chesterton no campo

Penso que não deva haver qualquer dúvida sobre a decadência de nossa época. Isso é muito claramente percebido, por exemplo, no desprezo que ela manifesta por todas as formas de sabedoria e virtude; e na coleção de substitutivos que apresenta, para preencher a lacuna que a sabedoria e a virtude deixaram. É o caso, por exemplo, de todos os medos e histerias que nossa época espalhou em torno da chamada “mudança climática”, sinal do climatério irrevogável de uma civilização que precisa espalhar o pânico para impor uma triste simulação de sabedoria e virtude. Mas todos os medos e histerias que se espalharem, por mais fundados que sejam, resultarão finalmente estéreis; porque o homem não muda pelas verdades científicas, mas pelas verdades espirituais e morais (que nossa época nega e escarnece).

É realmente delirante que uma economia, baseada na promoção e na expansão de necessidades, pretenda combater as “mudanças climáticas”. Inevitavelmente, essa pretensão enlouquecida é resolvida com propostas puritanas (guerra ao plástico e às proteínas  animais), que as massas cretinizadas acatam, enquanto consomem desaforadamente bugigangas de todos os tipos; enquanto viajam compulsivamente pelos subúrbios do mapa-múndi; enquanto se multiplicam exponencialmente os fretes e se destrói o comércio local pelas compras on-line, etc.

Na realidade, toda economia que tem por horizonte o “crescimento” é prejudicial à sobrevivência humana. Uma economia pode “crescer” em direção a um objetivo limitado; mas quando se baseia em crescimento geral ilimitado, torna-se pura depredação. A promoção e expansão das necessidades é a antítese de uma vida sábia e virtuosa; mas é, também, a antítese da paz e da liberdade. Sempre que aumentamos nossas necessidades, aumentamos nossa dependência de forças externas sobre as quais não temos controle; forças que são fortalecidas com nossas novas formas de dependência (começando, é claro, pelos gerados pela tecnologia, que nada fez além de favorecer o consumismo desenfreado, a deslocalização das empresas, a automação e o gigantismo econômico). Uma vida sábia e virtuosa exige uma nova orientação da tecnologia para o próximo, estimulando a criatividade humana em vez de substituí-la, incentivando o cooperativismo, devolvendo dignidade ao trabalho, favorecendo a descentralização demográfica e a recuperação do mundo rural.

Chesterton se rebelava contra aqueles que alegavam exultantes que, graças aos trens rápidos que viajavam de um extremo a outro da Inglaterra, as maçãs pudessem estar disponíveis de maneira rápida e barata. “O que é realmente mais rápido e barato, para os homens, é arrancar uma maçã da macieira do jardim e levá-la à boca”, escrevia ele. Além disso, o proprietário de um pequeno sítio sempre terá muito mais cuidado para garantir a saúde de sua fonte de renda, do que as empresas transnacionais que acreditam que o universo é seu fornecedor inesgotável. As transações comerciais em larga escala geram poluição, destroem tradições locais, arrasam paisagens, esvaziam regiões, transformam o mundo em um enorme depósito de lixo.

Transtornam-se, com isso, os seres humanos, enredados nessa lógica destrutiva, fundada no consumismo. Milhões de pessoas se deslocam compulsivamente, fazendo crescer as cidades de maneira patológica, transformando o mundo inteiro em um festim bulímico. É realmente esclarecedor que alguns só levem em conta os efeitos devastadores dessa mobilidade incessante, favorecida pela economia em larga escala, quando se trata de combater a imigração. Aqueles que afirmam que combater o comércio eletrônico ou a globalização é tão inútil quanto “abrir as portas para o campo”, tornam-se misteriosamente a favor de colocar portas, muros e cercas no campo para impedir a chegada de imigrantes — os quais só deixarão de chegar quando economias de pequena escala forem estabelecidas em seus países, permitindo-lhes levar uma vida sábia e virtuosa em suas próprias terras.

Mas não haverá tal vida, enquanto as condições de trabalho não se humanizarem, o que não deve ser entendido como uma pena que, um dia, será substituída pela automação, mas como uma vocação humana que precisa ser atingida. O homem necessita de família e de trabalho para ser autenticamente livre e expressar sua criatividade. Um trabalho, no entanto, que destrói a alma, exige anestesia e formas mais agressivas de escapismo, entre as quais o consumismo, que é sempre uma expressão de degradação moral.

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