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[Em 1978 o húngaro Nicolas Boer, naturalizado brasileiro, professor da USP e jornalista do Estadão, publicava no jornal paulista, então de linha conservadora, um longo artigo refletindo sobre os dez anos da revolução estudantil de maio de 1968, enxergando nelas as raízes mais imediatas do “euroterrorismo”, como era chamada então a ação de grupos terroristas de extrema esquerda na Europa, de início principalmente na Itália e na Alemanha ocidental, mas logo espalhando-se por vários países. O autor ainda não tinha a perspectiva que temos hoje para avaliar mais amplamente as consequências daquela rebelião universitária, inclusive no Brasil, mas o texto revela o grande conhecimento que Boer tinha do movimento revolucionário contemporâneo].

A análise retrospectiva da Revolução Estudantil, por ocasião do seu 10º aniversário, constitui uma tarefa importante dos historiadores e dos sociólogos, entre outros motivos porque é capaz de contribuir para a compreensão das origens históricas, psicossociais do euroterrorismo que desafia hoje a sobrevivência das democracias ocidentais. Se, graças às suas instituições democráticas muito elásticas e grande mobilidade social, os Estados Unidos conseguiram absorver os representantes e os descendentes do Poder Jovem, do Poder Estudantil e mesmo integrar em seu governo os elementos ultra-esquerdistas da cultura hippie, a França, cuja sociedade altamente intelectualizada cultiva como um tabu a ideia da Esquerda, da Revolução e da Novidade, possibilitou que a geração dos revolucionários de Nanterre e da Sorbonne se sublimasse no pensamento e no movimento dos novos filósofos que se divorciaram, definitivamente, tanto da ideia da organização (redundando na burocratização ditatorial) como da opção do terror, como meio da revolução e da renovação social. As Brigadas Vermelhas na Itália, a Fracção do Exército Vermelho na República Federal da Alemanha, o Exército Vermelho japonês, cuja ação está coordenada com a das outras organizações terroristas (palestina, irlandesa, espanhola), perderam a inocência e o entusiasmo juvenil dos seus predecessores, há dez anos chamados de “Nova Esquerda”, ao se organizarem em bandos terroristas e ao adotarem a doutrina leninista clássica.

Segundo esta filosofia, dentro dos quadros do capitalismo não há diferença essencial entre um regime político liberal e um regime fascista; há um só “imperialismo” e o “inimigo objetivo” é repugnante, como o mal absoluto. O que é ainda juvenil no pensamento destes grupos descendentes dos revolucionários do maio de 1968 é a impaciência, na medida em que julgam que a sociedade existente, em comparação com a outra que têm em mente, não é tolerável um só dia a mais e que a ação direta, por meio de golpes desfechados no coração do Estado, é capaz de destruí-la.

AS ETAPAS DA REVOLUÇÃO. As diversas etapas da revolução estudantil — que se radicalizou à medida que suas motivações no início universitárias foram progressivamente substituídas por finalidades políticas revolucionárias e assim conquistando e em seguida perdendo o apoio de grupos políticos menos espontâneos e mais organizados — permitiram a previsão de sua futura evolução: o movimento ia fragmentar-se, sendo seus elementos mais espontâneos recuperados e absorvidos pelas sociedades democráticas, enquanto outros de seus partidários, ideológica e politicamente conscientizados e engajados, constituiriam grupos marginais que resolveram destruir a sociedade pelas armas. Estes grupos marginais arregimentaram-se no bando Baader-Meinhoff e nas Brigadas Vermelhas, que desenvolvem seu terror no sentido do princípio leninista, interpretado e praticado um tanto simploriamente: o Estado dito burguês “se abate, mas não muda”.

Mas no início não foi assim. No início tentamos descobrir as motivações originais da revolta estudantil, num ensaio publicado sob o título “Jovens Buscam Nova Esquerda” (O Estado, 12/10/1969). Citamos, então, Richard Davy, que, em artigo publicado na edição de lº de Junho de 1968 do Times de Londres, caracterizou de maneira concisa, embora um pouco idealizada, inspirada na simpatia e na compreensão, a atitude da Nova Esquerda Juvenil, em plena revolta nas sociedades superdesenvolvidas do Ocidente: “Se alguém quer sintetizar uma revolta estudantil em seu laboratório, deve proceder como segue: escolha alguns milhares de estudantes de sociologia e faça-os assistir a uma aula numa sala em que caibam cem pessoas. Diga-lhes que, mesmo passando nos exames, provavelmente não haverá emprego para eles. Faça cercá-los por uma sociedade que não pratica o que prega e que é governada por partidos que não representam as ideias dos estudantes. Diga-lhes que devem pensar no que é errado na sociedade e como podem corrigi-la. Logo que comecem a se mostrar ativamente interessados pelo assunto, chame a polícia. Então, afaste-se da pancada e simule uma atitude de surpresa confusa. Essa é naturalmente uma simplificação crua, mas pelo menos constitui amostra de alguns distúrbios estudantis no mundo ocidental — uma combinação de queixas educacionais, desilusão política, preocupação moral, frustração, enfado, entusiasmo e certo grau de mimetismo.”

George Keller, antigo vice-decano da Universidade de Columbia, chegou mais próximo da essência anárquica, revolucionária da Nova Esquerda, num artigo publicado na secção da resenha de livros do Washington Post, a 19 de maio de 1968:

“Durante o quarto dia da revolução na universidade de Columbia, onde trabalho e onde um pequeno grupo de 400 estudantes e alguns colaboradores de fora — tomados por idealismo, maoísmo, preocupações raciais, malandragem, febre primaveril, fanatismo religioso, guerrilheirismo, romantismo e poesia de movimento — apoderaram-se do controle do campus, um colega meu aproximou-se de mim e perguntou: “Por que tantos dos jovens revolucionários do nosso tempo pensam que as universidades são a principal alavanca para esmagar o sistema”? Naqueles quatro dias eu não dormi mais que oito horas; estava completamente tonto, mas a pergunta me embalou. Marx e Lenin teriam certamente rido em silêncio quanto à ideia de iniciar uma revolução para transformar a sociedade apoderando-se de uma escola — sem fuzis, poder ou dinheiro”.

Uma declaração de Charles Aufust Bardin, um estudante de 20 anos, participante da revolução dos estudantes franceses no mês de maio de 1968 (citada no New York Times) veio a demonstrar que a Nova Esquerda vai muito além da exigência da reforma educacional: “Em cada revolução deve haver um inimigo imediato, bem conhecido, para ser odiado por todos; na nossa revolução, ele é a polícia francesa. Cada bomba que fabricamos e lançamos, cada paralelepípedo que arrancamos, significa que a revolução continua por mais um dia. Nosso objetivo é destruir o governo e mudar nossa sociedade, mas combatemos a polícia para lembrar à França o que nós somos e o que desejamos”.

 

A ETERNA UTOPIA. Eis aí a eterna utopia — almejada inicialmente tanto pelos liberais como pelos socialistas — do desaparecimento do Estado, com todos os seus aparatos, os instrumentos e os símbolos do poder: polícia e exército. À medida que o Movimento de Maio se radicalizou e se expandiu, obedecendo à sua lógica interna e mais ainda à dialética das ações e das reações, a Nova Esquerda revelou que seus objetivos vão muito além de reivindicações educacionais, visando a atingir e extirpar as potencialidades de sobrevivência e de desenvolvimento orgânico das instituições tradicionais da democracia ocidental. Ela ofereceu, já em seus primórdios, uma oportunidade sem par aos demais adversários da democracia de tipo ocidental, para infligir sérios danos à fábrica institucional destas sociedades. O movimento alcançou êxitos ao instigar violência maciça e desintegradora da autoridade legalmente constituída no Ocidente, sobretudo na França, mas também na Alemanha, na Itália, no Japão e nos Estados Unidos, para mencionar os exemplos mais característicos.

O PODER JOVEM. Foi em meados de 1968 que atingiu um primeiro ponto culminante — principalmente na França, mas também em toda a Europa Ocidental e nos Estados Unidos — o movimento que projetou o Poder Jovem, o Poder Estudantil por meio da violência telúrica. Em muitos, embora não na maioria dos casos, parecia haver razões suficientes para que os estudantes tentassem, por métodos radicais, chamar a atenção de amplos setores da opinião pública para seus problemas e obrigar muitas administrações letárgicas, arcaicas, imobilizadas pelo formalismo das tradições medievais, a reformar e atualizar as instituições do ensino superior. A explosão da população estudantil (em si mesma uma prova bem-vinda das possibilidades cada vez mais amplas do acesso à educação superior), produzindo a insuficiência das acomodações universitárias e do aparelhamento científico, criando classes absurdamente superlotadas, os regulamentos arbitrários e obsoletos do comportamento estudantil, currículo rígido e irrelevante, o burocratismo excessivo  que   dificulta o contato dos funcionários administrativos das universidades e frequentemente os próprios professores (sobretudo nas universidades europeias), figuraram entre as causas legítimas do protesto e da reivindicação violenta da geração universitária.

A exigência da reforma universitária no sentido de um igualitarismo, que, no caso, significa maior participação dos estudantes na direção dos institutos do ensino superior, traduz o impacto das condições morfológicas, mais especificamente demográficas. O crescimento do volume dos grupos sociais, segundo a verificação da sociologia (cf. C. Bouglé, Les idées égalitaires), está sendo regularmente acompanhado pelo surgir e o progresso da ideia da igualdade. A aglomeração de grande massa de população numa área limitada, como o campus universitário — construído em tempos passados, quando não na Idade Média ou na Idade Barroca e imobilizado durante a vida de multas gerações, como aconteceu na Europa — arrebenta as estruturas e as hierarquias estabelecidas, que se tornam de repente inadequadas para satisfazer as aspirações de todos e mesmo para cumprir sua própria tarefa. Gera-se, portanto, espontaneamente, a ideia de participação, com o intuito de ampliar e democratizar as estruturas, como garantia da realização e da esfera vital da enormemente crescida população universitária.

Mais do que o crescimento do volume, o crescimento da densidade, por ele engendrado, constitui-se em fator da transformação igualitária e democrática, pois, em área tão densamente habitada, como é hoje o campus universitário, é difícil manter a autoridade do chefe e da organização, outrora estruturada e capacitada para controlar e disciplinar, tranquilamente, poucos, que, por serem poucos, se conformaram com a ordem. Mais importante é, porém, a densidade dinâmica, ou seja, a multiplicação das relações sociais, verdadeira fábrica de ideias avançadas e revolucionárias. A densidade, por sua vez, envolve grande mobilidade material, pois este movimento, que apresenta a cada momento homens novos, faz desaparecer as distinções sociais e as distinções locais, que são as condições e os quadros da autoridade hierárquica estabelecida.

Este estado de efervescência revolucionária da juventude universitária, no fim da década de 60, tornou-a suscetível ao ceticismo quanto aos outros valores e instituições da sociedade que criou e mantém as universidades em sua atual forma. Daí a angústia muito enraizada desta juventude, desorientada e confundida por um mundo sacudido por mudanças rápidas e ameaçado pela guerra nuclear, vivendo sob o impacto de tensões internacionais muito complexas e de uma explosão populacional sem precedentes, mas também oferecendo à nova geração os desafios de descobertas científicas e amplas oportunidades de viagens e comunicações internacionais. Por outro lado, a maioria dos mestres académicos, dos sistemas políticos e dos governos proporciona a esta juventude uma liderança embaraçosamente inadequada, que a faz procurar saída no pessimismo, no cinismo, no radicalismo anárquico, nas drogas e em outras formas de excentricidade.

Todavia, além das leis da morfologia social, que, como uma fatalidade natural, provocam mudanças no psiquismo coletivo dos grupos, no caso dos universitários, também o tipo de educação que as últimas gerações proporcionaram a seus filhos é responsável pela revolta estudantil que explodiu no movimento de maio de 1968.

De fato, a extraordinária evolução recente e os impressionantes descobrimentos de duas novas ciências, a psicologia e a sociologia, fizeram que estas, fundamentalmente empíricas e positivas, se transformassem em filosofia, ou seja, em normas, consideradas indiscutíveis, intocáveis, verdadeiros tabus, que passaram a nortear também a educação. O psicologismo e o sociologismo têm sua parcela de responsabilidade na revolta dos jovens. Foi o psicologismo que tentou libertar a personalidade humana de qualquer controle que a autoridade e a disciplina pudessem impor, canalizando sua evolução mental e moral, ensinando que qualquer controle de autoridade exterior sobre a psique humana é prejudicial à sua integridade, ao pleno desabrochar da sua originalidade individual. O psicologismo, derivado da ciência dos grandes psicólogos, traz, como diria Gustavo Corção, uma contribuição final: é dentro do próprio psiquismo que lutam, em instâncias antagónicas, o Pai e o Filho.

ABISMO ENTRE GERAÇÕES. É o que determinou a criação de um abismo praticamente intransponível entre duas gerações e a revolta total da nova contra a que a precedeu. Outro elemento da cultura da antiga geração — que o considerou como um grande progresso — é o sociologismo, que, descobrindo as leis do psiquismo coletivo, tenta explicar não apenas o fato social dos fenómenos culturais, mas também seu próprio conteúdo moral, transformando verificações empíricas em filosofia e fatos em normas éticas. É a exaltação da praxis que dá livre curso aos acontecimentos, mesmo aos mais irracionais, aos mais violentos, aos mais destrutivos como se estes constituíssem suas próprias leis, independentes de qualquer autoridade normativa, política, religiosa e social. Eis aí a sociedade que se libertou de toda autoridade transcendental e declarou sua autonomia imanente. A juventude em revolta só tirou as últimas conclusões destas premissas. A ela não se impõe nenhuma autoridade, nem a tradicionalista monárquico-hereditária — pois ela rejeita a tradição, como alheia à sua experiência própria — nem a burocrático-racional — cuja rotina estabelecida é considerada ofensiva aos direitos de originalidade (sobretudo excêntrica) das personalidades —, nem a carismática — pois esta opera em nome de mitos que, como as crenças, são incompatíveis com o pragmatismo e agnosticismo dos valores palpáveis —, nem a democrático-legal, por ele eleita, pois traduz esta apenas a vontade de um segmento da população, que, mesmo quando majoritário, se não é fraudado, é manejado, suscetível de injunções estranhas de interesses particulares e espúrios.

NOJO DA ABASTANÇA. Acrescenta-se a tudo isto que a civilização ocidental, pelo menos sua parte superdesenvolvida, chegou a um ponto de saturação, uma verdadeira “situação de fronteira”, como a chamariam os existencialistas. Quando a Humanidade, nesta parte da Terra, pensou que tivesse eliminado o germe antigo do despotismo, seu espectro reaparece justamente na sociedade ocidental, a que mais se aproximou dos eternos ideais humanos, a liberdade e a prosperidade. O homem, por maldição antiga, é condenado a recomeçar sempre do zero.

Pela sua crise revolucionária, a juventude revelou sua desorientação, não sabendo o que fazer com o rico legado que estava prestes a herdar da geração anterior. Herdou a liberdade e herdou a prosperidade numa sociedade aberta, garantindo institucionalmente as condições de mobilidade social. Vive num mundo que, graças ao equilíbrio de terror nuclear, institucionalizou a paz, banindo as guerras gerais e tentando extinguir as locais. Liberdade não poderia ter mais, pois já pratica impunemente todas as espécies de libertinagem. Prosperidade não poderia ter mais, pois as possibilidades quase inesgotáveis do consumo são demais para ela, causando-lhe nojo. Um ponto de saturação, pois quer destruir, mas não sabe como destruir, nem o que colocar no lugar do destruído; não sabe o que desejar. Parece que o destino da Humanidade é estar sempre em caminho, en route. O Homem-Peregrino está sempre à procura de um porto, mas, alcançando-o, a felicidade da chegada e da consumação dura pouco: de repente, ele se aborrece, experimenta nojo e recomeça a viagem. No fundo, mais o satisfaz a luta por um objetivo que se propõe do que a sua posse tranquila.

A juventude da parte superdesenvolvida da civilização ocidental — Europa e Estados Unidos — já nasceu no porto que seus pais, terminando a longa viagem de muitas gerações, alcançaram. Por isso, aborrece-a, causando-lhe nojo, a tranquilidade do porto, a felicidade da chegada (ela não chegou), a falta de aventura e de luta. Pois desta juventude não se exigem sacrifícios; consequentemente, não tem ela objetivos coletivos (nacionais) pelos quais devesse lutar. Ilhas de pobreza não podem ser eliminadas nem pelas mais perfeitas organizações sociais, como também a criminalidade não tem causas exclusivamente sociais e económicas. A sua eliminação — uma tarefa que cada geração deve recomeçar — faz-se através de constantes reformas, lentas e progressivas, as quais, porém, não satisfazem à juventude, temperamental e etariamente impaciente. Suas inatas energias de luta e suas inclinações para a violência, inoculadas na natureza humana, continuam sem objetivo construtivo, não são disciplinadas e canalizadas pela arregimentação militar.

Assim, suas energias e suas inclinações se voltam contra a geração anterior; sua liberdade, ela a pratica na violência contra qualquer autoridade, contra qualquer controle social; sua prosperidade desperdiça-a, desprezando o que herdou e não querendo criar mais do que para ela já é muito. Suas energias e inclinações podem ser canalizadas para a destruição e disciplinadas pelas forças destrutivas. Podem ser suscitadas, alimentadas. Podem ser coordenadas.

Todavia, dentro do movimento estudantil mais amplo, de objetivos vagos e mal definidos, cristalizou-se um pequeno grupo, não muito organizado, porém conscientemente entregue à promoção de uma revolução ampla, numa atitude de dedicação guardando reminiscências do protótipo leninista do revolucionário profissional ou mais ainda do retrato do revolucionário completo da novela de Dostoievski, Os possessos. Este pequeno grupo é que constitui a força motriz da Nova Esquerda, que conseguiu arrastar consigo, por numerosas ocasiões, numa ação revolucionária, grandes massas de universitários que, antes e depois do seu envolvimento, expressaram dúvidas e apreensões quanto ao valor de tal ação. Mas foi a Nova Esquerda que organizou, sobretudo em 1968, a ocupação de universidades nos Estados Unidos e na Europa Ocidental; que promoveu marchas de protesto nas ruas das capitais europeias, arrancando paralelepípedos e levantando barreiras iguais às das revoluções de 1789,1830,1848, 1871 e que passou a promover lutas de guerrilha urbana contra a polícia, seguindo uma estratégia elaborada por um comando central, e que não se distinguiu da que estava sendo aplicada no Vietnã.

Marcharam sob a bandeira vermelha vietcong e queimaram a bandeira norte-americana, tudo isto sob a égide da bandeira vermelha, hasteada em Paris, no topo do Arco do Triunfo. Ora, aí também a nova geração apenas tirava as últimas conclusões da geração que a precedera.

Os membros da velha geração que chegaram ao porto querem apenas entregar-se à felicidade da chegada e à digestão de suas conquistas, numa atitude de apaziguamento em relação aos que as desafiam.

Mas os membros da nova geração — que marcharam pelas ruas de Paris, de Bonn, de Londres, de Roma ou de Berkeley, gritando “Che, Che, Che Guevara” ou “Ho, Ho, Ho Chi Minh”, para exprimir a revolta — adotaram a atitude dos que ainda estão a caminho, longe, muito longe do porto, que na realidade nem têm possibilidade real de atingi-lo.

A evolução de alguns movimentos estudantis provou que tais demonstrações, surgidas originariamente das exigências de reformas educacionais e administrativas, rapidamente ultrapassaram os objetivos legítimos e limitados do inconformismo dentro do campus, para se transformar em veículos de desígnios muito mais amplos, propriamente políticos. Em alguns casos, tornou-se evidente que o verdadeiro propósito da “linha dura” da Nova Esquerda — predecessora do bando Baader-Meinhoff e das Brigadas Vermelhas — é nada mais nada menos do que o total descrédito de toda a autoridade, pela erosão total da lei e da ordem.

TRINDADE REVOLUCIONÁRIA. A Nova Esquerda de então parecia ter adotado alguns heróis, entre os quais se destacam três: “Marx-Mao-Marcuse”. De Marx, cujas inclinações iniciais para o humanismo, transparentes em seus primeiros escritos, influenciaram sua inteligência, advém-lhes a admiração pelo socialismo, o qual, porém, segundo eles e outros adeptos modernos, a URSS distorceu e transformou numa caricatura do que Marx realmente pretendia. Em Mao pareciam admirar o revolucionário “puritano” que criou a “Guarda Vermelha”, a fim de destruir os elementos da sociedade chinesa que procuravam burocratizar a revolução. Neste sentido, pode-se afirmar que a Nova Esquerda tinha algum parentesco com a “Guarda Vermelha” da China, mas a analogia se torna inteiramente despropositada quando a aplicamos às dissensões e aos inconformismos estudantis e intelectuais verificados nos países europeus dominados pelo comunismo. Os novos esquerdistas entreviram não somente em Mao, mas também em Castro, Che Guevara e Régis Debray, “modelos” de revolucionários, apelando para as inclinações românticas da Nova Esquerda.

Herbert Marcuse foi considerado o filósofo da Nova Esquerda, muito embora a maioria de seus líderes e militantes não tenha lido suas obras. Sua tese fundamental é que a sociedade moderna se transformou em uma ditadura tecnológico-administrativa do industrialismo moderno que, como qualquer outro tipo de ditadura, controla a população, embora mais agradavelmente do que as outras, na medida em que proporciona prosperidade e conforto material. Mesmo assim, impede que suas vítimas desenvolvam talentos e qualidades, como indivíduos e personalidades únicas, realizando-se plenamente de forma tal que se tornem “homens uni-dimensionais” (segundo o título de um dos livros de Marcuse). Assim, o proletariado (que segundo Marx deveria ser o instrumento da revolução) foi subornado e desviado do seu impulso revolucionário, legado agora aos intelectuais (estudantes). A inclinação para a violência que a Nova Esquerda fomentou baseia-se, pelo menos parcialmente, na palavra de ordem de Marcuse, que prescreve a “intolerância para com os movimentos da Direita e tolerância para com os movimentos da Esquerda”. Desta palavra de ordem deriva a ideia de que o direito de resistência à nova ditadura pode ser estendido ao ponto da prática da subversão. Este trecho de seu ensaio, “Tolerância repressiva”, é particularmente instrutivo:

“Mas eu acredito que, para as minorias oprimidas e subjugadas, haja ‘direito natural’ de resistência, lançando mão de meios extralegais quando os meios legais se mostrem inadequados. Lei e ordem são sempre e por toda a parte a lei e a ordem que protegem a hierarquia estabelecida; é um contrassenso total invocar a absoluta autoridade desta lei e desta ordem contra aqueles que delas sofrem e contra elas lutam, não visando a vantagens pessoais ou à desforra, mas objetivando sua participação na humanidade.

A NOVA ESQUERDA. Quando se tenta estabelecer possíveis relações entre a Nova Esquerda (que se cristalizou nos dias que correm no movimento do euroterrorismo) e as capitais e os partidos do comunismo ortodoxo, necessita-se de grande dose de sofisticação, sutileza e capacidade de distinção. Pelo menos para efeitos públicos e externos, as relações de Moscou, dos partidos comunistas francês e italiano, com a Nova Esquerda, caracterizam-se pela ambivalência. Se de um lado depositários do comunismo ortodoxo e oficial podem julgar que os movimentos da Nova Esquerda e hoje do “euroterrorismo” são produtos de uma atmosfera revolucionária marxistizante e são capazes de criar, através da insegurança e do caos, condições favoráveis para o desencadeamento da revolução socialista, de outro lado receiam que tais grupos, com sua espontaneidade, violência terrorista e indisciplina, possam prejudicar o paciente trabalho metódico de penetração comunista visando à conquista do poder. Por ocasião da revolução de maio e junho na França, Moscou mostrou-se desorientada em sua tarefa exclusiva, refletindo-se fielmente seu embaraço na atitude hesitante do PC francês de estrita obediência à URSS. Enquanto os grupelhos marxistas, ultra-extremistas, inspirados em Mao e Trotsky, saudavam entusiasticamente a explosão da revolta estudantil, os comunistas ortodoxos, como declarou um líder estudantil, “tomavam o trem andando” (o trem da revolução) e “desceram do trem andando”, na conformidade de seus interesses políticos de poder. Nos momentos decisivos da crise, Moscou apoiou a estratégia do PCF, que tentou, com êxito não muito grande, resistir à tática da Nova Esquerda, na esperança de poder entrar num governo de coalizão esquerdista, no caso de uma vitória eleitoral.

Como dizíamos, a ambivalência das atitudes de Moscou diante da Nova Esquerda ficou bastante caracterizada durante a revolução estudantil na França. Pois, se de um lado a desmoralização da autoridade e das instituições democráticas do Ocidente vai ao encontro dos objetivos soviéticos (promovidos pela propaganda da KGB), a orientação da Nova Esquerda não se enquadra sempre e integralmente na linha do revolucionarismo científico em que a política mundial de Moscou prossegue, muito embora contribua para o clima revolucionário do qual justamente este revolucionarismo científico espera tirar maior proveito. A propaganda comunista visa a criar no mundo ocidental uma crise de confiança nas suas instituições e orientação democráticas, em casa e no mundo. Essa propaganda demonstrou suas intenções no mês de maio de 1968 na França e no Dia da Moratória em 1969 nos Estados Unidos. A agência Tass não escondeu seu jubilo: “Os protestos espalharam-se como fogo, para atingir milhões de pessoas em todos os setores da vida do país, porque a grande maioria da população está claramente fatigada com a aventura militar no Vietnã”.

O gáudio de Moscou foi compreensível, porque mesmo que não tivessem sido seus agentes que organizaram diretamente as manifestações, essas não apenas se enquadraram na linha de sua propaganda e estratégia, visando ao solapamento interno das democracias ocidentais, mas foram também, pelo menos parcialmente, frutos da sua propaganda direta e indireta que atingiu a alma dos mais sensíveis e daqueles que já se tornaram conscientemente cúmplices. Isso não quer dizer que Moscou queira submeter a sua ação ou permita embaraçá-la pelos contestadores ocidentais, que apenas negativamente promovem seus desígnios. Quando apareceu o perigo de que o partido e os sindicatos comunistas franceses fossem envolvidos pelos propósitos concretos do Poder Jovem da França, Moscou não hesitou nem por um minuto sequer em condenar em termos violentos o seu romantismo e anarquismo. A 30 de maio de 1968, o Pravda assim se manifestou “Os estudantes revolucionários franceses não passam de um bando de anarquistas, trotskistas e maoístas, enquanto as várias correntes filosóficas e anarquistas participantes do movimento estudantil ocidental são provocadas e favorecidas pelo imperialismo. Usando o nome de Marx blasfemicamente, esses lobos procuram descomunizar o marxismo, dividi-lo e colocar frente a frente as forças progressistas”.

A LINHA DURA DO TERROR. Dez anos passados após a Revolução Estudantil de maio de 1968, a absoluta maioria dos jovens revolucionários foi absorvida e integrada pelas sociedades abertas e democráticas do Ocidente. Só os representantes da “linha dura”, conscientizada e engajada, cristalizou-se nas diversas organizações do euroterrorismo, que, contando apenas com poucas centenas de militantes e com alguns milhares de cúmplices e simpatizantes, é capaz de disseminar a atmosfera de insegurança e medo que prevalece na Itália e na Alemanha. A auréola do idealismo social que tanto beneficiou a Nova Esquerda em 1968 e por causa do qual o terror por elas praticado é compreendido, quando não elogiado por intelectuais da esquerda   do tipo de Jean-Paul Sartre e Genet, por clérigos da teologia da libertação e da violência, pelos “cristãos pelo socialismo” —, facilita seu trabalho destrutivo. O comunismo oficial e ortodoxo, que publicamente condena o terror, dele se aproveita, senão o coordena na clandestinidade. Não importam as intenções imediatas e ainda não inteiramente esclarecidas dos terroristas — se eles querem provocar um novo totalitarismo nero para justificar a reação do totalitarismo vermelho ou impulsionar desde logo o ímpeto revolucionário do comunismo oficial e ortodoxo. A triste verdade é que o movimento do Poder Jovem, que se iniciou com a mística do romantismo e idealismo, acabou no terrorismo.

(Publicado no “Suplemento Especial” de O Estado de São Paulo, em 07/05/1978, p. 10-12)