evelyn

[No dia 20 de outubro de 1930, um mês depois de sua conversão, o escritor inglês Evelyn Waugh era convidado a publicar no jornal Daily Express um artigo de página inteira explicando as suas razões e contestar as fofocas que já circulavam. Como o “ultramodernista” se tornou um “ultramontanista”? Como poderia a sutileza chocante, que gerou romances como Declínio e queda e Corpos vis, cair na ortodoxia rígida e imbecilizante da Igreja Católica? No começo do artigo, Waugh descartava três afirmações feitas por seus inimigos: 1) Que teria caído na armadilha dos jesuítas; 2) Tudo não passaria de pura atração pelo ritual católico; e 3) Abriria mão de tomar as próprias decisões. Depois de responder a esses tópicos, fazia as reflexões que se seguem.]

Eu acho que é preciso olhar mais fundo, antes de procurar a razão pela qual na Inglaterra, hoje em dia, a Igreja Romana está recrutando tantos homens e mulheres que não podem ser chamados de ingênuos, idiotas ou excêntricos.

Parece-me que, na atual fase da história europeia, a questão essencial não está mais entre o catolicismo, por um lado, e o protestantismo por outro, mas entre o cristianismo e o caos…

Hoje, podemos ver [a perda da fé cristã] como a negação ativa de tudo o que a cultura ocidental significou. A civilização — e com isso não me refiro a cinema falado ou alimentos enlatados, nem mesmo a técnicas cirúrgicas ou casas mais higiênicas, mas a toda a organização moral e artística da Europa — não tem em si mesma o poder de sobrevivência. Ela surgiu através do cristianismo, e sem ele não tem razão de ser e nem poder para exigir lealdade. A perda da fé no cristianismo, e a consequente falta de confiança nas normas morais e sociais, tomou corpo no ideal de um estado materialista e mecanizado. Não é mais possível, como na época de Gibbon, aceitar os benefícios da civilização e, ao mesmo tempo, negar a base sobrenatural sobre a qual repousa.

Essa é a primeira descoberta: o cristianismo é essencial para a civilização; e ele precisa, hoje, de mais força combativa do que há séculos.

A segunda descoberta é que o cristianismo existe, em sua forma mais completa e vital, somente na Igreja Católica Romana. Não quero ser inconveniente com muitos anglicanos e protestantes piedosos, que estão levando uma vida de grande devoção e benevolência; acho, no entanto, que tais  grupos religiosos, por melhor que seja o exemplo dado por certos membros, mostram sinais inconfundíveis de que não estão aptos para o conflito em que o cristianismo está envolvido. Por exemplo, parece-me um sinal necessário de completude e vitalidade, em qualquer grupo religioso, que seu ensinamento seja coerente e consistente. Se sua própria mente não estiver ordenada, dificilmente vai suportar as desordens externas.

Outro índice essencial que se procura é organização e disciplina. A obediência aos superiores, e o hábito de submeter idiossincrasias pessoais às exigências do ofício, parecem ser sinais seguros de um verdadeiro sacerdócio. Parece-me, sobretudo, que qualquer grupo religioso que não seja universal por natureza, não poderia dizer que representa o cristianismo em sua totalidade.

Ninguém, ao visitar um país católico romano, pode deixar de se impressionar com o fato de as pessoas realmente usarem as suas igrejas. Não é só uma questão de ir a cultos no domingo; todas as classes sociais, a qualquer hora do dia, podem ser vistas entrando e saindo dos templos.

A atitude protestante parece-me ser, muitas vezes, a seguinte: “Eu sou bom; por isso, vou à igreja”, enquanto que a atitude católica é: “Estou muito longe de ser bom; por isso vou à igreja.”

https://aleteia.org/2016/08/22/christianity-or-chaos-the-life-changing-choice-of-evelyn-waugh/