paul johnson

[Trechos de uma entrevista concedida pelo historiador inglês ao jornalista José Carlos Santana, de O Estado de São Paulo, por ocasião de sua visita ao Brasil em 1993. O curioso é que sua viagem a São Paulo foi organizada pela Odebrecht “para que o empresariado paulista pudesse ouvi-lo”, como informa o entrevistador. A mesma Odebrecht, que trouxe Paul Johnson para falar contra o socialismo e a favor da economia de mercado, uma década mais tarde se “associaria” ao governo socialista do PT.]

Eu venho de uma família católica e recebi dos meus pais ensinamentos de bons católicos. Frequentei um colégio de jesuítas, aos quais agradeço muito pela educação que me deram, não só acadêmica, mas também doutrinária e moral. Em seguida, fui estudar História na Universidade de Oxford, onde me graduei. Concluído o curso, servi como capitão do Exército britânico na Segunda Guerra Mundial, e, assim que veio a paz, resolvi passar uns tempos em Paris, para ampliar e aprimorar a minha cultura.

Lá permaneci três anos, trabalhando para a revista Realité, e sob a influência de um político muito conhecido na época, Pierre Mendes-France (ex-primeiro-ministro), abandonei o conservadorismo de minha formação e tornei-me socialista. Não marxista, que nunca fui, mas socialista. Quando voltei para a Inglaterra, filiei-me ao Partido Trabalhista e comecei a trabalhar para a New Statesman, então a revista progressista de maior influência na Europa e talvez do mundo. Por quase quinze anos, fui o seu editor.

O Partido Trabalhista foi fundado no século passado para dar expressão política ao movimento sindical britânico. É portanto, constitucionalmente, um partido de sindicatos. E esse tem sido o seu grande problema. No final dos anos 60 e início dos anos 70, fui ficando cada vez mais desiludido com o comportamento do movimento sindical, porque os sindicatos transformaram-se não numa força de progresso do país e dos trabalhadores, mas de atraso de toda a sociedade. Como não era possível pertencer ao Partido Trabalhista e, ao mesmo tempo, fazer oposição aos sindicatos, deixei o trabalhismo.

A campanha que promovi contra o poder excessivo dos sindicatos acabou facilitando uma aproximação minha com Margaret Thatcher, de quem me tornei auxiliar e amigo. Conversávamos muito e eu escrevia discursos para ela. Não acredito que ela tenha me influenciado, mesmo porque pensávamos de maneira muito parecida sobre o que seria melhor para a Grã-Bretanha. Thatcher tinha poucas mas firmes ideias sobre o que fazer para recolocar o país no caminho do progresso, e foi um prazer trabalhar com ela e acompanhar a evolução do protejo que ela desencadeou.

Mas, na verdade, a mudança do meu pensamento político teve razões mais profundas. O estudo do mundo antigo e da história, em geral, me fez mudar de opinião. Eu pensava que era possível separar os aspectos económicos e políticos da liberdade. Que era possível limitar a liberdade económica sem comprometer a liberdade política. Mas cheguei à conclusão de que estava errado, de que estava cometendo um erro fundamental. A política e a economia seriam inseparáveis. E foi aí que percebi que qualquer tipo de coletivismo era um engano. E isto vem sendo provado continuamente, em todo o mundo. Mudei a minha filosofia política um pouco tarde, mas antes tarde que nunca.

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Os sete pecados capitais da mídia. Distorção, criação de falsa imagem, invasão da privacidade, assassinato de personalidade, exploração de sexo, envenenamento da mente infantil e abuso de poder. Estes são os sete pecados capitais da mídia. Deles, o mais importante é o abuso do poder, porque os jornalistas nem sempre são conscientes do enorme poder que têm, da influência que podem exercer e do mal que podem causar. A reputação das pessoas é algo muito valioso para ser danificada, irresponsavelmente.

Televisão e violência. Todas as investigações feitas até agora, a esse respeito, apontam nessa direção: a violência de ficção, na TV, é responsável pelo aumento da violência na rua e nos lares. E eu, pessoalmente, prefiro ficar do lado do público, que vive a experiência e acredita sinceramente na ligação entre violência excessiva na televisão e o aumento da criminalidade.

Pobreza e aumento da criminalidade. Eu nunca acreditei que a pobreza, por ela própria, seja responsável por crimes. Acho que dizer isto é cometer uma injustiça com os pobres, que podem e vivem, em sua maioria, uma vida exemplar. Na minha opinião, o aumento da violência e da criminalidade é mais uma consequência do declínio da religiosidade, da desintegração das famílias, do abandono do ensino moral nas escolas e do desencanto das pessoas com os seus governantes, entre muitas outras coisas.

(“Caderno de Sábado”, O Estado de São Paulo, 02/10/1993)