corção século

[Resenha do livro O século do nada, de Gustavo Corção, que esteve entre as obras mais vendidas, no Brasil, naquele ano de 1973. O autor, Pedro Dantas, era o pseudônimo do advogado e jornalista Prudente de Moraes, neto, nome importante do “movimento modernista”. Prudente foi um cético durante a maior parte da vida, convertendo-se à fé católica já na velhice.]

Em contraste com o ufanismo progressista da maioria, há quem considere que os caminhos da História nos têm feito avançar, mas no sentido do crescimento da cauda dos cavalos. Assim é que, ao “estúpido século XIX”, de Léon Daudet, seguiu-se este nosso que, com todas as maravilhas do tecnicismo, seria o da desesperança e do nada. É o que nos diz o Sr. Gustavo Corção, que o vê não menos estúpido que o precedente, além de conspurcado por algumas abomináveis traições.

Abominável traição, deveríamos dizer, no singular, pois, no fundo, é de uma só que se trata, mudando apenas a aparência. Quanto ao crescimento para baixo, já vem de longe; o Sr. Gustavo Corção vai buscar-lhe as origens nos famosos três R — Reforma, Renascimento, Revolução, entrelaçados numa espécie de monograma pleonástico. A esse três R, o Sr. Gustavo Corção faz remontar o curso das águas deletérias que, no seu entender, movem atualmente os engenhos humanos postos a trabalhar no vazio — para NADA, acentua o escritor e, pior, para o Pecado Terminal, na luta contra Deus.

Não era necessário que o Sr. Gustavo Corção mencionasse, no rol das suas atividades, a prática da esgrima, para podermos identificar, no seu extraordinário vigor polémico, a inconfundível perícia do espadachim — mosqueteiro ou cavaleiro em cuja destreza e em cujo ímpeto há tanto de d’Artagnan, quanto de D. Quixote, já que, por vezes, arremete contra algum moinho de vento. O que o inspira e anima, entretanto, é a sagrada defesa do Divino contra os três inimigos, indigitados desde o Concilio de Trento — mundo, carne e diabo — que hoje ameaçam, sob a forma de um falso humanismo, a unidade da própria Igreja, dilacerada e corroída  por ataques  vindos de fora, mas que a atingem não em si mesma, é claro, porém, em grande parte do seu “pessoal.”

O eminente líder da corrente mais severamente ortodoxa ou tradicionalista do nosso catolicismo explica a investida do século balizado por duas affaires  (ele prefere masculinizar a palavra, à moda inglesa, como é corrente), a affaire Dreyfus e a do julgamento dos chamados “colaboracionistas”, do Governo de Vichy, na Segunda Guerra — pela propagação e crescente influência de um revolucionarismo oriundo dos três R acima citados, influência que conduz à tolerância para com uma doutrina substancialmente perversa, como a do comunismo, e à aceitação do seu hediondo regime político-social.

. A progressão de tal doutrina, naqueles meios, inclusive, que, por natureza, lhe deviam ser resistentes, decorre de sucessivas omissões ou tradições da intelligentsia, perturbada, em sua lucidez, pelos reflexos enganadores de um jogo artificioso, o do binômio “direita-esquerda”, no qual o prof. Corção não encontra qualquer conteúdo. Sem o embargo do brilhantismo da sua argumentação, pode-se objetar à tese, sustentada, que a classificação das posições políticas, segundo aquele critério nascido de circunstâncias fortuitas, ordena-se tão naturalmente quanto a disposição das cores, no espectro. Para obtê-las, não é preciso mais que o prisma que decomponha o conjunto, em seriação constante, de extremo a extremo, num dos quais, por exemplo, se poderia situar o Sr. Gustavo Corção.

Isso não invalida, entretanto, a percuciente análise, feita pelo autor, do partido que tem sido tirado, por sua espécie de chantagem intelectual, do prejulgamento das posições adotadas, que se valorizam positiva ou negativamente, segundo preceitos de uma insidiosa propaganda que vicia a balança, fazendo-a pender sistematicamente para um dos lados e, assim, obrigando o Sr. Corção a esgrimir do prato mais alto, o que, no caso, não é uma vantagem. Pesa-lhe muito particularmente verificar que o envolvimento conseguido por esse modo, além de atingir a uma boa parte do clero, não deixou imune sequer a um espírito do porte de Jacques Maritain, a quem, salvo o respeito devido, nosso esgrimista não deixa de atirar alguns “a fundo”.

A intrepidez e o ardor combativo do infatigável lidador são ainda mais surpreendentes nos assaltos que joga contra o velho Galileu, cansado de guerra. Joga-os com suma agilidade, embora sem êxito no seu intento primordial, que é a defesa do Santo Ofício. O exame da veneranda querela, porém, não cabe na extensão desta nota, que não pode ser encerrada sem registrar que o Sr. Gustavo Corção, admirável escritor, não cede uma palha em suas convicções e desafia, com seu livro, do maior interesse para o entendimento do nosso tempo, mais de uma opinião solidamente implantada no ideário contemporâneo, enfrentando heroicamente a matéria vencida, sempre apto e disposto a tudo repor em discussão.

[Publicado no Jornal do Brasil, sábado, 28/04/1973, Suplemento “Livro”, p. 6]