Goya

(…) Marx reescreveu dois de seus poemas e terminou por publicá-los em 1841. Num deles aparece um violinista louco, com um roupão branco e um sabre:

“— Por que ele toca tão desenfreadamente?”, pergunta o poeta.
“Por que ele faz o sangue ferver?
Por que ele despedaça seu arco?
Pergunta o espírito, em resposta:
— Por que bramem as ondas?
Para que elas, com um estrondo, se quebrem no rochedo;
Para que a alma se quebre no chão do Inferno.
— Mas, ó músico, com zombaria tu despedaças teu próprio coração!
Essa arte que te foi concedida por um grande deus,
Tu deverias usá-la para aumentar a música das esferas.
— Não, responde a aparição, com este sabre enegrecido de sangue
Perfuro a alma.
Deus nem conhece nem honra a Arte;
Ela se eleva dos vapores do Inferno;
Ela enlouquece o cérebro e altera o coração.
É o Demónio que marca o tempo para mim,
E é a Marcha da Morte a música que tenho de tocar.”

Durante toda a vida de Karl Marx, a figura de Lúcifer estaria por trás de Prometeu: o lado reverso e malévolo do rebelde benfeitor do homem. Num poema satírico de Engels e Edgar Bauer, escrito mais ou menos nessa época, Marx é  caracterizado como o “sujeito negro de Trier”, um monstro selvagem e musculoso, que ataca suas presas não rastejando até elas, e sim saltando sobre elas; que estica os braços em direção aos céus como se quisesse derrubar esse dossel, que cerra o punho e urra como se mil demónios o agarrassem pelos cabelos.

Já velho, na intimidade Marx seria conhecido como “Old Nick” (“Satanás”). Seu filho quando pequeno o chamava de “diabo”. É bem verdade que o demónio, tanto quanto o rebelde, era uma das máscaras convencionais do romântico; mas há algo mais que um desafio romântico nessa identificação com o demónio.

(…) Numa outra balada, um herói prometeico amaldiçoa um deus que lhe roubou tudo que tinha; porém ele jura que há der se vingar, embora sua força tenha sido reduzido a um feixe de fraquezas; com sua dor e seu horror construirá um forte, um frio forte de ferro, que encherá de terror aquele que o contemplar, e no qual os relâmpagos ricochetearão. Prometeu virá a ser o mito predileto de Marx: a epígrafe de sua tese de doutorado será a fala de Prometeu a Zeus em Ésquilo: “Saiba tu que jamais quereria eu trocar meu infortúnio pela condição de servo teu. Pois melhor me parece estar acorrentado a este rochedo do que passar toda a vida como fiel mensageiro do pai Zeus”.

Quando o jornal que ele virá a publicar for proibido pelas autoridades, uma caricatura da época representará Marx acorrentado a sua prensa, enquanto a águia prussiana devora-lhe as entranhas.

(Em: Edmund Wilson. Rumo à Estação Finlândia. Trad. de Paulo Henrique Brito. São Paulo, Cia. das Letras, 1986, p. 112-116)