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Sir Roger Scruton nos deixou exatamente quando mais precisávamos dele. Seu legado filosófico incluirá o reconhecimento de que o conservadorismo político jamais atingirá o nível da teoria, embora isso seja mais lucro que prejuízo. O conservadorismo, segundo ele pensava, não é uma teoria, mas um instinto: o instinto de que devemos olhar para o mundo não para repudiá-lo, mas para redimi-lo. Ao contrário do socialismo, que não passa de uma fábrica de lamúrias.

O conservadorismo pode ter esse aspecto antiteórico; não se segue daí, porém, que não possamos lhe oferecer bases filosóficas decentes. Quais seriam esses fundamentos?

Roger desenvolveu uma espécie de explicação neo-kantiana sobre o que somos, entremeada com olhares na direção de Hegel. O mistério duradouro da condição humana é que somos, ao mesmo tempo, objetos no mundo e, no entanto, capazes de desenvolver perspectivas contrastantes sobre ele. Conforme seu hegelianismo, o liberalismo pressupunha que podemos, por decisões racionais, tornar mais justa a sociedade em que vivemos, desde que certas instituições já estejam funcionando antes que o conceito de “escolha” possa fazer sentido de forma prioritária.

Os domínios de Scruton eram surpreendentes, variando da estética da forma musical à metafísica do desejo sexual, da arte à arquitetura. Argumentava, em todas essas áreas, que a tradição é uma preservadora da verdade; que precisamos estar alertas contra uma visão das relações sexuais que as reduz ao meramente consensual; que quando se constrói um edifício, devem-se obrigações não apenas àqueles que viverão nele, mas também àqueles que somente irão olha-lo.

As realizações intelectuais de Scruton foram excelentes. Mas é igualmente importante lembrar que ele tinha um espírito jocoso; e muita, muita coragem. Nos anos 80, ajudou a criar, com grande risco pessoal, uma universidade “underground” nos países do leste europeu. Contrabandeava, na forma de samizdat, textos iluminadores que tinham sido proibidos pelas autoridades comunistas. Ele arriscou e sofreu a prisão, como resultado de um radicalismo mais genuíno do que o de seus críticos de gabinete. Eram aqueles dias — os dias que o Sr. Corbyn nunca condenou — em que se podia ir preso simplesmente por estar lendo Aristóteles.

Alguns anos depois, seu senso de ironia o levou a escrever crítica de vinhos para o New Statesman. Os leitores da revista, que é a preferida do establishment esquerdista, tinham de engolir uma coluna semanal, em que se exibiam os benefícios da família, da caça à raposa e da pena de morte.

Eu conheci Scruton na universidade. Participamos das mesmas conferências. Frequentamos a mesma escola em High Wycombe, mas ele foi expulso alguns anos antes de eu chegar lá, e, então, sua lenda havia diminuído um pouco. Mas, no ano passado, quando enviei um conjunto de perguntas sobre a narrativa do “eu” (que propôs em sua obra Alma do mundo), ele respondeu em uma hora.

Scruton não era crente, apesar de ter sido aluno em Cambridge da filósofa tomista Elizabeth Anscombe (que teve uma enorme influência sobre ele). Ele disse, certa vez, que era anglicano por que “o anglicanismo oferecia a versão mais civilizada do ateísmo”. E passou seus últimos anos de vida na paróquia de Malmesbury, a cerca de 16 quilômetros de onde estou escrevendo isso, como organista oficial da Missa dominical.

Seu ponto de vista, seguindo seu tutor de Cambridge, Laurence Picken, era de que estamos a serviço do conhecimento: não é tarefa das universidades prender os alunos ao conhecimento, mas derramar conhecimento na mente dos estudantes, para que eles possam ser seus cuidadores.

No entanto, Roger foi para casa, gostando ou não. Escreveu, um dia, que as pessoas não entendem que a morte é uma bênção e viver muito tempo é uma maldição. Será que ele concordaria que 75 anos está de bom tamanho?

Nós, que aqui ficamos, é que deveríamos estar desolados.

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