montello

[Neste artigo, Gustavo Corção aparece retratado por um amigo não católico, o romancista Josué Montello, que era de formação protestante e se transformou numa espécie de cristão livre-atirador, sem credo definido].

Devo ao Conselho Federal de Cultura a amizade de Gustavo Cordão. Sem esse convívio, ter-se-ia prolongado pelo tempo adiante o nosso desencontro. Ele, intransigente nos seus princípios, quer políticos, quer religiosos; eu, aberto à tolerância, na insularidade de minha independência. Certos amigos meus, e dos mais chegados e queridos, eram objeto de suas censuras e de seus ríspidos comentários, em artigos de jornal; eu, por meu lado, também em artigos de jornal, louvava esses mesmos amigos. Quando volvíamos a nos encontrar, nem Corção me falava do meu artigo, nem eu falava do seu. E nos abraçávamos, como bons companheiros.

— Tudo bem, Corção?

E ele, recolhendo a bengala para me dar o braço:

— Vai-se vivendo.

Vez por outra, à noite, Corção me telefonava, ora para uma observação, ora para uma consulta. Ultimamente, como já não dispunha de luz nos olhos estudiosos para repassar os seus velhos autores, recorria à minha biblioteca. E não eram fáceis os problemas que me propunha.

Certa noite, já tarde, propôs-me:

— Eu queria que você me descobrisse uma palavra na obra de Anatole France. Essa palavra não está dicionarizada. Mas eu sei que Anatole Francc a empregou. É a palavra chosard. Veja para mim onde é que ela está escondida.

Não pude deixar de rir:

— O que você me pede, Corção, é que eu ache uma agulha no palheiro. Vou ver o que posso fazer.

Os 25 volumes das Obras Completas de Anatole Prance, encadernados cm percalina azul, na edição suíça organizada por Jacques Suffel, olhavam-me da prateleira da estante com ar de desafio. Como localizar, naqueles milhares de páginas, a palavra chosard, que o mestre, ao que suponho, só uma vez a empregara, para futuro deleite exclusivo de Gustavo Corção?

Assim como há anjos que se revoltam na obra anatoliana, existem certamente outros que se inclinam à concórdia prestimosa. E foi certamente um desses que me levou a erguer a mão para a prateleira. O certo é que, volvidos uns 15 minutos, chamei Corção ao telefone:

— Achei a palavra. Não sei como, mas achei. Está em L’ile des Pingouins, da edição do Cercle du Bibliophile, página 195, primeira linha.

Em verdade eu acertara na palavra como outros acertam na roleta. É possível que uma vaga memória, subjacente à memória lúcida, me houvesse conduzido ao seu encontro. Mas o que eu realmente não esperava era ouvir o que me disse Corção, convictamente:

— Eu sabia que você ia dar com ela.

Lembro o episódio porque ele me parece ilustrativo da organização mental do escritor. O que ele guardara, das suas vigílias de leitura, guardara bem. E durante os últimos anos de seu trabalho Intelectual, não deixou transparecer que era de olhos amigos que se valia, nas suas citações, nos seus confrontos, nas suas alusões.

Antes de nos aproximarmos, já eu tinha a intimidade do escritor, na sua dupla feição: a do mestre da palavra, que se inseria na linhagem de Machado de Assis, e a do mestre do combate literário, que tinha em Carlos de Laet — conforme lembrou Antônio Carlos Vilaça — o seu mais próximo predecessor.

Na véspera da morte de Corção, estivéramos juntos, no plenário do Conselho Federal de Cultura. O mundo, para ele, povoara-se de sombras, como a caverna de Ulisses. Distinguia apenas os vultos, na luz da tarde, identificando-os pela voz. No entanto, ao caminhar, o seu passo nada tinha de hesitante. Pisava firme e ágil, precedido pela ponteira da bengala.

Na sua cadeira no Conselho, estava sempre atento ao que se debatia: quando intervinha, todos nós nos voltávamos para ele, sabendo que íamos recolher a lição de sua experiência. Falava como escrevia — com a palavra exata, a frase harmoniosa e límpida, a veemência matizada pela graça da ironia irreprimível.

Ao saber-lhe da morte, apanhei da estante um de seus volumes, sentei-me a um canto da biblioteca, para dar a mim mesmo a consolação de sua presença perene, nos livros que publicou. Não é preciso pensar como ele para admirar o mestre da palavra escrita. Há trechos seus que parecem escritos pela pena de Machado de Assis. Este, por exemplo: “Um incêndio é uma calamidade; mas ter visto um incêndio é uma satisfação”. Ou então: “Há sempre um gracejo de adulto no desespero dos moços.” Ainda este: “A pérola verdadeira mal se distingue da falsa. Pesa sobre a pérola essa suspeita”. E mais: “O mundo parece uma enorme oficina de deteriorar o que as pessoas deveriam ser.”

Quando se fizer um estudo sobre as moralistas brasileiros, terá também Gustavo Corção, ali, o seu lugar, como o tem no nosso romance, no nosso ensaio, na nossa crônica. Na realidade ele era um pensador de palavra translúcida. Combativo? Porque tinha a sinceridade de suas convicções. Jamais escrevia por escrever: escrevia para  testemunhar, e testemunhar no sentido evangélico. Nunca nos esqueceremos desta sua reflexão: “O amor e a morte não precisam de muito espaço”. Ou também desta: “O desejo masculino é um querer ir; o feminino é um querer que venha.”

Dizia Proust que uma das vantagens da morte é que ela nos liberta dos compromissos sociais. Gustavo Corção, a rigor, prescinde desses compromissos. Tinha-os com a sua fé, com o seu trabalho, com a sua própria condição. Rezava e escrevia.

Mais de uma vez, encontrei alusões a Unamuno nos escritos de Corção. Não seriam meros encontros de ocasião, e sim identidades subterrâneas, que estão na própria substancia dos seres que se aproximam. Do mestre espanhol — ríspido, vigoroso, intransigente — ele havia guardado a noção de que não podemos viver sem nos indignar.

Mas foi sobretudo em Chesterton que Corção descobriu as suas mais profundas afinidades — na concordância do riso, na comunhão da fé, na graça e na densidade do estilo. No criador do Padre Brown, que sempre lia deliciado, há de ler recolhido este roteiro literário, de que nunca se afastou: “Nenhum homem deveria escrever sem estar convencido de que se acha de posse da verdade e que outro homem está errado.”

Isso explica em Corção — como explicou em Chesterton — o polemista formidável. Nada lhe quebrantou a pena combativa. Mesmo o tempo e a enfermidade não atenuaram a energia do braço que a empunhava. A fidelidade a si mesmo, como católico, como patriota, correspondia no polemista à fidelidade às suas convicções. Como haveria de calar-se, se tinha a certeza de que estava certo e de que os outros persistiam no erro?

No dia seguinte ao de seu sepultamento, coube-me proferir uma palestra, num curso feminino em Copacabana. Por que não fazer da obra do grande escritor o tema de minha lição? Levei comigo as Lições de abismo, e li em voz alta os textos preferidos de antigas leituras, sentindo crescer à minha volta a atenção da sala. Foi ali que Corção luminosamente definiu os seus debates interiores, a propósito dos Solilóquios de Santo Agostinho: “O meu debate é diferente. Seria melhor chamá-lo de multilóquio. É um confuso vozerio. Falam ao mesmo tempo a Razão, a Memória, a Imaginação e o Sangue.”

A esse “confuso vozerio” o escritor dava ordem e claridade na página que ia compondo. Dele nos ficou, assim, a límpida obra de arte, que lhe exprimia o pensamento depurado. Depurado, digo bem; mas não sereno. Porque sempre restava na sua frase aquilo que Ber-nanos definiria como um frêmito de inquietação pascaliana.

(Jornal do Brasil 11/07/1978)