Ortega-y-Gasset

Há alguns anos, no dia 27 de novembro de 2016, o jornal madrilenho El País publicou matéria sobre uma possível conversão católica do grande filósofo Ortega y Gasset, que tinha sido agnóstico a vida toda. O título do artigo era “Ortega y Gasset morreu beijando um crucifixo”, a propósito da localização e divulgação de uma carta de pessoa próxima ao filósofo, Carmen Castro, filha do historiador Américo Castro e esposa do ex-padre e filósofo Xavier Zubiri, que foi discípulo de Ortega.

Carmem Castro, professora e escritora, revelou em carta a um sacerdote que Ortega “morreu na Igreja. Não temos dúvidas disso. Ele beijou um Cristo duas vezes, levando a mão que o segurava aos lábios. Padre Felix o confessou — isso, é claro, se supõe, porque o padre Felix não podia dizê-lo. O que ele disse é que lhe deu a absolvição papal’.”

Publicada essa matéria, o próprio neto do filósofo, o jornalista Andrés Ortega — que não é católico nem parece simpatizar muito com a Igreja —, escreve um desmentido noutro jornal de Madrid, El Diario, intitulado “Ortega y gasset, sem crucifixo”.

Garante o neto que “Carmen Castro e Zubiri não estavam no quarto em que, após uma grave operação de câncer, estirava-se moribundo Ortega y Gasset, com a consciência muito debilitada. Foi quando chegou o padre agostiniano Felix Garcia, amigo da família e que costumava ir às casas onde estavam morrendo intelectuais rebeldes com a Igreja Católica”. Nas palavras do neto de Ortega y Gasset, Andrés Ortega:

Os três filhos de Ortega, Miguel, Soledad e José, escreveram uma carta ao então ministro da Educação, Joaquín Ruiz Jiménez, para apresentar a sua versão dos fatos. Nela, diziam ter atendido “ao fervoroso desejo de nossa mãe de que o visitasse o padre Félix García, por cuja pessoa e por cuja ordem religiosa nosso pai sempre teve clara simpatia, e o padre Félix, como ele mesmo nos disse, administrou a absolvição ”sub conditione”, com a aquiescência de nosso pai. Se ele fez isso com a cabeça lúcida — que até aquele momento, segundo os olhos humanos dos médicos e da família, estava impressionantemente perdida — ou se o fez com a consciência reduzida, é um ponto que, como disse o padre Felix em seu artigo para o jornal ABC — no qual demonstra ter grande coração e inteligência — pertence ao mistério de Deus.” (Andrés Ortega, “Ortega y Gasset, sin crucifijo”, El Diario, 08/12/2016)

Padre Félix García, agostiniano e grande estudioso de Fray Luís de León, teve portanto autorização da esposa de Ortega, Rosa Spottorno, para ministrar a extrema-unção a um paciente que (palavras do neto de Ortega) “praticamente tinha perdido a consciência e a vontade”. Em seguida acrescenta que seu pai, José Ortega Spottorno, contava que o filósofo, “já pouco consciente”, viu entrar no quarto não o padre, mas o amigo Felix García.

Por essas três formas com que o neto se refere ao estado mental do avô filósofo — hesitante entre um Ortega de consciência muito debilitada ou já pouco consciente, a um Ortega que praticamente tinha perdido a consciência e a vontade —, percebe-se a pouca objetividade em seu relato, transparecendo uma clara intenção de “torcer” pela não conversão do moribundo, pois o Deus de Ortega estaria mais para o de Spinoza ou de Einstein, do que o da Igreja Católica…

Ortega sem consciência? Ortega com pouca consciência? Como podia o filho Ortega Spottorno supor que o pai em agonia não via entrar no quarto o padre, mas só o amigo Felix García? Afirmar isso revela, no mínimo, ingenuidade em relação à misteriosa consciência de um homem às portas da morte — de um homem na hora mais decisiva de sua vida. Para o neto de Ortega, no entanto, manipuladora foi a imprensa católica e nacionalista, ao criar o embuste da conversão.

De fato, o jornal franquista Arriba publicava o seguinte, um dia depois da morte do filósofo, em 19 de outubro de 1955: “O padre Félix García, com quem teve uma grande amizade nos últimos tempos, o visitou com frequência e estava ciente de sua doença. Na noite de sexta-feira a sábado, ele teve uma longa conversa com Ortega y Gasset. Mais tarde, ele o confessou. O próprio padre Félix García lhe administrou o sacramento da extrema-unção, pouco antes de sua morte. Na segunda-feira, o arcebispo de Saragoça visitou o paciente”. (Antonio Martín Puerta, Ortega y Unamuno en la España de Franco. Madri, Ediciones Encuentro, 2009, p. 190)

Aqui no Brasil, o jornal carioca Correio da Manhã dava uma notícia parecida. No dia 20 de outubro de 1955, publicava uma nota sobre a morte de Ortega com o seguinte título e subtítulo: “Sepultado o filósofo Ortega y Gasset. Pesar em todo o mundo pelo desaparecimento do grande pensador”. Dizia o texto do jornal, para surpresa dos que conheciam o agnosticismo do filósofo, que ele tinha sido sepultado com os ritos da Igreja Católica, à qual se convertera nos seus últimos momentos.

Segundo o neto-jornalista, nenhum dos que acompanharam a agonia de Ortega teria falado, mais tarde, de qualquer confissão de Ortega ou crucifixo levado à boca. Na verdade, falou pelo menos um, dos que estiveram no quarto do doente: o sacerdote. Foi certamente pelo padre Félix García que o casal Zubiri e a imprensa “nacional-católica” souberam da extrema-unção.

Mais gente ouviu do padre esse relato. Em trabalho volumoso e erudito sobre a relação da Espanha com o mundo anglo-saxônixo, o professor espanhol Manuel José Alonso García se refere ao padre que assistiu ao filósofo em seus momentos finais, com a seguinte e inesperada observação: “O Padre Félix García me disse pessoalmente que administrou os sacramentos a Ortega y Gasset” (Manuel José Alonso García. Spanish USA. 2º vol. Melilla, Asociación de Estudios Hispano-Africanos,1996, p. 1128)

Para os católicos, a grande obra do vitalista Ortega y Gasset estaria incompleta sem aquele presumível sim à verdadeira Vida. Se o sim foi dito ou não, só Deus sabe. Tomara que… sim. O fato incontestável é que o filósofo, com a cabeça lúcida, com a consciência reduzida ou sem consciência nenhuma, recebeu os sacramentos. O que realmente aconteceu depois “pertence ao mistério de Deus”.