universidade de paris

[Prof. Eurípedes Simões de Paula, titular por décadas da cadeira de História da Civilização Antiga e Medieval na USP, revela, no seguinte extrato de palestra, como o ensino superior na Idade Média era universalista sem abrir mão dos elementos nacionais.]

A segunda metade do século XIII é o período de fastígio da Universidade medieval. Nunca se esqueçam que é a época em que pontificou São Tomás de Aquino. A famosa Summa de São Tomás é composta nesse período em que temos a Universidade Medieval mais típica.

A Universidade de Paris cresceu de tal maneira que na segunda metade do século XIII a população estudantil de Paris orçava em cerca de trinta mil estudantes (Bolonha, na Itália, possuía vinte mil) e o maior número de estudantes estava matriculado na Faculdade de Artes, que é justamente a antepassada da nossa Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras.

Lecionava-se aí o Trivium: Gramática, Dialética, Retórica; e o Quadrivium: Música, Aritmética, Geometria e Astronomia, divisões essas que vinham aliás do mundo antigo.

Esta Universidade é uma Universidade internacional. Havia o que na época se chamava de nações (nações de estudantes). Os gallicani (a “honrada nação dos galicanos”, o nome que ela tinha nos documentos) eram indivíduos oriundos de Paris, de Bordéus, da Espanha, da Itália.

A outra nação, a dos Normandi (“venerável nação dos Normandi”) compreendia os estudantes oriundos da Normandia.

Os Picardi (também chamada “a muito fiel nação dos Picardi”) compreendia os alunos vindos da Flandres; e por fim na nação dos Angli ou Alemani (“a muito constante”) matriculavam-se os estudantes da Inglaterra, da Alemanha, da Escócia, da Irlanda, da Escandinávia, Polônia, Hungria e Boêmia.

Os professores eram das mais variadas procedências: Alberto o Grande, por exemplo, era alemão de Colônia; Alberto da Boêmia, da Checoslováquia dos nossos dias; Sigério de Brabante, da região de Flandres; São Boaventura e Santo Tomás de Aquino, italianos.

Vejam os srs. estudantes que, já naquela época, beneficiava-se extraordinariamente a Universidade com a vinda de professores estrangeiros que traziam a cultura de seu povo para que os seus novos estudantes pudessem também dela aproveitar-se.

(História da ciência – perspectiva científica. Coletânea de artigos organizada por Shozo Motoyama. São Paulo, USP, 1974)