matrimonioromano

A castidade e o pudor — inclusive a virgindade — foram valores em alguma medida conhecidos pelo mundo pagão antigo. Esta moderação honesta, obrigada não poucas vezes pela necessidade, foi vivida sobretudo entre os pobres. Mas entre os ricos, e também entre os pobres, ainda que em outra medida, reinaram amplamente a luxúria e o impudor, de tal modo que sobre estes pecados havia uma consciência moral sumamente obscurecida. Mais ainda, em não poucas ocasiões haveria que se dizer, como disse São Paulo, que sobre estas questões havia apenas consciência de pecado.

No ensino do Apóstolo, efetivamente, esta cegueira moral da luxúria e do impudor afetava aos pagãos precisamente porque “alardeando sabedoria, se fizeram néscios, e trocaram a glória de Deus incorruptível pela semelhança da imagem do homem corruptível”. Por isso precisamente se viram afundados nas misérias da fornicação e da impudicícia, “porque adoraram e deram culto à criatura em lugar do Criador, que é bendito pelos séculos (Romanos 1, 22-25): “Por isto Deus os entregou aos desejos de seu coração, à impureza, com que desonram seus próprios corpos… Por isto Deus os entregou às paixões vergonhosas, pois as mulheres mudaram o uso natural em uso contra a natureza; e igualmente os varões, deixando o uso natural da mulher, se abrasaram na concupiscência de uns pelos outros, cometendo torpezas homens com homens, e recebendo em si mesmos o pagamento devido aos seus extravios. E por isto, porque não procuraram conhecer a Deus, Deus os entregou a seus sentimentos perversos, que os leva a cometer torpezas, e a encher-se de toda injustiça, malícia, avareza, maldade (etc.). Todos estes, conhecendo a sentença de Deus, que quem faz tais coisas são dignos de morte, mas não só os que fazem como também os que aplaudem a quem as faz” (Romanos 1, 24-32).

Mostra, pois, o Apóstolo neste escrito o nexo profundo que existe entre a irreligiosidade e a luxúria, que é uma forma de idolatria.

A plena revelação da castidade não se dá senão em Jesus Cristo, em quem se produz a plena revelação de Deus. É compreensível, pois, que os pagãos, desconhecendo a Deus, vivam na idolatria, e deem culto à criatura humana, que é “a imagem de Deus”, idolatrando concretamente a beleza corporal e a atividade sexual.

Tudo isto significa que os cristãos, também nestas questões que se referem ao impudor e à luxúria, devem morrer completamente à mentalidade e aos costumes do homem pagão, carnal, velho, cegado por sua estupidez espiritual, e devem renascer ao espírito novo e santo que Cristo traz, o novo Adão, origem da nova humanidade: “Fazei morrer em vossos membros tudo o que é terreno, a luxúria, a impureza, a paixão desordenada, aos maus desejos e também a avareza, que é uma espécie de idolatria. Estas coisas provocam a ira de Deus, e nelas também vós andáveis antes, quando viviam nelas” (Colossenses 3,5-7).

O cristianismo, é evidente, nos primeiros séculos de sua vida, teve que afirmar a castidade perfeita e o pudor perfeito num mundo judeu e num mundo greco-romano que em grande medida ignoravam e rechaçavam este espírito novo. Me referirei agora concretamente à situação do mundo romano decadente daquela época (Jérôme Carcopino, La vie quotidienne à Rome à l’apogée de l’empire, Hachette 1972).

O adultério era muito frequente entre os cidadãos romanos e estava completamente trivializado. E não só os homens se concediam a triste liberdade de adulterar, mas também as mulheres, como aquela que dizia a seu esposo: “Tu fazes o que quiseres, mas deixa-me também a mim que faça o que eu queira. Podes protestar e clamar ao céu e à terra, que nada conseguirás. Eu também sou um ser humano (homo sum!)” (Juvenal VI, 282-284).

As infidelidades conjugais – ao menos nas classes ricas e médias – eram tão numerosas que só ocasionavam escândalo. A existência de numerosos escravos e escravas, libertos e libertas, a facilidade para o concubinato voluntário ou imposto, colaboravam sem dúvida para esta situação perversa.

A libertinagem era especialmente frequente nas libertas, antigas escravas, que em sua nova situação estavam ávidas por riquezas e elevação social. Adestradas às vezes por sociedades mercantis, conseguiam grandes fortunas com seus encantos. E as esposas tinham que chegar a um bom entendimento com estas corruptoras de seus maridos e de seus filhos, tomando-as com frequência mais como colaboradoras e modelos do que como rivais.

Não faltam maridos que comercializam a beleza de suas esposas, e vêm a ser tantos os casos que a lei Julia há de dedicar ao sórdido assunto um parágrafo intitulado De lenocinio maritii.

Em Roma, nos tempos heroicos da República, o marido não podia exigir o divórcio sem um motivo válido, reconhecido num conselho familiar. Mas com a degradação moral sempre crescente, já no século II “é corrente o divórcio por consentimento mútuo dos cônjuges ou por vontade de um deles” (Jérôme Carcopino). Há uma verdadeira epidemia de separações conjugais, que se estende por todo o Império, e que chega a pôr em grave perigo a natalidade. A lex de ordinibus maritandis, ditada por Augusto, consegue evitar que, no matrimônio, tanto o marido como a mulher estejam sempre abertos a novos enlaces.

Os maridos poderiam facilmente trocar sua esposa velha por uma jovem. “Basta que apareçam três rugas no rosto de Bibula para que Sertorius, seu marido, vá em busca de outros amores, e para que um liberto da casa diga para ela: ‘recolha suas coisas e vá-se embora’” (Juvenal VI, 142ss).

Mas, as esposas tampouco ficavam atrás: “se divorciam para casar-se e se casam para divorciar-se (exeunt matimonii causa, nubunt repudii)” (Sêneca, De benef. III, 16,2). Estas, que se casam e divorciam tantas vezes, na realidade vivem em um contínuo adultério legal (quae nubit totiens, non nubit: adultera lege est) (Marcial, VI, 7,5).

O teatro clássico romano ficou já muito para trás, e agora as comédias de violência e sexo, estimulando as mais baixas paixões do público, conseguem os maiores êxitos.

O mimo é um gênero teatral no qual os imitadores representam em toda a sua crueldade os aspectos mais grosseiros da vida real. Não representam a realidade normal da vida social, mas elegem o mais atroz e impudico (a diurna imitatione vilium rerum et levium personarum) (Evanthius, segundo Jérôme Carcopino). É possível ver em cena como se mata realmente ao homem mau da comédia, e para isto se utilizam de um condenado a morte [Isto é, na Roma Pagã se colocava em cena um verdadeiro condenado à morte da época, para que fosse executado no palco, em frente ao público]. Em cena se representam ao vivo toda classe de obscenidades, e com frequência as atrizes aparecem nuas, seja porque representam histórias mitológicas ou porque atuam em comédias cujo roteiro assim o exige (ut mimae nudarentur) (Valerio Máximo II, 10,8).

Violência e sexo invadem o teatro e a literatura. “Por surpreendente que parece a coincidência, são estes os mesmos ingredientes que há dezoito séculos compunham os mimos romanos” (Jérôme Carcopino). Na realidade existe a coincidência, mas não a surpresa, pois é lógico que o mundo [de hoje] que deu as costas a Deus e a seu Cristo recaia nos vícios pagãos, e nestes mesmos vícios caia ainda mais baixo.

A todos estes maus costumes de Roma hão de adicionar-se a obsessão crescente pelos ginásios, tal como estes vinham da Grécia (gymnásion, derivado de gymnós, desnudo); a brutalidade do anfiteatro e do circo; as cenas intermináveis, com intermédios de cantos e danças lascivas, que facilmente terminam em grosseiras orgias… Por outra parte, convêm recordar que “os dias de festa obrigatório na Roma imperial somavam mais da metade do ano. A cifra de 182 dias, que temos contado, é só um mínimo muitas vezes ultrapassado (Jérôme Carcopino).

(Padre José María Iraburu. Elogio del pudor. Pamplona, Fundación Gratis Date, 2000)