revolução

Li O rei dos anabatistas (Rusconi, 1971) quando eu era estudante universitário e fiquei chocado. Acabara de ler Mecânica da Revolução, de Augustin Cochin, e ali via o espírito revolucionário em ação: um lugar circunscrito, e todas as fases obrigatórias do processo revolucionário, até seu resultado supremo: o suicídio. O autor, Friedrich Reck-Malleczwen, nascido em 1884, era um nobre prussiano que havia lutado na Grande Guerra e viveu, como cavalheiro rural, em suas propriedades de Chiemgau, em Mônaco. Ali ele pode testemunhar o nascimento do nazismo e reconhecer as mesmas características demoníacas de seu primo-rival, o bolchevismo.

Em 1933, ano da ascensão de Hitler ao poder, Friedrich Reck-Malleczwen fez-se batizar como católico, porque a Igreja era o último baluarte filosófico e moral ao que estava acontecendo. Quando alguns funcionários do novo Napoleão se apresentaram em sua porta para avaliar as possibilidades de sua propriedade em servir ao interesse público (leia-se: expropriação), ele os recebeu com um rifle na mão. Mas quando, em 1937, ele publicou O rei dos anabatistas, passou das medidas. A metáfora oculta na obra não havia escapado aos nazistas. A tipografia que o imprimiu foi destruída e as cópias incendiadas.

Em 1944, o autor foi preso e levado ao campo de concentração de Dachau, onde morreu no ano seguinte. Após a guerra, seu diário foi encontrado e publicado com o título O tempo do ódio e da vergonha. O rei dos anabatistas viu a luz apenas em 1958 e, em 1971, três anos após a explosão revolucionária de Sessenta e Oito, a editora Rusconi julgou ser a hora certa de novamente relançá-lo. É um livro fundamental e instrutivo, que agora está sendo reimpresso na Itália por Fede & Cultura (190 p., € 19).

A história, que o autor traça quase minuto a minuto, é a seguinte: em 1534, o “profeta” anabatista Jan Matthys e seus seguidores se dirigiram para Münster, capital da Vestfália. Lutero, de fato, havia aberto a caixa de Pandora e todos passaram a aplicar o “livre exame” à sua maneira; nada adiantava Lutero insistir que a única interpretação correta das Escrituras era dele. Logo a pregação apocalíptica de Matthys se espalhou e grupos de anabatistas convergiram de todos os lugares (até da Holanda) para Münster, cujo bispo-príncipe foi expulso.

Münster se tornou um reino do Antigo Testamento: mudaram-se os nomes das ruas, das cidades e até das pessoas (por outros tirados da Bíblia), a propriedade privada era abolida (pois os primeiros cristãos colocavam tudo em comum…), espancavam-se os vagabundos, proibia-se todo o “luxo”, estabelecendo-se o número máximo de botões nas roupas. Matthys, um ex-padeiro de Haarlem, trouxe sua amante consigo, uma jovem que praticamente sequestrou. Tombou quando incitava os seus a resistir ao cerco que o bispo Franz von Waldeck havia feito ao redor da cidade com tropas católicas e protestantes (até os protestantes começaram a se preocupar).

“Livre exame”? Depois do padeiro, veio o alfaiate: Jan Bockelson, de Leyda, sucessor de Matthys. Primeiro, ele se coroou rei de Münster, introduziu a poligamia (sempre sob inspiração bíblica) e forçou todos a se casar: monjas, padres e frades. Mesmo aqueles que tinham seus cônjuges fora da cidade, a negócios, tiveram que se casar novamente. O “rei” tomou dezesseis esposas, cada uma escolhida com base em “revelações”. Todas as torres foram demolidas, porque “o que está acima devia ser rebaixado”, todas as obras artísticas foram destruídas, incluindo o relógio da catedral. Equipes de “moralizadores” entravam nas casas para verificar se os preceitos bíblicos estavam sendo seguidos ou não.

Para quem desobedecia, o código penal previa apenas uma pena: de morte. Um menino foi decapitado porque deu um tapa na mãe. Para um infeliz que cometera uma transgressão que o próprio Bockelson considerava fútil, apenas meia cabeça foi cortada… E assim por diante, em um crescendo de horrores que atingiram o paroxismo quando o cerco deixou a cidade entregue à fome. Chegou-se ao infanticídio para haver o que comer. O primeiro experimento de revolução, em um local limitado, durou um ano e meio; os assediantes levaram a melhor e o rei dos anabatistas foi executado. Mas era apenas o começo, e por isso Reck-Malleczwen o havia tomado como exemplo.

Não é por acaso que Marx e Lenin estudaram os trabalhos dos utopistas anteriores com paixão. Karl Kautsky afirmou: “Todos eles são muito prezados por nós, desde os anabatistas até os socialistas da Comuna de Paris”. Este último estimava em particular a utopia de São Tomás More, sem saber que, quando era chanceler da Inglaterra, assinara o decreto De heretico, pelo qual seis anabatistas (cujo perigo ele bem viu) haviam terminado na fogueira. Moral: a Revolução primeiro muda tudo, depois destrói tudo e, no fim, devora a si mesma. Mendax et homicida ab initio.

https://lanuovabq.it/it/la-rivoluzione-menzognera-e-omicida-allorigine