Marx-Engels-Lenin-e-Stalin

São realmente impressionantes as analogias, as coincidências, entre a Lenda do Grande Inquisidor de Dostoiévski e a narração “Récit sur l’Antéchrist”, em Conscience de la Russie, de Vladimir Soloiev. O socialismo russo procura realizar as promessas da tríplice tentação do Diabo no deserto: pão, poder e união. É neste sentido que Mereskovski — autor da obra No Reino do Anticristo — chama Dostoiévski de “profeta da revolução russa” e é por essa razão que Berdiaiev o considera “o autor espiritual das correntes religioso-apocalípticas na Rússia”. No dizer de Berdiaiev, “o modo de ser apocalíptico do povo russo — apesar das profecias de Dostoiévski — não o defendeu da tentação pelo Mal anticristão. Não somente a intelligentsia, mas também o povo sucumbiu fatalmente ante o ataque das três tentações e renunciou à liberdade inata do espírito” (p. 193).

O Grande Inquisidor confessa, sem rodeios: “Nós não estamos contigo, mas com Ele, já há muito tempo”. Aliocha descobre facilmente o sentido do poema que lhe transmite o irmão ateu, Ivan: “O ateísmo, eis o seu segredo. Teu inquisidor não crê em Deus”. E Ivan confirma a intuição do irmão de alma angélica: “Tu o adivinhaste, enfim. E isto aí, eis todo o segredo: mas não é isto um sofrimento, pelo menos para um homem como ele, que sacrificou a vida pelo ideal no deserto e não deixou de amar a humanidade? No fim dos seus dias ele se convence claramente de que só os conselhos do grande e terrível Espírito poderiam tornar suportável a existência dos frágeis revoltados, esse seres abortados, criados por derrisão. Compreende que se deve ouvir o Espírito profundo, este Espírito de morte e de destruição e, para isto, admitir a mentira e a fraude, conduzir, conscientemente, os homens à morte e à ruína, enganando-os durante todo caminho, para esconder-lhes o lugar para onde são conduzidos e para que estes miseráveis cegos tenham a ilusão da felicidade”.

E o que é realmente diabólico no Grande Inquisidor é que, não tendo nenhuma ilusão a respeito da completa negação de sua obra, do ponto de vista ontológico e moral (o mal é a privação ontológica do ser), como o percebera em sua clarividência Lúcifer, o anjo mais lúcido, nem por isso ele deixa de prosseguir em seus propósitos condenados à frustração, de dar às massas a felicidade do reino terreno do Anticristo. Não poderia ser mais profunda a crítica do socialismo anticristão do que esta que lhe faz Dostoiévski na célebre passagem de Os irmãos Karamazov. Se a mensagem da liberdade espiritual, anunciada pelo Cristo da Lenda do Grande Inquisidor, fosse realmente apenas o privilégio de poucos, dos eleitos e dos predestinados, estaríamos diante de um dilema insolúvel, diante do mais profundo pessimismo jamais concebido. Acontece, porém, que a imagem deste Cristo foi criada pelo Grande Inquisidor, cuja Lenda é narrada pelo ateu Ivan, para justificar a religião do Anticristo, a religião da felicidade socialista das grandes massas.

O pessimismo do Grande Inquisidor, mensageiro do mito socialista, do milagre, do mistério e da autoridade para dar aos homens pão, felicidade (no engano) e união, tem raízes em seu ateísmo. Quem não crê em Deus, não crê também no homem. O Grande Inquisidor diz que o “homem procura menos Deus do que o milagre”. Quer isto dizer que ele despreza a natureza humana e não acredita no homem. E prossegue em sua filípica para acusar a Cristo: “Tu desceste da Cruz, porque não quiseste escravizar o homem por um milagre; desejaste uma fé que era livre e não inspirada pelo milagroso. Agradou-te o amor livre e não o êxtase servil de um escravo aterrorizado. Aí também fizeste uma ideia demasiadamente elevada dos homens, porque eles são escravos, se bem que tenham sido criados rebeldes”.

As grandes massas dos homens são criaturas fracas que não podem suportar o peso e o sofrimento da liberdade do espírito, que é a religião aristocrática dos predestinados. Por isso o Grande Inquisidor prediz que, “em nome do pão terrestre, o Espírito da terra se insurgirá contra ti, lutará contra ti, vencer-te-á e todos O seguirão… em lugar dos teus templos vão construir um novo edifício, uma nova torre de Babel, que ficará, sem dúvida, inacabada…” Terão também a felicidade, porque serão libertados da grande inquietação e dos graves tormentos da decisão livre e pessoal. “E todos serão felizes, todos estes milhões de criaturas”. E já que são escravos terão seus déspotas. O socialismo ateu acusa sempre o cristianismo de não ter tornado os homens felizes, tranquilos e satisfeitos. E o cristianismo não fez os homens felizes e satisfeitos, porque rejeita a violação da liberdade do espírito humano, a liberdade de consciência, porque aponta para a liberdade humana e ela espera a realização do Evangelho de Cristo.

Quarenta anos antes da implantação, na Rússia Santa, do marxismo, a forma mais completa do socialismo, Dostoiévski descobriu-lhe o caráter essencialmente religioso, como a religião do Anticristo que vem para substituir a religião de Cristo. Esse socialismo que seria antípoda do cristianismo. Com efeito, a base mais profunda do socialismo marxista é a descrença; ele não crê em Deus, na imortalidade da alma e na liberdade do espírito humano. Por isso confessa a fé nas três promessas que o diabo tentador oferece a Cristo no deserto: transformar as pedras em pão, operar milagres sociais e implantar o reino terrestre com todos os esplendores do poder temporal.

Soloviev, o melhor amigo e discípulo de Dostoiévski, na “Narração sobre o Anticristo”, sumula de tudo que se pode dizer sobre este tema, segundo a Bíblia e a tradição eclesiástica, apresenta o Anticristo como um “grande espiritualista”, “asceta”, “filantropo”, que justifica sua alta auto-apreciação “por manifestações expressivas da sobriedade, do altruísmo e da solicitude ativa”. “O novo dominador da terra era, antes de tudo, um filantropo; não era apenas filantropo, mas também zoófilo; era, ele mesmo, um vegetariano.” E o Grande Inquisidor de Dostoiévski também é um asceta, que “sacrificou sua vida ao seu ideal no deserto e não cessou de amar a humanidade”, que quer condenar Cristo à fogueira em nome da felicidade terrestre dos milhares de bilhões de seres humanos.

Eis o ponto de convergência entre a tradição teológica e a imaginação russa sobre o Anticristo, que aparecerá essencialmente como um benfeitor. Na obra de Soloviev, o Anticristo escreve um livro que será traduzido para todas as línguas do mundo, com o título: O caminho aberto para a paz e bem-estar universal. É ele quem estabelece a igualdade da saciedade geral. E, depois de ter sido proclamado soberano do mundo, monarca universal, o Anticristo promulga um manifesto, que termina com estas palavras: “Povos da terra, os destinos estão cumpridos. A paz universal está assegurada. Toda tentativa de rompê-la chocar-se-á com uma resistência invencível. Daqui por diante, existe na terra um poder central que é mais forte do que todos os outros poderes, juntos ou separados. Esse poder absoluto e ilimitado pertence a mim… O direito internacional dispõe, afinal, da sanção que lhe faltou até agora. E daqui por diante nenhuma potência se atreverá dizer “guerra”, enquanto eu digo “paz”. Povos da terra, que a paz seja convosco”.

Este o Anticristo de Soloviev. E o de Dostoiévski? O Grande Inquisidor, numa visão profética, cheia de paixões febris, continua sua filípica contra Cristo: “A humanidade em seu conjunto sempre tendeu a organizar-se sobre uma base universal. Houve grandes povos de história gloriosa, mas à medida que eles foram elevando-se, sofreram muito, sentindo mais fortemente do que os outros a necessidade da união universal. Os grandes conquistadores, os Tamerlães e os Gengis Khans, que varreram a terra como um tufão, encarnavam, também eles, sem ter consciência disso, esta aspiração dos povos para a unidade. Aceitando a púrpura de César, tu terias fundado o império universal e dado a paz ao mundo. Com efeito, quem está mais qualificado para dominar os homens, se hão aqueles que dominam sua consciência e dispõem de seu pão? Nós tomamos a espada de César e, fazendo isto, nós te abandonamos para segui-lo: Oh! Escoar-se-ão ainda séculos de licenciosidade intelectual, de ciência vã e de antropofagia, pois é assim que eles terminarão, após ter edificado a sua torre de Babel sem nós. Mas então a besta virá para nós, andando de rastos, lamberá nossos pés, regando-os com lágrimas de sangue. E nós a pisaremos, ergueremos no ar uma taça em que estará gravada a palavra: mistério. Só então a paz e a felicidade reinarão sobre os homens. Tu estás orgulhoso com os teus eleitos, mas são apenas uma elite, ao passo que nós daremos o repouso a todos”.

O domínio do Anticristo — e neste ponto convergem a tradição teológica e a imaginação russa — equivale à conquista do poder. Uma forçada união política, militar, econômica, cuja coroação será a unidade religiosa apoiada no nivelamento terrestre; vale dizer, a união política, militar, econômico-social assumirá caráter religioso. O Grande Inquisidor foi explícito: só domina realmente os homens quem domina suas consciências. Também o Anticristo de Soloviev quer reunir toda a cristandade, todas as igrejas cristãs “no reconhecimento interno e sincero do seu imperador   como   seu   protetor   e   seu único defensor”. Em troca, ele lhes concede os benefícios materiais e espirituais dos favores imperiais. O Apocalipse confirma esta visão, pois todos os habitantes da terra, exceto os escolhidos, “adoraram o dragão que deu poder à besta dizendo: Quem há semelhante à besta? E quem poderá pelejar contra ela?” (13,4). E dessa maneira fecha-se o círculo da liberdade humana; não há mais neutralidade, não há mais lugar para emigração interna ou externa, pois o milagre, o “milagre social” do pão, da saciedade, da paz, do poder, da união, cativa por uma cadeia aparentemente áurea todos.

Antes de tudo, o profeta do Anticristo promove pelos meios de sua propaganda o culto idólatra do Anticristo. A imagem do Anticristo deve ser adorada, pois é ele o símbolo e o instrumento da “razão de Estado” da monarquia mundial, critério através do qual se reconhecem os amigos e os inimigos do regime antropocêntrico. O “espírito” da “imagem” é o cânon, a suprema regra dos juízes. O poder totalitário quer possuir todos os homens, em toda a sua existência física, o que espera alcançar por pressão do seu poder econômico-social. E também em toda a sua existência espiritual, invadindo as esferas mais íntimas da sua personalidade e da sua consciência religiosa. Não é outro o sentido da visão do Apocalipse, pois foi concedido ao profeta do Anticristo “dar espírito à imagem da Besta, e fazer que fossem mortos todos aqueles que não adorassem a imagem da Besta. E fará que todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, tenham um sinal na mão direita, ou na fronte; que ninguém possa comprar ou vender se não tiver o sinal ou nome da Besta, ou o número do seu nome” (13,55-57).

O êxito externo desse regime de totalitarismo mundial do Anticristo será completo: instalar-se-á justamente a religião terrestre e universal do “êxito”. Sua causa e seu resultado — um círculo realmente vicioso — é a apostasia geral. O fato de conseguir um estrondoso êxito externo é que o distingue daquele a quem seu nome se refere “per negationem”. Assinala um comentário do Apocalipse: “Como nos dias de Jesus Nazareno, Herodes e Pilatos, fariseus e saduceus tornaram-se amigos porque se uniam contra Cristo, assim se reúne, nos dias do Anticristo, tudo o que significa mundo contra a Ecclesia“.