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Foi decisivo o papel do romantismo na criação do “admirável mundo novo” que hoje nos toca viver. Quem ainda se lembra das aulas de literatura, saberá que o “romantismo” foi um movimento artístico, literário e filosófico que surgiu entre o século XVIII e XIX, na Europa, caracterizado sobretudo por duas ideias: liberdade ilimitada e repúdio do mundo real. Esta seria a fórmula química convencional do movimento romântico.

Havia uma clara relação de dependência entre as duas ideias. A recusa da realidade era um traço essencial da visão romântica do mundo, o motor que acionava o gesto rebelde de libertação e o combustível para as longas viagens no mundo da lua, que era o território preferencial dos românticos.

Outros componentes poderiam derivar-se desse núcleo básico, como o arrebatamento emocional (negação da sobriedade e da moderação) e a rédea solta à imaginação (o veículo mais apropriado às excursões utópicas do romantismo). O essencial, porém, já estava naquela fórmula: revolta contra a velha ordem da realidade e impulso de substituí-la por uma nova ordem.

O espírito de negação dos românticos se manifestaria de várias formas, todas apontando para a necessidade de destruir. Daí é que provêm a frequente imagem do demônio como metáfora de rebeldia, a violência sádica em rejeição à solicitude cristã, a explosão artística e literária do inconsciente como repúdio à lógica e à razão convencionais, a efemeridade dos períodos históricos contra a concepção de História Sagrada, a exaltação do “bom selvagem” em detrimento da alta cultura ocidental, a tendência para o fragmentário e o inacabado como reação à estética clássica.

Convém não esquecer que aquela velha ordem tinha, bem nítidas, as impressões digitais do cristianismo. Portanto, a luta contra a realidade era também, e sobretudo, uma luta contra a Igreja Católica, vista como uma espécie de cão de guarda de um mundo que era necessário subverter (o famoso retorno à Idade Média dos românticos não passava de busca de ambientação exótica, semelhante aos usos de temas orientais). Era impossível ao homem romântico contentar-se com a realidade, tal como definida pelo cristianismo: um lugar de queda e sofrimento, marcado pelo pecado, destinado a ser substituído por uma realidade sobrenatural, após a morte, para a salvação ou para a perdição eterna.

A consciência romântica não podia se contentar com essa verdade incômoda e restritiva. Destronou, assim, o “falso” Deus que a gerou e se autonomeou deus em seu lugar — ou melhor, proclamou-se parte de uma divindade não mais transcendente, mas que coincidia com a pródiga natureza que seus poetas cantariam “ad nauseam”, em prosa e verso.

Era a volta do antigo culto panteísta em substituição ao velho monoteísmo judaico-cristão. Tudo o que o Deus cristão (encarnado em Cristo) não pôde realizar no mundo — pois seu mundo não era deste mundo —, o ser humano divinizado procuraria fazê-lo, inicialmente no plano da fantasia e do sonho, pela arte, pelo ópio, pelo sexo livre; e, um pouco mais tarde, no plano da História, com as revoluções fascistas, nazistas e comunistas (é bem conhecida a ligação de Marx com a linha satanista do romantismo, em seus poemas de juventude).

Liberdade e contestação: esse foi o mote do romantismo, há mais de dois séculos; foi o mote dos vários modernismos artísticos no início do século XX (surrealismo, expressionismo, dadaísmo); foi o mote da revolução estudantil dos anos sessenta, no fim do mesmo século (do qual saiu a cultura da droga, do rock e do sexo livre); e continua a ser o mote dos movimentos que hoje (como o feminismo radical e a ideologia de gênero), procuram subverter a ordem criada por Deus para a sexualidade humana, buscando legitimar o homossexualismo, o bissexualismo, o transexualismo, a poligamia pluri-sexual, a zoofilia e, por incrível que pareça, a própria pedofilia.

O romantismo não foi um simples movimento sentimentalista, de poetas tristes inconformados com o insucesso amoroso. Foi, antes de tudo, a sementeira das principais loucuras revolucionárias do mundo contemporâneo.