Dostoiévski2

Todos aqueles que escreveram sobre Dostoiévski sem conhecer os conflitos ideológicos dos quais ele é produto acreditaram poder ver nele um grande criador de ideias. Na realidade, o segredo do seu gênio consiste em seu poder de absorver as ideias mais contraditórias, de evocar as aspirações mais profundamente escondidas na alma russa.

Mais que seus antecessores, o criador de O duplo penetrou o misticismo da religiosidade popular, distinguindo nela o elemento anárquico e os vestígios do maniqueísmo. Torturado pelo problema do mal, chegou até a indulgência, capaz de compreendê-lo como algo inerente ao mundo material e de sentir ternura pelo pecador até o ponto em que a sensibilidade moral enfraquece e se dissolve na indiferença amoral. O cristianismo de Dostoiévski é o semi-maniqueísmo que serve como traço de união entre a mais alta concepção religiosa russa — o ideal monástico — e as tradições obscuras do misticismo sectário. Mas aí se junta o messianismo russo, alimentado por correntes intelectuais e pertencendo a outras camadas sociais. Tudo isto ele tentou exprimir, e é por isso que sua obra é a acumulação de problemas sem solução, como o próprio espírito de sua época, ainda que tenha procurado perdidamente a síntese do pensamento russo; ainda que tenha proclamado que este pensamento forneceria a fórmula do cristianismo universal, vagamente sonhado sob a forma de uma teocracia em que o Estado se dissolveria na Igreja, mas a própria Igreja não seria mais que uma abstração sem realidade material.

Mas Dostoiévski jamais teria sido capaz de dar ele próprio uma síntese lúcida de suas ideias; ele encarna muito bem o conflito irredutível entre o cristianismo e o maniqueísmo que constitui a base da religiosidade russa. Se escolheu a ficção para exprimir conceitos teológicos é porque a oposição de seus personagens lhe permitiu superar as contradições dolorosas do seu próprio pensamento. (cf. J. N. Danzas, Itinéraire religieux de la conscience russe, ps. 127-128).

Se alguém quer descobrir a relação do homem-escritor Dostoiévski com as figuras da sua criação, deve ter em mente que toda a Rússia, a Rússia do século XIX, a Rússia Santa e messiânica, ortodoxa e teocrática, niilista e socialista, filo-ocidental e eslavófila, angélica e autodestrutiva encontrou ressonância em sua alma robusta e sensibilidade sismográfica. Fez coexistir em sua obra a ortodoxia e o niilismo e conseguiu alojar em sua alma todos os Karamazov: Aliocha, Mitia, Feodor (e até mesmo Smerdiakov, no dizer de alguns) sem que nenhum deles se destacasse como o dominante. E aí encontramos, quem sabe, o mistério máximo da peça literária imortal, a “Lenda do Grande Inquisidor”, inserida no romance Os irmãos Karamazov.