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É sempre perigoso fazer paralelismos históricos muito estritos entre um período e outro; os mais enganosos de tais paralelismos são aqueles feitos entre a Europa e América do Norte atual e o Império Romano no período de sua decadência, quando já caminhava em direção à Idade das Trevas.

No entanto, existem certas semelhanças. Houve uma viravolta crucial na antiguidade, quando homens e mulheres de boa vontade abandonaram a tarefa de defender o império, deixando de associar a permanência da comunidade civil e moral com a manutenção desse império.

Em vez disso, começaram a construir novas formas de comunidade (muitas vezes sem perceber completamente o que estavam fazendo), dentro das quais a vida moral poderia continuar, de modo que a moralidade e a civilidade sobrevivessem aos tempos de barbárie e obscuridade que se avizinhavam.

Se minha visão do estado atual da moral está correta, também devemos concluir que chegamos a uma situação crítica semelhante.

O que importa, em nossa época, é a construção de formas locais de comunidade, nas quais a civilidade, a vida moral e a vida intelectual possam sustentar-se enquanto durar essa nova idade das trevas que já se abateu sobre nós. Se a tradição das virtudes foi capaz de sobreviver aos horrores da idade das trevas no passado, não devemos ficar totalmente sem esperança.

O problema é que, em nossa época, os bárbaros já não aguardam do outro lado da fronteira, mas já estão entre nós, governando-nos há algum tempo. E nossa falta de consciência a respeito disso constitui parte importante de nossa difícil situação.

Não estamos esperando Godot. Esperamos alguém muito diferente: um novo São Bento.

(Em: Alasdair MacIntyre. Tras la virtud. Barcelona, Diagonal, 2004)