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[O poeta Drummond, ex-católico que infelizmente nunca retornou à Igreja, escreveu algumas coisas admiráveis. Talvez o poema baixo não esteja entre as suas obras-primas, mas é muito bem feito e revela o tipo de percepção que um agnóstico costuma ter dessa terrível paixão humana, demasiado humana, que é o medo].

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas

(Drummond. Sentimento do mundo. Rio, Pongetti, 1940)