querida amazonia

A linguagem do magistério eclesiástico é um aspecto importante do próprio magistério eclesiástico. O estilo expositivo dos documentos magisteriais deve ser apropriado tanto ao conteúdo que está sendo ensinado, quanto à autoridade de quem ensina. Não parecem adequadas palavras e frases ambíguas, vaga e multiplamente interpretáveis, alusivas e não declarativas, pouco claras em sua estrutura, com a possibilidade de mal-entendidos da parte daqueles que se dispõe a aprender. Os documentos, que preveem um consentimento obrigatório dos fiéis, devem ser claramente formulados, tanto no conteúdo quanto na forma, uma vez que o fiel não pode sentir-se obrigado a concordar com o magistério se colocado diante de proposições com belas imagens, mas com conteúdo teológico aproximativo, expresso com uma linguagem imprecisa. Para dar seu consentimento em questões de fé e moral, e fazê-lo de forma consciente, o crente deve entender bem aquilo a que está dando sua aprovação. O resto é literatura.

Do Vaticano II em diante, esse aspecto da linguagem se tornou um problema central. Desde que se impôs a intenção pastoral, paralelamente àquela doutrinal, sem eliminá-la, mas condicionando-a, a expressão linguística dos ensinamentos tornou-se mais imprecisa. Para focalizar corretamente, por ex., algumas frases de Gaudium et spes, é necessário fazer referência a outras passagens da mesma Constituição pastoral, a outros pontos de outros documentos do Concílio, até chegar ao próprio Catecismo. Nos ensinamentos do Papa Francisco, esse problema só aumentou. A exortação apostólica Amoris laetitia é, talvez, o principal exemplo: sua linguagem é cheia de imagens de efeito, usa instrumentos retóricos de vários tipos, põe perguntas às quais não responde, usa frequentemente exageros e hipérboles, alude a critérios e soluções que não explicita, as palavras são usadas com liberdade e segundo códigos diversos, como quando, por exemplo, se usa a expressão “situações familiares” tanto para casais de fato como para uniões entre pessoas do mesmo sexo. Dessa maneira, os fiéis não entendem claramente qual é o exato ensinamento (agora se sabe como Amoris laetitia queria dizer aquilo que expressamente não disse). O magistério não deve insinuar, mas afirmar.

O problema decorre do desejo de explicitar indicações pastorais a partir de situações existenciais. Uma linguagem precisa (é o que se pensa) seria capaz de definir verdades abstratas de fé e moral, mas não de trazer à tona as situações concretas da vida, em que as pessoas estão efetivamente mergulhadas. Pela mesma razão, considera-se inútil ensinar verdades com precisão, acreditando que o magistério deveria antes despertar reflexões, comparações e abrir novos caminhos. Depois de compreendidas essas motivações, é preciso no entanto perguntar se esse é o verdadeiro papel do magistério eclesiástico e se uma linguagem destinada a tais fins não correria o risco de confundir os leitores.

Também a exortação apostólica do papa Francisco sobre a Amazônia repete esse tipo de linguagem, com o uso de imagens, inserções de poemas, conceitos ambientalistas de fácil assimilação, expressões carregadas de profetismo social, julgamentos históricos drásticos que espantam, mas que parecem improvisados, imagens de impacto lírico: “Dos cumes mais altos da cordilheira, onde as neves são eternas, a água flui e traça um sulco vibrante na pele antiga da pedra: assim nasce o rio Amazonas. Nasce a cada momento. Desce lentamente, luz sinuosa, para crescer na terra… “

Na Exortação Querida Amazônia, ilustram-se quatro “sonhos”; mas que significado magisterial deve ser dado a essa palavra? O que significa o quarto sonho, concernente à “irresistível beleza natural que a adorna [a Amazônia], a vida transbordante que enche seus rios e florestas”? Que os “povos originários da Amazônia têm um forte senso de comunidade” é uma expressão aceitável, mas também é muito imprecisa. O que significa “combinar sabedoria ancestral com conhecimento técnico contemporâneo” ou reconhecer a Amazônia como “um mistério sagrado”?

Por que, na linguagem de uma exortação apostólica, dar espaço a uma  expressão como  Mãe Terra? Por que são citados poetas como Neruda e Vinícius de Moraes? É lícito perguntar se, para expressar a contemplação da natureza, é realmente útil usar expressões como estas: “Se entramos em comunhão com a floresta, nossa voz se juntará facilmente à sua e se transformará em prece”; “Distendidos à sombra de um velho eucalipto, a nossa prece de luz mergulha no canto dos galhos eternos”.

Também é estranho que, embora a Exortação não assuma o documento final do Sínodo, é logo dito nos primeiros parágrafos que toda a jornada sinodal deve ter uma recepção harmoniosa, criativa e frutífera; que o documento final deve ser lido na íntegra; que devemos nos comprometer com sua aplicação e que deve inspirar todas as pessoas de boa vontade. Para permanecer sempre no campo expressivo, também é estranho que a nota 120 — mais uma vez uma “nota”, como em Amoris laetitia — nos lembre que “no Sínodo ventilou-se a proposta de elaborar um rito amazônico”, o que poderia estar relacionado aos “viri probati [homens casados, de fé comprovada, que poderiam ser ordenados sacerdotes]”.

Problemas de linguagem, certamente. Mas problemas de linguagem nunca são apenas problemas de linguagem.

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