Candido e Lula

[O professor e crítico literário Antônio Cândido era marxista e foi um dos idealizadores do PT. Ninguém lhe superou na deplorável esquerdização das letras acadêmicas no Brasil. No final dos anos 80 do século passado, ofereceu um curso de pós-graduação na UNESP, campus de Assis, sobre as origens românticas da modernidade. “Romantismo e modernidade” era o nome do curso, se não me engano, a que assisti com prazer (era o meu primeiro ano como professor do Departamento de Literatura daquela instituição); afinal, o professor era bom, simpático, bem humorado, e as ideias interessantes, mesmo para quem não simpatizava com nenhum dos dois movimentos culturais estudados. Foi com boa surpresa que encontrei o texto do curso, em revista on-line da Universidade Nacional Autônoma do México. Tirei do ensaio os trechos que me pareceram mais representativos do assunto focalizado, e que, embora escritos por um socialista que apreciava o caráter revolucionário do romantismo, podem ser lidos pela ótica contrária: revelam como boa parte dos terríveis problemas modernos já estavam lá, em estado potencial, no aparentemente ingênuo sentimentalismo romântico.]

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ESPÍRITO DE NEGATIVIDADE. “O Romantismo foi o começo de uma literatura aberta às mudanças, ao aderir ao presente, não ao passado, num momento de rápidas mudanças técnicas e sociais. Isso foi se acentuando até as vanguardas do século XX, que privilegiaram a mudança incessante, orientada por um inconformismo permanente que se manifestou pela negação de conceitos, valores e procedimentos. A partir dessa verificação procurarei mostrar que uma das grandes fontes da modernidade nas literaturas do Ocidente foi o que se pode chamar de negatividade, a meu ver um dos traços românticos mais interessantes.

Entendo aqui este termo em sentido amplo, abrangendo tanto os temas quanto as formas de expressão que manifestam aquilo que é o oposto, o avesso do que se espera. “Sou o espírito que nega” —é como o demônio se define no Fausto, de Goethe. No meu conceito há um pouco disso. Penso no gosto romântico pelo que está no outro lado, pelo modo ou a coisa que contrariam, pelo sentimento que se opõe, pelo ato que parece ir contra a corrente. Exemplos: o túmulo que se opõe à casa; a ruína que se opõe à construção; a decadência que se opõe ao apogeu; a noite que se opõe ao dia; o sono que se opõe à vigília; a anormalidade que se opõe à normalidade; o mal que se opõe ao bem; o texto fragmentário que se opõe ao texto completo; o poema sem sentido que se opõe ao poema com sentido. No final, a morte que se opõe à vida. Estes são tipos de negatividade cultivados pelos românticos como opções preferenciais.”

“Aquilo que em outros momentos aparece dissolvido em diversos contextos, se reúne no Romantismo para formar um maciço de negatividade, que influirá na literatura como indecisão expressional, recusa dos sentimentos convencionais, gosto pelo inacabado, sentimento de vazio e falta de significado, chegando à noção de absurdo e a um discurso cujo objeto parece ter sofrido uma espécie de corrosão que ameaça destruí-lo.”

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O SATANISMO ROMÂNTICO. Entre os temas, poucos atingiram mais profundamente a sensibilidade média dos escritores e dos leitores do que os ligados ao satanismo, isto é, a negação revoltosa contra os padrões sociais, a vontade de afirmar o contrário do que é preconizado, o gosto pela vida irregular, fora da norma, chegando ao gosto pela crueldade.

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ROMANTISMO E SADISMO. No limite do satanismo encontramos o sadismo, traço típico de negatividade, pois subordina algo tão positivo quanto o prazer a algo extremamente negativo, como é a dor. Na literatura romântica o sadismo é frequente, seja descrito concretamente como prática, portanto se manifestando visivelmente no nível do comportamento, seja como componente obscuro, recessivo na alma de cada um. Sabemos que Baudelaire é uma ponte entre o Romantismo e a modernidade, e não há dúvida de que foi um dos mais notáveis incorporadores do sadismo à poesia do seu tempo.

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ROMANTISMO E INCONSCIENTE. “No Romantismo, a noite é vista como momento privilegiado. Não é apenas ambiente favorável ao sobrenatural e ao insólito, mas é também correlativo dos estados da alma, equivalendo a um modo de ser ligado ao inconsciente, às raízes profundas da personalidade. Por sua vez, o sono aparece, na noite, não como alternativa da vigília, mas como fonte eventual de uma existência diferente, que se manifesta sobretudo no sonho, “uma segunda vida”, como diz o famoso texto de Gérard de Nerval. Devido a esse contexto, entra na literatura a exploração cada vez mais profunda do inconsciente, o respeito pelas camadas ocultas da personalidade, que podem ser uma negação de tudo o que parecemos ser. Este é um dos filões mais ricos da modernidade, que se expandirá no século XX como elemento central de muitas obras, convergindo com a psicanálise, que marca todo o século, e chegando a predominar em tendências como o Surrealismo.”

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RELATIVISMO HISTÓRICO. “(…) a força corrosiva do tempo (…) é obsessão marcante dos românticos, conscientes de que a vida das sociedades é relativa a ele e se altera conforme ele.”

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TENDÊNCIA AO FRAGMENTÁRIO. “Passando dos temas aos procedimentos formais, ou, por outras plavras, passando à negatividade na forma, depois de tê-la mencionado no conteúdo, pode ser destacada a tendência à composição fragmentária, que é mais interessante do ponto de vista crítico e é um traço de origem romântica.”

“(…) na literatura romântica a palavra parece sentir-se inferior à natureza e aos sentimentos, incapaz de descrevê-los ou exprimi-los de maneira adequada, como se fosse impotente. Um lugar-comum do Romantismo é a afirmação que o essencial, o mais importante, não pode ser expresso, porque está sempre além da palavra. Daí uma espécie de fuga, de renúncia à expressão plena, que aparece nos protestos de incapacidade por parte do escritor, na preferência pela sugestão em lugar da designação, no gosto pela elipse e a interrupção, no uso das linhas pontilhadas para sugerir que o texto é truncado, por não ser capaz de alcançar a plenitude expressional. Ao cabo desta tendência surge o fragmento, traço que se definiu no Romantismo e se tornou princípio estético importante nas tendências que vieram depois.”

“(…) Estes procedimentos se desenvolveram em tendências posteriores ao Romantismo e são frequentes no Simbolismo, chegando a assumir posição por vezes dominadora nas vanguardas do século XX. No século XX as vanguardas de certo modo entronizaram o fragmento, que seria na opinião de muitos a solução adequada para exprimir o mundo em que vivemos, graças à descontinuidade do discurso. O fragmento deixou de ser então na literatura um episódio mais ou menos importante de composição, para se tornar um procedimento privilegiado.”

“(…) a escrita fragmentária me parece um caso de negatividade criadora, que é uma das marcas do espírito romântico legada aos nossos dias.”

http://www.journals.unam.mx/index.php/acel/article/view/31656