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[O austríaco Hermann Broch, um dos maiores romancistas do século XX, foi um judeu convertido ao catolicismo. Até 1981, quando esse artigo foi publicado, ainda não havia nada do escritor traduzido ao português do Brasil. Hoje, há algumas. Nogueira Moutinho, também católico, foi crítico literário do jornal Folha de São Paulo por vinte e cinco anos, entre 1961 e 1986, quando o jornal paulista ainda não implicava com o cristianismo.]

Insensivelmente somos levados a esquecer a contribuição da Áustria à literatura alemã, comportando-nos como se a comunidade idiomática fosse suficientemente forte para elidir as fronteiras. Todavia, alguns dos grandes nomes incorporados neste século à poesia e à prosa da lingua de Goethe pertencem a austríacos: Rilke, nascido em 1875, Kafka, em 1883, Robert Musil, em 1880, sob os Habsburgos, foram súditos do Império Austro-Húngaro, esfacelado após a primeira Grande Guerra, embora nos tenhamos habituado a lê-los como escritores alemães.

Idêntico é o caso de Hermann Broch. Nascido em Viena a 1º de novembro de 1886, morreu há trinta anos, no dia 31 de maio de 1951, nos Estados Unidos, onde se refugiara da monstruosa perseguição antissemita desencadeada por Adolf Hitler. E esse extraordinário romancista, ainda pouco conhecido e menos ainda lido no Brasil, onde, de resto, nunca foi traduzido, que relembramos neste trigésimo aniversário de seu desaparecimento. Filho de uma família da alta burguesia judaica, Broch, na juventude, assistiu como técnico na indústria têxtil paterna, e foi só depois dos quarenta anos que se encaminhou à literatura. Por isso Hannah Arendt no extraordinário ensaio sobre sua obra começa chamando-o de escritor contra a vontade, conflito psicológico que lhe marcará toda a carreira e que ele dolorosamente resolve na última e maior de suas obras, A Morte de Virgílio. Mas até essa conciliação, uma longa travessia humana e estética singulariza a existência de Hermann Broch. Ao publicar, por volta de 1930, seu primeiro romance, a trilogia que enfeixa

o ciclo dos “Sonâmbulos”, essa estreia não despertou interesse nem mesmo entre os requintados apreciadores de narrativas que pintavam a desintegração da sociedade europeia. Colocava-se, entretanto, já com esse livro, na linhagem de Proust e Joyce.de Thomas Mann e de Kafka, dos grandes inovadores, dos quais, porém, se distingue, pela ótica individualíssima no enfoque dos problemas e na solução deles. Para  explicar tal  desvio os críticos geralmente aludem à sua naturalidade vienense, à ascendência judaica, à profissão de industrial que exerceu, seu real Interesse pelas ciências, não só a psicologia social, como a Física e a Matemática, às quais muito devem, sem dúvida, sua acurada tendência à abstração e o rigor lógico de seus raciocínios. Desde esse romance inicial Broch reflete sobre a solidão do homem moderno e a analisa com glacial lucidez, mas ao contrário de outros grandes escritores do século, não se detém na angústia nascida dessa derelicção cósmica: Mais do que a dissecação do cadáver interessa-lhe o destino da alma, e é tal preocupação que o levará, ao longo de toda a sua obra, não muito extensa, a buscar incessantemente a saída que leve à solução do problema existencial.

O fato inegável é que há em Broch um criador profundamente religioso, uma “anima naturaliter Christiana” [“alma naturalmente cristã”], para repetir a clássica fórmula de Tertuliano. Condena a desagregação do mundo moderno, não propondo alguma ideologia utópica que possa salvar o homem contemporâneo, mas, antes, lamentando o desmoronamento da sociedade medieval hierarquizada. “A Idade Média, afirma, possuía o culto do valor Ideal do qual tudo depende, cultuava um valor supremo a que todos os outros valores se achavam submetidos: a crença no Deus cristão. A cosmogonia mesmo dependia desse valor central, assim como o próprio homem, cujo existir representava uma parte da ordem universal, que não era mais que o reflexo da hierarquia eclesiástica, reflexo perfeito e finito da harmonia eterna e infinita.”

Ao exaltar esse universo harmónico e teocêntrico, Broch não só condena a civilização atual, como também a Renascença, a Reforma, o Romantismo. A atomização do sistema orgânico da Idade da Fé determina um processo desagregador, que ao cabo de cinco séculos ainda não chegou ao fim. Por isso o mundo em que vivemos, hostil ao Espírito e dele privado, geme submetido ferreamente â “lógica irracional da ação”. O assombroso é que tais digressões não constituem ensaios metafísicos independentes, mas se inserem na tessitura mesmo de seus romances, conferindo-lhes profético, estranho cunho de originalidade.

Em 1935 o escritor experimentará na própria carne a absurda civilização dos esquartejadores. ao ser internado numa prisão nazista, da qual consegue ser libertado ao fim de cinco meses, graças somente a um movimento internacional de escritores, do qual participa o próprio Joyce. E assim é que, em 1940, emigra aos Estados Unidos, onde encontrará uma situação digna na Universidade de Princeton, que o abriga até a morte em 1951. Mas é na masmorra que, como Boécio na aurora da Idade Média, Broch começa a escrever o maior de seus livros, texto em que trabalhará ao longo de todo um decénio: A Morte de Virgílio. Para os que não lemos o alemão há o recurso às traduções inglesa e francesa traduções inglesa e francesa, mas cada uma delas ostenta qualidades que a outra não oferece: a versão francesa valoriza o aspecto intelectual da narrativa, a clareza e a exatidão do pensamento; a inglesa torna mais sensível o caudaloso fluxo do monólogo interior, ininterrupto ao fio de quinhentas páginas. A observação é de Maurice Blanchot, e dá bem a medida da grandeza selada desse misterioso poema em prosa, monólogo derradeiro de um homem que está às portas da morte. Sucede que esse homem é o Pai do Ocidente, é Virgílio, vulto que tem alguma coisa de mítico e que a Idade Média venerou como um dos profetas do Messias. Broch descreve as últimas dezoito horas do poeta, cuja mente se encontra já mergulhada nas sombras, mas que, possuído pela lucidez da febre, medita sobre sua própria obra e acaba por legitimá-la como conhecimento da morte.

E um só poema, composto do começo ao fim como obra musical, quarteto cujas instâncias levam aos limites derradeiros o motivo central, descendo, camada a camada, os níveis de consciência do agonizante. Lírica e épica, obscura e inteligível,  trágica e auroral, lúcida e trevosa, A Morte de Virgílio é uma obra absolutamente moderna, mas ao mesmo tempo desfere uma das grandes elegias que se conhecem sobre o destino do homem. E, para repetir uma vez mais Maurice Blanchot, suas páginas não retratam somente uma dolorosa experiência pessoal, delineiam um mito, prodigioso hausto que busca representar simbolicamente o saber e o destino de toda a civilização ocidental.

(Em Folha de São Paulo, Caderno “Ilustrada”, 31/05/1981)