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Mr. Jones: eis  um filme que, presumivelmente, nunca veremos na Itália. Por quê? Porque é anticomunista. Tive que sair procurando-o pela internet, achando-o no idioma original, felizmente legendado.

Para quem não conseguiu encontrar, posso resumir a história. Mr. Jones é uma produção britânico-polonesa-ucraniana e conta a história verídica de um jornalista galês freelancer, Gareth Jones, o primeiro estrangeiro que em 1933 conseguiu entrevistar Hitler. Isso lhe rendeu uma colaboração temporária com a equipe do primeiro-ministro inglês Lloyd George, imediatamente revogada quando revelou sua intenção de repetir a proeza entrevistando Stalin. Não podia: a URSS era na época um parceiro comercial e o Reino Unido precisava urgentemente dessa parceria, após a crise financeira em Wall Street.

Mas o galês é teimoso. Ele se pergunta, de fato, como a URSS conseguiu prosseguir com a industrialização a passos largos, quando o resto do mundo estava falido. Onde Stalin arranjava tanto dinheiro?

Então, com alguma esperteza, ele viaja até Moscou, onde descobriu que um famoso colega americano, Klebb, acabava de ser morto em um assalto. Quatro golpes nas costas: «assalto»? Jones descobriu que ele queria compreender o que ocorria com a Ucrânia, que todo mundo por ele entrevistado definia como “o ouro de Stalin”. Ou seja, trigo, da qual a Ucrânia era grande produtora e que Stalin vendia no exterior.

Ainda fingindo ser “secretário” de Lloyd George, ele partiu para a Ucrânia. Mas ele ia acompanhado: seus acompanhantes lhe mostrariam uma “vila Potemkin”, ou seja, o que lhes interessava mostrar. No trem, ele conseguiu escapar e entrou no vagão de animais. Ali, viajava um grupo de miseráveis que, famintos, o observavam chupar uma laranja e depois se atiram sobre as cascas. Jones saltou no meio do caminho e vagou pela neve. Viu depois os cadáveres da fome, testemunhou episódios de canibalismo e, finalmente, os grãos de trigo empilhados em caminhões com destino a Moscou.

Eis o que era o “ouro de Stalin”: um “dumping”, requisitar toda a colheita para vendê-la no exterior e obter muito dinheiro. Para os ucranianos, é o Holodomor, a primeira carestia provocada da história, com dezenas de milhões de mortes. O correspondente do New York Times em Moscou, Walter Duranty, ex-Prêmio Pulitzer, sabia de tudo, mas informava o contrário aos americanos.

Jones foi capturado, mas o libertaram, mas devia fazer o mesmo que Duranty; caso contrário, seis engenheiros britânicos trabalhando em uma usina em cooperação seriam mortos. Jones procurou Lloyd George, que abriu os braços: o país estava em crise econômica, não se podia bancar o difícil… Jones contou a verdade em um jornal do interior, mas foi ridicularizado e expulso. Contudo, o grande editor americano Hearst, de férias no País de Gales, o ouviu, pois o falecido Klebb era um de seus jornalistas.

Finalmente, todos os jornais do grupo Hearst publicaram a verdade sobre a Ucrânia, decepcionando todos aqueles radicais chiques dos EUA que aplaudiam o “experimento” soviético (e mesmo os industriais que negociavam com Stalin). Duranty permaneceu em seu lugar, de onde continuaria enganando seus leitores sobre os “milagres” dos planos quinquenais soviéticos.

Um desses leitores era o jornalista Eric Arthur Blair, a quem Jones conheceu e contou tudo. O jornalista impressionado, com o pseudônimo de George Orwell, escreveria A revolução dos bichos. Jones, que ficou famoso no jornalismo como enviado especial, cessou sua carreira na Mongólia, onde se encontrava para uma reportagem. Jones acabou como Klebb, antes dos trinta anos.

O filme, dirigido por Agniezska Holland, é muito bem feito; portanto, angustiante. Duranty é vivido pelo ator  Peter Skargaard, a quem já conhecemos como o sedutor viscoso de Educação (filme de 2010). Ah, foi o próprio Duranty que convenceu o presidente americano Roosevelt a ajudar a União Soviética.

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