segredo

O que é o gnosticismo? Surgido nos primeiros séculos da era cristã, marcado pela influência de várias religiões pagãs e revestido de filosofia grega, é uma heresia que recusava a explicação cristã sobre o papel do pecado nas imperfeições da realidade, atribuindo-as antes à criação de um demiurgo impotente, um deus inferior ou perverso, incapaz de uma obra bem realizada.

O acesso ao verdadeiro Deus não se dava, portanto, pelo sacrifício redentor de Cristo e pelo “conhecimento” obtido dentro dos limites da Revelação — pois há uma “gnose” autenticamente cristã, fruto do esforço mental humano e da Graça —, mas era concedido seletivamente a uma minoria iluminada e esotérica, capaz de criar o verdadeiro “conhecimento” unicamente pela via dos conceitos.

Essa mentalidade de extremo descontentamento com a ordem do real, indiferente à História, mais preocupada em libertar a alma da prisão do corpo, nunca desapareceu. A partir da Renascença, porém, começa a surgir um novo gnosticismo, antropocêntrico, voltado para esse mundo: mantendo a radical insatisfação com a realidade, já não está mais interessado em devolver a alma à sua fonte original, mas em reconstruir em bases puramente humanas o mundo defeituoso.

Para a mentalidade gnóstica, o mundo é essencialmente defeituoso e malévolo, necessitando de reconstrução estrutural: é o homem deificado realizando, com a revisão da moral cristã e os novos recursos da tecnologia, o que Deus não teria sido capaz de fazer, ou até, em suas formas mais radicais, negando a própria existência de Deus, como no marxismo.

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O romantismo foi um movimento artístico e cultural tipicamente gnóstico. Veja-se o que diz a respeito o crítico e poeta Octávio Paz, em seu livro Signos em Rotação:

“Não é necessário seguir os episódios da sinuosa e subterrânea marcha do movimento poético do século passado [Século XIX], oscilante sempre entre os dois polos da Revolução e Religião. Cada adesão termina em ruptura; cada conversão, em escândalo. Monnerot comparou a história da poesia moderna com a das seitas gnósticas e com os adeptos da religião oculta. Isto é verdade nos dois sentidos. É inegável a influência do gnosticismo e da filosofia hermética em poetas como Nerval, Ugo, Mallarmé, para não falar de poetas deste século: Yeats, George, Rilke, Breton. Por outro lado, cada poeta cria em torno de si pequenos círculos de iniciados, de modo que sem exagero pode-se falar de uma sociedade secreta da poesia. A influência desses grupos tem sido imensa e logrou transformar a sensibilidade de nossa época. Desse ponto de vista não é falso afirmar que a poesia moderna encarnou-se na história, não à plena luz, mas como um mistério noturno e um rito clandestino. Uma atmosfera de conspiração e de cerimônia subterrânea rodeia o culto da poesia” (Octávio Paz, Signos em Rotação. São Paulo, Perspectiva, 1996, p. 84).