pintura romantica

[Na abertura do capítulo sobre a época romântica, em sua História da literatura italiana, o respeitado crítico literário italiano Attilio Momigliano (1883-1952), que não era católico, mostra algumas incompatibilidades entre catolicismo e romantismo.]

O romantismo é um movimento complexo que se pode descrever amplamente mas não definir. Os críticos vieram pouco a pouco ampliando-lhe e aprofundando-lhe o conceito, até fazer dele um movimento não apenas literário, mas artístico, político e filosófico. As suas raízes vitais são de caráter filosófico; e assim, por isto, como pela sua amplidão, ele pode ser avizinhado à renascença. Ambos modificam todo o aspecto cultural das nações que deles participam.

Mas o romantismo é, sob muitos aspectos, uma revolução contra a renascença, ainda que não se possa concebê-lo sem esta. O romantismo é, além do mais, um retorno à Idade Média, largamente enriquecido e transformado pelas experiências da renascença e dos tempos posteriores. É um retomo no qual a interioridade que havia sido ensinada pelo cristianismo toma novo vigor e se encaminha por estradas novas e frequentemente de todo opostas ao cristianismo. A análise psicológica, que os grandes escritores cristãos haviam ensinado, e a consciência de um misterioso significado da vida, que na renascença haviam sido mais ou menos esquecidas, mas que entre nós alguns escritores de épocas mais cristãs — Dante, Petrarca, Tasso — haviam em medidas diversas conservado, ressurgem, mas com tendências geralmente divergentes da religiosidade católica. Temas da literatura, e em geral da arte romântica, são, mais que os aspectos e os sucessos exteriores, as tendências, os trabalhos, as aspirações íntimas dos homens; mais que o quadro da natureza, a alma que dentro dela dos homens; mais que o quadro da natureza, a alma que dentro dela palpita. E nisto se deve reconhecer o tardio frutificar das sementes lançadas no espírito europeu pelo cristianismo.

Mais diretamente, porém, o romantismo, considerado no seu fundo religioso, é um desenvolvimento do sentimentalismo do século XVIII e da reação ao racionalismo. Enquanto o movimento do enciclopedismo tem um aspecto irreligioso, o movimento romântico tem um aspecto religioso e desenvolve ampla e variadamente a vaga religiosidade dos autores da La profession de foi du vicaire savoyard (Rousseau) e de Paul et Virginie (Bernardin de Saint-Pierre): de Rousseau e de Bernardim de Saint-Pierre se chega a Chateaubriand. A religiosidade do romantismo tem algo de sentimental, de apaixonado ou de mórbido que trai a sua origem essencialmente rousseauniana; também por isto Manzoni não podia ser um romântico: confrontem-se as suas Osservazioni sulla morale cattolica com Le génie du christianisme (Chateaubriand).

A religiosidade romântica tem caráter ardente e apaixonado e é um dos aspectos sob o qual se manifesta o que é talvez a nota dominante do romantismo, isto é, a exaltação da paixão, das forças dominante do romantismo, isto é, a exaltação da paixão, das forças instintivas e obscuras da alma, contra as forças moderadoras do intelecto. Classicidade é limite, calma, consciência; romantismo é indefinido, inquietude, mistério. A Igreja Católica não pode senão desconfiar do romantismo, pois que se aninha no seio deste uma forma de religiosidade suspeita que leva, como extrema consequência, à exaltação de tudo o que o catolicismo quer corrigir e frear. O romantismo tem em si o germe de uma religiosidade perigosa que, através de extremas deduções e de extremas degenerações, leva ao satanismo de Baudelaire e de Rimbaud. Renunciando à revelação e colocando as raízes da religiosidade nas forças obscuras da alma e nas suas profundidades indefiníveis, abre caminho a todos os excessos e à própria divinização mesma dos sentidos. Compreende-se assim que um católico como Manzoni faça depender a fé da vontade (“Crê quem o quer”) e faça os máximos esforços para demonstrar, com a ajuda da razão, a verdade da fé. O sentimento, abandonado a si mesmo, é um inimigo temível.

De fato, se num primeiro período o poeta romântico é, como foi bem dito, “um messias refletido que faz seus todos os tormentos ideais da humanidade e a guia com o seu canto aos reinos do espírito puro”, em seguida, desenvolvendo-se a autonomia do espírito, a religiosidade sem transcendências e sem dogmas, todo excesso parece justificação, e a primitiva religiosidade romântica acaba na impiedade, na anarquia e na confusão entre misticismo e luxúria.

(Attilio Momigliano, História da literatura italiana. Trad. de Luis Washington Vita e Antonio d’Elia. São Paulo, Instituto Progresso Editorial, 1948, p. 365-367)