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Talvez não estejamos longe da verdade, ao interpretar a Lenda do Grande Inquisidor como um tormentoso diálogo de Dostoievski consigo mesmo sobre a mensagem de Cristo, que dificilmente poderia ser compreendido — mas jamais inteiramente decifrado — fora do contexto de toda a sua obra. Na Lenda do Grande Inquisidor, Cristo aparece como representante do conceito mais puro, angélico e aristocrático da liberdade do espírito. Todavia a Lenda é contada por Ivan Karamazov, o ateu. Com qual deles se identificaria o autor? Com a imagem de Cristo descrita pelo ateu Ivan Karamazov? Ou com a figura do Grande Inquisidor, desprezada e ao mesmo tempo admirada pelo mesmo ateu Ivan Karamazov? As três figuras, Cristo, O Grande Inquisidor e Ivan Karamazov, são todas criações dostoievskianas. Quais seriam as intenções do escritor? A convivência na obra e na consciência do autor de figuras e correntes atuantes na Rússia de seu tempo provoca um choque que ele não sabe e não pretende superar. Estaria o escritor adivinhando o trágico desfecho dos acontecimentos? Só podemos enumerar e analisar as hipóteses de explicação.

Um conhecido filósofo-teólogo alemão, Romano Guardini (Religioese Gestalten in Dostoiewskys Werk) pergunta a respeito do cristianismo da Lenda do Grande Inquisidor: “Diante deste Cristo o Grande Inquisidor, no fundo, não tem razão? Não é este Cristo, realmente, um herege?”(p. l81). No entender de Guardini “este Cristo legitima a atitude de revolta (no ateu Ivan Karamazov), porque não dedica uma obediência concreta à realidade do mundo, ao Pai que o criou” (p.190). Este Cristo representa o cristianismo no sentido “extremo”, por estar longe de tudo o que significa realização na obediência cotidiana (p.190). Renunciando a “todo o poder sobre o mundo”, o cristianismo deste Cristo perde “toda a sua relação com a esfera em que estão os pés dos homens, com a esfera do cotidiano e do comum” (p. 181). Em outras palavras, segundo Guardini, falta a Dostoievski a “esfera média” da vida humana, a “esfera da realização, o campo e a oficina da existência”, a “esfera da realização no sentido estrito de tudo aquilo que se chama possibilidade, medida, disciplina, ordem, saúde, ancoragem, tradição” (p.182). “Talvez a acusação mais forte que se possa fazer contra a imagem da existência humana de Dostoievski é a de que lhe falta aquela esfera média” (p.182). No fundo trata-se da diferença entre a imagem do Bom Pastor que aparece nos afrescos das catacumbas e a que resplandece nos mosaicos bizantinos azuis e dourados de imóvel majestade divina. Neste caso o Grande Inquisidor falaria em nome do Estado teocrático medieval que teria traído o Cristo dos Evangelhos — a imagem que a ortodoxia oriental guardou. Para confirmar esta hipótese pode-se invocar a autoridade do próprio Dostoievski. Em Os Irmãos Karamazov, páginas antes da Lenda do Grande Inquisidor, o padre Paisius testemunha a aversão oriental-cristã à ideia de a Igreja acobertar-se sob o manto de poder do Estado. Esse monge ortodoxo representa o ideal eclesiástico russo contra o que reina, segundo ele, no Ocidente: “Certas teorias pretendem que a Igreja deva converter-se em Estado, num processo de baixo para cima, e nele se absorver em seguida, cedendo lugar à ciência, ao espírito do tempo, à civilização; se se negar a isso, só lhe reservarão um pequeno lugar dentro do Estado, que a vigia; é isso que vem acontecendo na Europa, em nossos dias. Ao contrário, segundo a concepção e esperanças russas, não é a Igreja que deve converter-se em Estado, de baixo para cima; é, antes, o Estado que deve finalmente mostrar-se digno de ser unicamente uma Igreja e nada mais. Assim seja! Assim seja!”

Neste caso, a Igreja pregada pelo Grande Inquisidor seria a Igreja Católica ocidental e o Cristo condenado pela Grande Inquisição seria a imagem do Salvador guardada na Igreja russo-oriental? Então, por que o ateu Ivan Karamazov faz o inaudito elogio ao Cristo taciturno, “desatado do mundo” e prevê a inalterável e vitoriosa continuidade da Grande Inquisição? Segundo esta interpretação, prevaleceu na Lenda o desprezo visível que Dostoievski, segundo o testemunho de Os Irmãos Karamazov, O Idiota e o Diário do Escritor, dedicou à significação do Papado e do catolicismo. Mas, por que — a pergunta fica — confiou sua filípica, de sublime valor literário, a um ateu? O cenário da Lenda, sem dúvida, descreve um dos lugares mais famosos da Grande Inquisição e da Igreja ocidental triunfante. O lugar é “Sevilha do rei, dos cortesãos, dos cardeais e das damas mais encantadoras da corte”, numa “noite meridional, quente e sufocante, o ar perfumado pelos loureiros e limoeiros”. E o sul da Europa onde o catolicismo triunfante e intolerante foi sempre mais forte.

Contudo, neste texto, a lógica do raciocínio é mais forte do que o valor simbólico-literário da descrição das circunstâncias topográficas. Baseando-nos nos textos de N. Berdiaiev, russo-ortodoxo, um dos mais autorizados intérpretes de Dostoievski (Die Weltanschaung Dostojewskijs), somos levados a propor a discussão da tese de que a Lenda do Grande Inquisidor, no fundo, é um confronto de Deus-Homem e do Homem-Deus, isto é, do Cristo e do Anticristo, da religião da liberdade aristocrática do espírito e da religião da felicidade socialista das massas. É um confronto dialético que não conhece meio termo. (A religião católica é justamente a do meio-termo.) Não apenas o católico e ocidental Guardini vê claramente que falta a Dostoievski a “esfera média” da realização, do comum e do cotidiano, que falta ao Cristo da Lenda a relação com a vida — um Cristo “desatado” —, mas também Berdiaiev, ortodoxo e russo, reconhece que “na imagem criativa de Dostoievski se exprime a aversão dos russos contra a cultura do meio” (p.204).

O cristianismo de “sentido extremo” que Dostoievski representa, sempre segundo Berdiaiev, tem também outra base na disposição apocalíptica — anárquica e niilista — da alma russa, que não reconhece a significação independente da realidade temporal do Estado, cuja justificação religiosa vem de dentro: é imanente e não transcendente, vinda de fora. “Este anarquismo errado” — de base teofânica —, “esta aversão contra o reconhecimento do sentido religioso do Estado independente foi também própria de Dostoievski” (p. l93). De qualquer forma, voltando às distinções proféticas do monge Paisius, pode-se reconhecer que, dada a sublimação completa da esfera humana e temporal na ordem espiritual e transcendente do cristianismo, não é possível pensar mais senão nos extremos opostos, dialéticos e apocalípticos de Cristo e do Antricristo, atribuindo a Cristo a religião da liberdade aristocrática do espírito e a da felicidade temporal (socialista) das massas ao Anticristo. Daí a conclusão de Berdiaiev: “Dostoievski, na Lenda do Grande Inquisidor, tinha em mente mais o socialismo do que o catolicismo” (p.192).

A lógica interna, ou mais exatamente, a dialética interna da Lenda do Grande Inquisidor confirma a intuição de Berdiaiev, que vê neste diálogo, segundo as aparências, enigmático e simbólico, o confronto dramático e não resolvido do Cristo e do Anticristo. Este último apareceu primeiro no Deserto, tenta três vezes a Cristo e estabeleceu, depois, seu reino mundano e vitorioso no socialismo. Na imaginação russa, cujas testemunhas autorizadas são Dostoievski, Soloviev e Mereskovski, o Anticristo traz a mensagem do socialismo. Na imaginação russa, o socialismo assumiu todas as características de uma religião universal, da religião terrena, de uma pseudo-religião, de uma religião análoga relativa, diabólica, de uma Ersatzreligion (um substituto de religião). O Anticristo russo é socialista, apresentado numa figura estranha e encantadoramente atraente que arde pelo amor humanitário, que se sacrifica pela salvação, vale dizer, pela felicidade temporal, pela redenção social da grande massa dos pequenos, dos humildes e dos pobres.