Comunismo

[Bruno Riondel é professor de história no Liceu Louis-le-Grand de Paris. Acaba de publicar o livro L’effroyable vérité – Communisme, un siècle de tragédies et de complicités, “Uma verdade assustadora – Comunismo, um século de tragédias e cumplicidades”, editora L’artilleur, 800 p.]

“Durante a vida de Lenin, não houve menos massacres inocentes na população civil do que sob o governo de Hitler; no entanto, os alunos ocidentais que, hoje, dão a Hitler o título de maior vilão da história, consideram Lenin um benfeitor da humanidade”, escreveu Alexandre Soljenitsyne.

Este é o problema: o que Solzhenitsyn escreveu sobre Lenin e Hitler pode ser transposto para o plano ideológico, onde ainda triunfa uma diferença de percepção entre comunismo e nazismo, em benefício do primeiro. De modo que, erroneamente, muitos acreditam que o comunismo foi um ideal que deu errado, sem entender que o mal estava no fundamento de uma ideologia baseada no ressentimento, no ódio de si, conclamando a uma luta do tipo darwinista.

Um processo contra o comunismo poderia, assim, mostrar o quanto uma ideologia, baseada na luta de classes, inevitavelmente levaria seus adeptos a travar uma luta de morte contra outras classes sociais, colocadas na posição de inimigos radicais, implicando como resultado, sempre, a existência terrível de genocídios e campos de concentração.

Um julgamento do comunismo também poderia revelar como o vício pode esconder-se no próprio coração de um discurso progressista; e quantos grupos mal-intencionados poderiam, por esse meio enganoso, cometer os piores atos de violência, com boa consciência, como Lenin mesmo declarou, em 1918, justificando a instauração de sua sangrenta ditadura: “Para nós tudo é permitido, porque somos os primeiros no mundo a levantar a espada, não para oprimir e escravizar, mas para libertar a humanidade de suas cadeias”.

Um processo contra o comunismo, enfim, cujo objetivo seria altamente pedagógico, podendo, em consequência, permitir esclarecer quanto a realização de um discurso progressista deve ser inseparável, em quem o defende, de uma consciência elevada da dignidade humana, o que nunca aconteceu com os líderes da chamada revolução proletária.

Infelizmente, a influência dos grupos marxistas permanece forte, tanto nos países ocidentais, quanto nos países aparentemente libertados do comunismo, como perceberam muitos pesquisadores poloneses, albaneses ou romenos, que sofreram intimidações ou até perderam seus cargos, em seguida às revelações embaraçosas que apareciam, em seus trabalhos, sobre seus antigos dirigentes. Com frequência, nesses países, os poderes hoje democratizados ainda são mantidos por grupos de ex-comunistas, que mudaram de pele, ao se livrarem de seus representantes mais implicados em crimes passados, mas nunca fizeram o mea culpa.

Ocorre algo semelhante em nível europeu: tais grupos bloqueiam todas as iniciativas de passar a limpo a memória histórica. Em 2006, um projeto de resolução apresentado à assembleia parlamentar do Conselho da Europa, com o objetivo de condenar oficialmente os crimes de comunismo, foi rejeitado. Os votos contrários se justificaram pela recusa em estabelecer “um sinal de igualdade entre comunismo e nazismo”.

O desafio de um julgamento simbólico do comunismo é, no entanto, necessário, se se deseja limpar a consciência coletiva dos miasmas bolcheviques que ainda a contaminam, além de promover uma limpeza da memória no momento em que uma oligarquia globalizada, ávida de poder, pretende estabelecer no mundo um neototalitarismo.

O julgamento do comunismo tornaria possível, finalmente, fundar uma memória histórica global verdadeiramente objetiva, que é um patrimônio comum da humanidade. Deve ser sacralizada — para que não a deturpem clãs mal intencionados.

https://www.lesalonbeige.fr/entretien-avec-bruno-riondel-sur-le-communisme-2/