scott hahn

[Em entrevista ao Padre Tanoüarn em Monde et Vie (“A Igreja é contra a liberdade?”, Outubro de 2019, pp. 22-23), o ensaísta católico François Huguenin defende a Igreja Católica contra aqueles que a acusam de ser liberticida. Obviamente, o oposto é que é verdadeiro. No entanto, alguns dos argumentos usados pelo Sr. Huguenin parecem ser incompatíveis com o ensino moral da Igreja, em particular com o de Paulo VI na Humanae vitae. Dado que a questão vai além da simples opinião de uma pessoa em particular e tem alcance geral, o Padre Antoine-Marie de Araujo, da Fraternidade Saint-Vincent-Ferrier, oferece a seguir alguns esclarecimentos.]

Agradeço ao Sr. Huguenin por relembrar o conceito clássico de liberdade: o poder de fazer o bem. Por outro lado, suas críticas ao ensino moral da Igreja nos parecem insustentáveis, quando ele diz: “Não me parece absurdo que a Igreja tenha alguns princípios sobre sexualidade, mas que ela espie o que esteja acontecendo no quarto de um casal, devidamente casado, ​​me parece excessivo.”

 Esta frase é difícil de entender. Se existe um lugar onde os princípios da sexualidade devem ser aplicados, é preferencialmente nos quartos. Talvez o Sr. Huguenin queira que a Igreja autorize contracepção artificial para os cônjuges? No entanto, esse é um princípio fundamental da doutrina católica e que nunca deve ser separado de sua função procriadora divina. É também um dos mais belos. A famosa conversão de Scott Hahn, vindo do protestantismo, foi baseada na descoberta do ensinamento católico sobre contracepção (Scott e K. Hahn, Todos os caminhos levam a Roma. São Paulo, Cléofas, 2015). Assim como a aliança entre Deus e os homens é uma aliança de vida, também a união dos cônjuges, que é imagem daquela aliança, está aberta à vida.

Mas o Sr. Huguenin tem outras queixas: “E que o atual direito canônico coloque, no mesmo capítulo dos pecados contra a castidade, a masturbação, o adultério e a pedofilia, me parece uma aberração representativa de uma neurose. A masturbação é um ato que questiona a castidade. O adultério, por outro lado, é principalmente um pecado contra a fidelidade. Quanto ao estupro ou abuso sexual, é uma violação profunda da dignidade da pessoa. Hoje, nós misturamos tudo.”

O Código de Direito Canônico não fala de masturbação. O Catecismo da Igreja Católica lida com esse assunto no capítulo comum de “ofensas à castidade” (n.º 2351-2356), junto com adultério e vários abusos sexuais.

Se esse agrupamento reflete uma neurose, São Paulo estava gravemente afetado por ele: “Mortificai, pois, os vossos membros no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma idolatria. Dessas coisas provém a ira de Deus sobre os descrentes.” (Colossenses 3, 5-6)

É certo que masturbação, adultério e abuso sexual diferem em sua gravidade. No entanto, seria inútil isolar a masturbação de outros pecados sexuais. Esses atos têm em comum:

  1. O egoísmo em questões sexuais: há uma recusa do dom de si e da abertura à vida, que Deus desejou para o ato procriador. Além disso, há uma injustiça mais ou menos séria em relação aos outros, a perversidade, etc…
  2. A intemperança: qualquer uso legítimo e gratuito dos prazeres ligados à vida (comida, sexualidade) supõe um autocontrole através da razão, o que é distinto da “repressão” freudiana.

A masturbação é egoísta e mina o autocontrole. Pode se tornar uma verdadeira escravidão. Ela, portanto, predispõe ao adultério e, de uma maneira mais distante porém real, a cometer abuso sexual. Realmente acreditamos que lutaremos efetivamente contra o abuso sexual legitimando a masturbação?

Ao contrário, quem cultiva a pureza (ou pelo menos luta nessa direção) estará muito menos inclinado a enganar seu cônjuge e, é claro, a cometer abusos sexuais. Tudo isso pressupõe moderar os impulsos, e sempre retomar a luta sem desânimo, apesar das quedas, porque a liberdade — a real, a que a Igreja deseja para seus filhos — é conquistada pela perseverança confiante na graça de Deus.

Sem ir tão longe a ponto de julgar a própria Igreja, o Sr. Huguenin às vezes tem a tendência de se declarar culpado em seu lugar.

https://www.hommenouveau.fr/3039/tribune-libre/-l-eglise-est-elle-contre-la-liberte—-brreponse-a-francois-huguenin.htm