rua deserta

Um bilhão. Este é o número de pessoas que estão, nesta primavera de 2020, confinadas em suas casas. Confinadas. Retiradas. Fechadas. Separadas do mundo. Em isolamento.

Como apontou o sempre excelente Sylvain Tesson, em uma entrevista escrita com Vincent Trémolet de Villers em Le Figaro em 20 de março, em poucos dias passamos das fronteiras abertas ao “fique em casa”. Uma reviravolta radical e inesperada. Uma espécie de revolução copernicana com fórceps. A sociedade pós-moderna, tão viciada em mudanças, tinha por deus o filósofo pré-socrático Heráclito, para quem “tudo é movimento”. Seus “dogmas” eram o multiculturalismo, o cosmopolitismo, o globalismo. Suas “virtudes” dependiam de companhias aéreas de baixo custo, programas de intercâmbio educacional, transmissões de reality shows “desenraizados”.

Através do confinamento de suas populações, as autoridades públicas de 165 países se colocam hoje, sem saber, sob a égide de São Bento, que a Igreja celebrou no último sábado. Estabilidade. Simplicidade. Vida doméstica em uma pequena comunidade. A famosa regra do fundador da ordem beneditina revela, para quem nela queira mergulhar, tesouros de bom senso e preciosos conselhos que garantem viver em paz entre quatro paredes. Não seria ele o melhor modelo para o atual momento, ensinando a tirar o máximo proveito desta crise, lidando com tudo de maneira sábia? Basta olhar o índice da regra de São Bento, que trata de assuntos tão variados como a questão da “medida equilibrada da comida e da bebida”, as “sanções”, o “destino reservado aos idosos e crianças ” ou ainda sobre o “trabalho diário “.

A atual atmosfera repentina e extremamente calma, sobretudo nas áreas urbanas, parece insólita e nova para muitos. Não seria uma boa fonte de meditação interior ou de retiro espiritual para o bilhão de pessoas [que hoje estão confinadas em suas casas]? Infelizmente, o barulho que não vem mais de fora pode vir, no entanto, das telas de tevê.

Acaso podemos tirar proveito dessa nova situação, estranha para alguns, infeliz para muitos? O mistério do mal, de acordo com a teologia católica (embora possa parecer escandaloso abordá-lo em algumas linhas aqui), pode ser resumido da seguinte forma: Deus não quer o mal, nem poderia ser definido como seu autor; no entanto, Deus pode permitir que o mal aconteça. Nesse caso, se sua Providência permite uma calamidade, isso só poderá ocorrer para resultar num bem maior. Um maior bem que pode ser alcançado ou não… O homem é realmente livre em seu interior para aproveitar, ou não, as consequências de uma provação, para receber suas lições e tomar as decisões necessárias.

Depois deste confinamento, será a hora dos verdadeiros homens da Igreja apresentarem um diagnóstico, exaustivo e preciso, sobre as doenças espirituais que habitam a alma humana nos últimos 50 anos. O filósofo Denis de Rougemont fez essa observação implacável: “A decadência de uma sociedade começa quando o homem se pergunta: ‘o que vai acontecer?’ em vez de se perguntar ‘o que posso fazer?'” Sem dúvida, já há muito tempo que nos encontramos assim. A pandemia atual, em última análise, apenas ilumina nosso declínio moral — essa queda lenta que a grande maioria tem se recusado a admitir. Um superior de comunidade sacerdotal analisou-o muito apropriadamente: “O homem contemporâneo, que se orgulha tanto de suas realizações, agora se encontra indefeso diante de um micróbio invisível. (…) Um simples micróbio é capaz de fazer a humanidade ficar de joelhos. Na era das grandes conquistas tecnológicas e científicas, é sobretudo o orgulho humano que ele traz de joelhos. (…) Não é hora de deixar o mundo entrar, agora que as circunstâncias e as medidas das autoridades nos separam do mundo! Vamos tirar proveito dessa situação. Vamos dar prioridade a bens espirituais que nenhum micróbio pode atacar.”

Portanto, para sair dessa situação não basta cada qual ficar metido em sua casa.

Antes de continuar com a contagem diária dos contaminados e mortos do Covid-19; antes de nos perguntarmos “o que vai acontecer?”, depois de lidas as últimas notícias, devemos fazer a única pergunta que vale a pena, aquela que rejeita a decadência em nome do esforço vital: “O que podemos fazer?” Não podemos mais nada, além de ficar em casa?

Este confinamento não é tempo de descanso, nem de ficar diante da tevê. É de um verdadeiro ócio que as almas precisam: divertirem-se repassando as obras de sua biblioteca interior. A humanidade tem a oportunidade histórica de retornar à realidade, ao mundo concreto, ao valor humilde das virtudes domésticas.

No prefácio de sua obra Os prazeres e os dias, Proust confidenciou: “Quando eu era criança, o destino de nenhum personagem da História Sagrada me parecia tão infeliz quanto o de Noé, por causa do dilúvio que o manteve trancado na arca por quarenta dias. Mais tarde, estive muitas vezes doente e por longos dias tive de ficar na ‘arca’. Percebi então que Noé nunca poderia ver o mundo tão bem como da arca, embora ela estivesse fechada e fosse noite em toda a terra.”

A arca do nosso confinamento é semelhante ao quarto do jovem Marcel Proust sofrendo. Atualmente, estamos sofrendo por muitas coisas. Para a cura, cabe a nós começar a ver melhor o mundo. Reordená-lo. Encontrar-se a si mesmo e com Deus. Este vírus não haverá de fazer tanto barulho por nada.

https://www.lesalonbeige.fr/avant-de-nous-demander-ce-quil-va-arriver-posons-nous-la-seule-question-qui-vaille-que-pouvons-nous-faire/