scruton na fazenda

O mundo ocidental ficou mais pobre com a recente morte do filósofo inglês Roger Scruton, que era um dos mais respeitados mestres conservadores da atualidade, implacável desmistificador da fraude marxista e outras fraudes de nossa época.

A religião de Scruton era a anglicana. Não acreditava, porém, em milagres: estava mais propenso a aceitar a olímpica indiferença do Criador em relação ao universo criado. Num livro de 1998 sobre Espinosa, observava que “A crença em milagres não honra a Deus, pois que necessidade tem Deus de intervir em eventos que Ele originou? As leis do Universo precisam ser universalmente obrigatórias para que nós as possamos entender, e a inteligibilidade do Universo é a premissa da qual parte toda a ciência e toda a religião.” (Roger Scruton, Espinosa, p. 52 da tradução brasileira feita pela editora da Unesp)

Quinze anos depois, no livro A face de Deus, publicado em 2012, em que polemiza galharda e valentemente com os mais famosos gurus ateístas de hoje — Richard Dawkins, Daniel Dennett e Christopher Hitchens —, continuava de alguma maneira só admitindo esse Deus frio e distante, gélido como um lorde inglês. Nosso filósofo não aceitava intervenções miraculosas do Criador, que, como nós, também agiria como um sujeito, mas respeitando as próprias leis que inventou para regular o mundo objetivo, por Ele criado: “Podemos aceitar o ceticismo de Hume em relação a milagres e continuar a reconhecer a presença de Deus como agente no espaço e no tempo.” (da edição italiana Il volto di Dio, Milão, Vita e Pensiero, 2013, p. 60)

Em vez de Santo Agostinho ou Santo Tomás de Aquino, Scruton preferia apoiar-se em Avicena (filósofo islâmico do século X e XI). Afirmou que “não devemos presumir que Deus possa ser chamado a nos ajudar em qualquer circunstância, distribuindo as cartas por trás do baralho da natureza. A liberdade de Deus se revela a partir das leis que nos unem, e às quais o próprio Deus está ligado, pois seria uma perda, não um ganho, da divina liberdade de Deus, se Deus não cuidasse das leis que regem a criação e sustentam sua Providência.” Era preciso que o ser humano se educasse “na disciplina da aceitação. É esta atitude, mais do que qualquer crença em intervenções sobrenaturais, que pode dar forma à visão religiosa do mundo — a atitude de obediência, o islã.” (p. 20)

Esse é o sentido etimológico da apalavra “islã”: submissão. Essa face oculta de Deus será o vínculo inegável que parece unir protestantes a muçulmanos. O curioso é que Scruton foi um dos mais duros críticos da islamização da Europa…