baile funk

Como está, hoje, a canção brasileira? De que falam as letras? O que restou daquela fase áurea da MPB, em que letristas talentosos colaboravam, muitas vezes, com músicos de boa formação técnica, criadores de melodias inspiradas? O saldo é lamentável. Tecnicamente, o espírito do rock empobreceu a formação musical dos compositores populares; e pobreza não menor (para não dizer indigência absoluta) é a das letras de música.

Indigência, consciente ou inconscientemente, a serviço de uma remodelação moral da população, mais profunda do que a que sonhavam os letristas politizados dos anos sessenta ou setenta; agora, os temas se restringem ao corpo humano, e da cintura para baixo, expressos muitas vezes no vocabulário proveniente da gíria criada no submundo da droga e do crime, em uma combinação de deixar perplexo o próprio diabo (que não esperava um sucesso tão rápido do seu projeto de perdição). Entre os novos gêneros, encontram-se coisas como o rap, em geral com conotação político-revolucionária mais explícita; o chamado “sertanejo” (que nada tem a ver com o que essa palavra designava há algumas décadas) e o funk, em que a ruptura proposta atinge todos os valores morais até então prezados.

Bastam poucos minutos sintonizados em alguma FM, para perceber a que nível mental e espiritual pode descer a espécie humana, sendo impossível não recordar benevolamente dos letristas do passado, mesmo os mais comprometidos ideologicamente.

De fato, diante do que se apresenta no momento, até aqueles esquerdistas dos anos 60 e 70 (Chico Buarque e Cia.), com seus lugares-comuns repetidos ad nauseam — defesa nem sempre sincera do pobre, da mulher, dos “excluídos” em geral e dos valores hedonistas — ainda estavam de certa maneira girando na órbita da boa literatura; liam um Carlos Drummond, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa.

Nos ginásios de sua época, foram até obrigados a estudar alguns clássicos. É certo que seus “poemas” já eram literatura inferior, destinada ao consumo fácil do show business, mas ainda ecoava, nas letras que faziam, um pouco dos bons poemas que tinham digerido em sua formação escolar. Um “pouco” que foi suficiente, no entanto, para transformá-los em poetas respeitados, com direito a entrar em manuais escolares e ser objeto de investigações acadêmicas. São os novos “clássicos” para os novos tempos, guardadas as devidas proporções.

O triste é que, por sua agressiva postura política, alguns desses talentosos subliteratos da MPB de ontem de algum modo se transformaram em precursores da violência verbal dos letristas quase analfabetos de hoje, para os quais Drummond ou Bandeira, para não falar de um Dante e um Camões, são tão inacessíveis quanto a face de Deus.

A queda livre na qualidade poética das letras seria inevitável. Não se poderia esperar uma aliança mais perniciosa: o pauperismo estético unido à mais atrevida indecência, a sofisticada tecnologia de produção e de informação  (com a qual jamais sonhariam os letristas de ontem) a serviço do lixo cultural e moral.

Seus criadores, geralmente provindos das classes sociais mais pobres, são produtos indiretos da mentalidade contra-e-multicultural das últimas décadas: formaram-se “culturalmente” vendo a pior tevê aberta e estudaram em escolas públicas da mais baixa qualidade. São produtos e ao mesmo tempo produtores da presente decadência moral; e, cientes ou não, estão a serviço do novo homem sem pátria desejado tanto pelo capitalismo globalista como pela nova esquerda.

Só visam lucro; escrevem letras com endereço certo: uma vasta e indistinta camada da população, das classe sociais mais baixas (mas não somente), que recebe sem muito susto aquelas mensagens de humor grosseiro, de inclassificável mau gosto. Para o público sexualmente liberado, “desrreprimido”, as canções de hoje não visam mais o galanteio e o início do namoro: são preparação pura e simples para o coito.