padre-pio e padre rerobert

É normal atribuir certos atos a quem está acostumado a executá-los. Por que deveríamos nos surpreender, então, com tantas profecias atribuídas ao Padre Pio circulando pela Internet e outros lugares, as quais, segundo os critérios usuais da verossimilhança, não teriam nenhum fundamento?

De um ponto de vista histórico e estritamente material, padre Pio nunca pôs os pés na França. Aliás, nunca deixou sua região, o sul da Itália, exceto para acompanhar sua irmã Graziella a Roma, quando ela se juntou às brigidinas [Ordem de Santa Brígida].

Do ponto de vista sobrenatural, a coisa já é bem diferente. Sabemos sobre as espetaculares bilocações do Padre Pio, certamente mais numerosas do que as normalmente mencionadas. Na maior parte delas, padre Pio era enviado por Deus para ajudar almas em perigo; noutras, atendia espontaneamente a um apelo urgente de socorro, deslocando-se para junto de pessoas em perigo. Ou passeava, voluntariamente, por lugares de peregrinação nos quais normalmente  não poderia estar, como no caso de Lourdes, a cidade mariana para onde se transportava muitas vezes, quando queria rezar diante da gruta das aparições.

Há outra “passagem” do santo pela França, bem atestada pelos seus beneficiários, que a tornaram pública em 1958. Em 29 de janeiro de 1957, em Alençon, o pequeno Daniel Batonnier, um menino de seis anos, foi diagnosticado com meningite cefalorraquidiana e seu estado de saúde era considerado sem esperança. A conselho dos vizinhos, um telegrama foi enviado ao padre Pio, em San Giovanni Rotondo, pedindo “orações por uma criança que morria”.

O telegrama foi enviado às 13 horas e 30 minutos daquele dia. Às 15 horas, Daniel, cuja febre já tinha subido a 41 graus, estava nas últimas. Às 16 horas, de repente, sem uma explicação médica, a febre caiu e a criança foi salva.

No dia seguinte, notando um santinho do Padre Pio que sua mãe tinha comprado e posto na cama, o menino disse com um sorriso: “Mamãe, eu conheço esse padre. Ele veio me ver duas vezes, hoje cedo. E cantava de mansinho pra eu não me assustar. Depois ele saiu pela porta, como você faz.”

Tudo isso para grande espanto da Sra. Batonnier, que não era católica  praticante, nada sabia sobre bilocações ou o Padre Pio. O milagre foi revelado pelo Padre Onfroy, em sua revista Nossa Senhora dos Novos Tempos, na edição de março a abril de 1958.

Além da súbita e inexplicável cura da criança, que era de fato um milagre e levou seus pais ao casamento religioso, vale a pena ressaltar um pequeno detalhe, ligado a uma das grandes amizades francesas do Padre Pio: o milagre ocorreu em Alençon, cidade natal de Terezinha do Menino Jesus, a quem ele amava com ternura. Vários anos antes da beatificação da carmelita, a uma visitante que lhe pediu para abençoar uma das muitas imagens divulgadas pelo Carmelo de Lisieux, Padre Pio teria respondido: “Eu não posso abençoá-la, Senhora, porque a Igreja ainda não se pronunciou, mas a senhora está certa em rezar para esta freira: ela é uma grande santa.” Várias pessoas declararam, sob juramento de fé, terem visto e reconhecido Padre Pio em Roma, na Praça de São Pedro, no dia da canonização de Santa Teresa de Lisieux. Ele não podia perder o evento…

A fama do Padre Pio logo se espalhou pela França. Se, obedecendo às ordens de seus superiores, os capuchinhos italianos mantinham silêncio sobre o estigmatizado, seus colegas franceses falaram muito dele em suas publicações, desde o início dos anos vinte, contribuindo ativamente para torná-lo conhecido no exterior.

Não se pode esquecer que, desde os anos cinquenta, contava-se entre os grandes apoiadores e filhos espirituais de Padre Pio um jovem padre francês, o abade Derobert, que sem rancor pelo tapa magistral que recebeu do Padre (punindo-o por duvidar da presença de seu anjo da guarda), se transformaria pelo resto de sua vida num de seus mais ardentes defensores. Seu testemunho, em vídeo e texto, constitui um documento de primeira linha sobre a espiritualidade e a vida do santo.

https://www.hommenouveau.fr/2642/religion/padre-pio-et-la-france—une-histoire-de-foi.htm