ideologia

Os bons dicionários de filosofia ensinam que o termo “ideologia” é recente: foi cunhado no século XVIII, e, desde o século XIX, é usado para indicar uma teoria sem fundamento científico, mas que é adotada por ser útil a algum projeto político. Tem, portanto, um aspecto negativo.

De fato, não é raro alguém dizer: “Isso não passa de ideologia”. Ou então: “As ideias de Fulano estão comprometidas ideologicamente”. A palavra “ideologia” é sempre utilizada em sentido depreciativo. Como saber, no entanto, se estamos pensando e agindo ideologicamente? É uma questão difícil, mas não insolúvel.

Vejamos algumas utilizações da palavra. Karl Marx, o principal teórico do comunismo, usava o conceito de “ideologia” referindo-se a uma falsa ciência, produzida sob influência da classe dominante, a burguesia, para se perpetuar no poder. Do ponto de vista marxista, seria falsa toda explicação da realidade que não admitisse os fatores econômicos como determinantes da história e da cultura.

Considere-se, p. ex., o conceito marxista de religião. Para Karl Marx, religião é o ópio do povo. Assim, todo esforço teológico da Igreja Católica para justificar o cristianismo não passaria de falsificação interesseira, uma “construção ideológica”. O conteúdo espiritual da “Suma teológica”, de Santo Tomás de Aquino, na visão marxista, deveria ser reduzido a produto de uma sociedade pós-feudal, no início do mercantilismo, que se valia do discurso teológico para legitimar as relações discriminatórias de poder e a injusta divisão de classes de então. A teologia, portanto, não passaria de uma falsa ciência a serviço da dominação política. Portanto, “ideologia”.

Mas não é somente a esquerda que utiliza o conceito de “ideologia” com tal conotação pejorativa. Hoje em dia, o próprio pensamento de direita se apropriou da palavra para classificar como “ideológica” a impostura revolucionária, representada pelos três grandes projetos totalitários do século XX: nazismo, fascismo e comunismo, que procuraram imprimir violenta e destrutivamente uma nova ordenação à realidade e para cuja realização não importavam os meios (incluindo teorias sem sólido fundamento científico).

Os católicos mais conservadores utilizam com frequência a palavra “ideologia” quando procuram explicar e compreender a infiltração esquerdista na Igreja, como a “teologia da libertação”, que desfigurou “ideologicamente” a doutrina social da Igreja, fazendo-a optar preferencialmente pelos pobres (como se o ricos pecadores também não devessem ser objeto de evangelização). Muitos fiéis, sensíveis ao sofrimento material dos pobres, viram naquela falsa teologia “ideologizada” uma oportunidade para soar o alarme contra injustiças sociais, e se uniram a militantes travestidos de católicos, mas que já não acreditavam nas verdades centrais do cristianismo.

Outra utilização recente da palavra “ideologia” ocorre nos debates sobre o clima. Cientistas mais independentes (chamados de “céticos” em relação à crença dominante no setor) qualificam como “ideologia ambientalista” a tese que já apresenta como verdade indiscutível a hipótese científica de um aquecimento climático devido a fatores exclusivamente humanos (antropogênicos), como a emissão de gás carbônico produzido pelas chaminés industriais e o escapamento dos carros. Por tratar-se de uma teoria que, embora majoritária, ainda não possui unanimidade na comunidade científica, é apresentada como “ideológica”, a serviço de um projeto político que visa limitar o crescimento econômico de países pobres, a redução populacional do planeta ou o controle da produção de energia.

Como saber se estamos acorrentados ideologicamente? Se “ideologia” não é um sistema coerente de ideias, mas uma rede de conceitos entrelaçados com vistas exclusivamente à ação política, sem preocupação com a verdade objetiva dos fatos, não há outra saída além da confiança no trabalho lento e honesto das ciências. Para tanto, é preciso que os cientistas sejam, cada vez mais, pessoas virtuosas, mais preocupadas com a busca da verdade do que em ceder a fantasias utópicas sem pés no chão ou a interesses políticos escusos (fonte do milionário financiamento acadêmico das pesquisas).