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Quando a igualdade é invocada fora do campo da dignidade e dos direitos fundamentais (que é onde, na realidade, se deveria falar de equidade), ela se perverte em igualitarismo, que é um veneno mortal para a humanidade.

A lógica igualitarista conduz à indiferenciação generalizada, ao “tudo é igual” que coloca o animal no mesmo nível do humano, até negar a este último o direito de transformar a natureza em seu benefício, por dever compartilhá-la com todas as outras espécies vivas. No entanto, é o humano que dá sentido aos seres vivos em toda a sua diversidade. Como a parábola dos talentos, a missão do homem não é preservar em seu estado original o que lhe foi confiado, mas dar frutos a partir do que recebeu, ou seja, fazer progredir a humanidade usando sua inteligência e os recursos à sua disposição.

Agora, é o planeta a ser preservado que está hoje no coração do discurso dominante e não mais o homem, acusado de ser seu predador. A natureza não está mais a serviço do homem; ele é quem deve servi-la. Essa inversão do fim e dos meios é uma revolução que, como qualquer revolução, impõe total submissão ao dogma, pela abolição, neste caso, de especificidades políticas, culturais, étnicas, econômicas e antropológicas, para que a humanidade se transforme num vasto rebanho cuja composição, número e necessidades serão definidos uniformemente por uma pequena minoria informada pela ciência.

Uma vez cortado esse elo entre natureza e homem — julgado prejudicial para a primeira e alienante para o segundo —, responsável pelo conceito de mérito através do trabalho e do intercâmbio, a humanidade poderá embarcar no caminho novo do transhumanismo, que visa libertar o homem de todos os limites em suas relações com a vida, o tempo e o ambiente, cultivando apenas a manutenção do prazer.

Esta é a nova torre de Babel que se procura construir. O primeiro passo, já iniciado, é tornar a humanidade totalmente maleável para dela se servir, quebrando suas antigas estruturas através da desinformação, do medo, da culpa. O segundo passo será a nova organização desta humanidade, de acordo a visão transhumanista.

Mas o projeto chegará a seu termo? Deus interrompeu essa empreitada vã porque os homens, que trabalhavam em sua realização, se tornaram escravos do projeto. A construção era seu único objetivo; a perda de um tijolo era mais grave que a morte de um homem e ninguém sentia a necessidade, fora do trabalho, de estabelecer relações com o outro. Em outras palavras, os homens já não mais correspondiam ao propósito de sua criação. Assim que se viram falando línguas diferentes, tiveram de estabelecer relações interpessoais para o mútuo entendimento, agindo e formando comunidades; começaram a necessitar uns dos outros e, a partir daí, nasceu a fraternidade, que dava um sentido verdadeiro às suas vidas.

Esta é a lição da Torre de Babel: contra qualquer empreendimento escravizador, a única arma eficaz é a fraternidade. Esse valor é a pedra angular do sistema de valores expresso em nosso lema republicano, porque contém todos os demais e os protege da perversão que nutre as piores tiranias. Sem fraternidade, a liberdade é a lei dos mais fortes, igualdade é nivelamento, trabalho conjunto é comunitarismo, patriotismo é rejeição do outro, secularismo é anticlericalismo, solidariedade é recrutamento, religião é fundamentalismo, moral é rigorismo liberticida, generosidade é esmola exibicionista ou assistencialismo indiferente.

Liberdade e igualdade são valores de combate quando a fraternidade é congregante e não produz vítimas. E diante de um futuro, que a maioria concorda em prever sombrio, surpreende-me que este terceiro valor do nosso lema republicano seja mencionado pela classe política com muita parcimônia. No entanto, em situações extremas, somente a fraternidade permite que uma comunidade sobreviva.

https://www.lesalonbeige.fr/la-mission-de-lhomme-nest-pas-de-preserver-en-son-etat-originel-ce-qui-lui-a-ete-confie-mais-de-faire-fructifier-ce-quil-a-recu/