema melancólico escrito pelo Destino (“…veio o mau destino e fez de mim o que quis”, confessa num dos primeiros trabalhos), referindo-se à tuberculose, que o afetaria para sempre. O sentimento da doença e da morte, sempre em contraste com o amor da carne — eis os dois grandes hemisférios de sua poesia.

Há um poema de Bandeira que parece exprimir bem o seu pessimismo pós-católico. Foi escrito em abril de 1935, conforme testemunha do escritor Marques Rebelo. O ateu Rebelo assistia, na companhia do agnóstico Manuel Bandeira, à Missa de Sétimo Dia do contista Alcântara Machado. Os dois sobravam na igreja entre deputados, políticos, funcionários da Câmara, magnatas da indústria e do comércio, gente que nada tinha a ver com literatura.

Depois da Missa, já caminhando na rua, Bandeira tirou um papel do bolso e deu a Rebelo, dizendo-lhe:

— Fiz ontem. Saiu de uma assentada.

Era o poema “Momento num café”. O texto falava de um enterro passando à frente de um café, no Rio de Janeiro. Os homens saíam à porta, saudavam o morto. Mas o faziam distraídos e maquinalmente, pois estavam todos voltados “para a vida, absortos na vida, confiantes na vida.” Todos com exceção de um, que se descobriu “num gesto largo e demorado, olhando o esquife longamente: este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade, que a vida é traição, e saudava a matéria que passava liberta para sempre da alma extinta”.

Marques Rebelo conta que suas mãos tremiam com aquele pedaço de papel entre os dedos, numa espécie de integração total naquela verdade exposta de maneira simples e no entanto contundente: a matéria que passava liberta para sempre da alma extinta. Estranha concepção de liberdade, vinculada ao desaparecimento do que, no ser humano, lhe é mais caro: a alma. “A vida é traição”, diz um dos versos desse belo e, no entanto, terrível poema, que muito deve ter agradado ao Diabo, cujo maior desejo é ver o ser humano perder a fé.

Esse homem negador e satanista teria sido, certamente, um dos heterônimos não assumidos de Manuel Bandeira.