SCHOPENHAUER-WAGNER-E-NIETZSCHE

[Parágrafos finais do ensaio “El romanticismo filosófico”, do filósofo italiano Michele Federico Sciacca, recolhido na obra Herejias y verdades de nuestro tiempo, Barcelona, Luis Miracle Editor, 1958].

Não apenas o romantismo artístico-literário, mas também o filosófico (inclusive o de Hegel) é, no fundo, o “desejo do impossível”, a ânsia de ir para fora da realidade, de libertar-se no sonho, no livre jogo da fantasia, de buscar uma liberdade pura, que só é possível quando a vontade se cala e renuncia ao determinado, permanecendo na possibilidade indefinida.

Os três idealismos de Fichte, Schelling e Hegel tendem à “impossibilidade”: à realização total do absoluto no mundo e especialmente no homem (que é onde o Absoluto adquire consciência). E, assim, a moral, a arte e a filosofia se assumem como as formas pelas quais se atua essa realização. Afinal, pura ilusão e utopia, da qual os próprios filósofos românticos são, em parte, conscientes.

No entanto, para eles, a ilusão ou o sonho valem mais que a realidade; ou, melhor dizendo, sua verdade é seu sonho. Portanto, o romantismo filosófico também se apresenta sob a forma da evasão, que é a categoria espiritual típica do romantismo enquanto tal.

Mas a evasão da realidade, procurada de todas as maneiras, deixa os românticos descontentes, inquietos e insatisfeitos (daí a “ironia” e a “consciência infeliz” de Hegel, as “noluntas” de Schopenhauer, etc.). Tudo isso é muito explicável, quando se leva em conta o motivo mais importante: o panteísmo essencial que está na base não apenas do romantismo filosófico, mas de todo romantismo alemão.

De fato, dada a concepção panteísta, o “infinito” romântico, que no rigor da verdade é propriamente o indefinido e o indeterminado, é sempre um infinito “naturalístico” e não espiritual, espacial e temporal, mundano, “histórico”; assim, é sempre um finito real, mesmo que seja um finito que se estenda até o infinito.

Portanto, tanto o “sonho” como a “liberdade”, o “espírito” ou “natureza”, mesmo em sua infinitude, estão sempre ao nível da realidade finita; isto é, considerando-se o imanentismo e o panteísmo, se a natureza se adequa ao espírito, o espírito também se adequa à natureza.

Negada a transcendência, por imenso que possa ser o “sonho”, seu conteúdo não pode ser mais que algo finito, mesmo que se dê por todo o universo humano e físico. Isso explica a evasão para um “paraíso” fictício ou artificial. O romântico “se evade”, “sai para fora” da realidade, com a qual está descontente, sem nunca conseguir “estar fora”, que é a condição do “êxtase”, típico do teísta, enquanto a evasão é própria do panteísmo, do panteísmo dinâmico característico do romantismo filosófico.

A evasão romântica é típica de quem não é cristão e nem ao menos sabe ser homem. Portanto, não é de estranhar que quem não sabe ser homem, queira ser Deus, colocar-se “mais além do humano”. E, de fato, Nietzsche, também romântico, apesar de pertencer a uma geração que já não era romântica, traduz a ânsia romântica de absoluto e de totalidade no mito do super-homem.