Escrivá2

[Pippo Corigliano é jornalista italiano e por mais de quarenta anos foi diretor do gabinete de imprensa do Opus Dei, na Itália. Conviveu com São Josemaría de 1961 a 1975.]

Nem todo mundo tem a graça de conhecer um santo em vida, e menos ainda pode dizer que foi seu amigo. Foi exatamente o que aconteceu com Pippo Corigliano. E pode-se dizer que a profunda amizade com São Josemaria Escrivá literalmente virou sua vida de cabeça para baixo. “Eu vivia sonhando com um automóvel MG verde, com uma bolsa de tênis nas costas, e uma loira qualquer ao meu lado.” E ele de repente se viu viajando pelo mundo para testemunhar a todos o amor de Cristo e a beleza da vida cristã. Em resumo, como seu amigo Indro Montanelli dizia, tornou-se uma espécie de “místico da gravata bem escolhida”. As razões para esta revolução de vida são muitas e o engenheiro napolitano, que durante mais de quarenta anos foi o porta-voz do Opus Dei, condensou-as no livro O Caminho de São Josemaria, sua última obra literária para a editora Mondadori. O livro, no entanto, não fala só da santidade de Josemaría Escrivá, mas, principalmente, do caminho pessoal que Corigliano, depois daquele encontro, percorreu nos rastos de Jesus. Uma viagem de amor, de fé, de esperança e de uma irresistível felicidade. De tal modo que, no final da leitura, se compreende que o santo da Obra era realmente um santo, ou seja, alguém que contagiava a todos que com lidava, fazendo-os enamorar-se de Deus (e depois, em certo sentido, saindo de cena). Exatamente no estilo de Nossa Senhora, que tudo faz só para conduzir cada homem aos braços de Seu Filho Divino. (Costanza Signorelli)

Costanza Signorelli: Considerando seu espírito napolitano, eu gostaria de começar daqui: São Josemaria Escrivá realmente era sempre tão alegre e de bom humor, como o descreve?

Pippo Corigliano: Quando conheci São Josemaria, percebi nele imediatamente uma alegria exuberante. No final das reuniões, a gente se via com lágrimas nos olhos e não sabia se eram lágrimas de emoção pela evidente fé do santo, ou devido às grandes risadas que ele nos fazia dar. Ele era realmente espirituoso, imprevisível e, ao mesmo tempo, afetuoso.

CS: Tudo bem. Mas por que tanto bom humor? De onde vinha isso?

PC: Alegria e perfume são características do Espírito Santo, enquanto tristeza e mau cheiro, para não mencionar a fetidez, são coisas do diabo. Você está triste? Sente falta da alegria? Então procure, depressa, ver se existe algum obstáculo entre você e Deus, e aí vai compreender o que está acontecendo. De fato, se você se voltar sinceramente para Ele, verá que a tristeza desaparece. A atitude própria do cristão é estar em paz e serenidade; somos como crianças pequenas que devem confiar completamente no Pai. Com São Josemaria, aprendi a me dirigir a Deus como uma criança faz com o pai. Ele sempre repetia: “Seja pequeno, muito pequeno. Com não mais de dois anos, três no máximo…”.

S: Pode dar um exemplo concreto?

PC: Escrivá teve que passar por muitas contrariedades: não apenas calúnias, mas também verdadeiros mal-entendidos por parte das autoridades eclesiásticas, que nem sempre o aceitavam e compreendiam. Bem, com muita humildade, paciência e submissão, ele sempre permaneceu sereno e alegre. Ele estava realmente em paz e, com seu exemplo, ele nos ensinou a amar a Igreja e o Papa, sempre, em todas as circunstâncias.

CS: Um apelido que lhe deram era a de «místico da gravata bem escolhida». Na verdade, não é só uma piada: a expressão traduz um preciso pensamento de Escrivá. Poderia explicar?

PC: Lembro-me de que a primeira característica que me impressionou naqueles jovens do Opus Dei, que conheci, foi o compromisso. Um compromisso não ostensivo, mas real: o que precisava ser feito, era feito. Com alegria sim, mas também com seriedade. No n° 1 do Caminho, de São Josemaria, lemos: “Que sua vida não seja estéril …”; e daí a brilhante intuição de uma santificação que passa pelo próprio trabalho cotidiano. Depois compreendi, verificando, ao longo do tempo, que aqueles que decidem aderir plenamente à sua vocação cristã correm esse perigo: reduzir tudo ao fazer. A moral, o apostolado, o compromisso com o trabalho são aspectos fundamentais, mas só fazem sentido quando se vinculam a uma escolha de fé, e a fé exige um salto no escuro. Um salto razoável e preciso, mas sempre no escuro: quem guia a barca é Jesus.

CS: Também para Escrivá era assim?

PC: Foi com ele que compreendi isto. Quando conheci São Josemaria, percebi imediatamente que a sua era uma vida intensamente comprometida, mas, ao mesmo tempo, ele tinha a atitude de quem se entrega completamente à Providência. Ele mesmo disse que, para criar o Opus Dei, foi guiado pelo Senhor: dê este passo aqui, faça aquilo ali. Sua vida não seguia um projeto próprio, mas se desenvolvia de acordo com o que o Espírito Santo lhe sugeria.

CS: A esse respeito, você cita uma frase de Escrivà referente aos jovens: «Se não se tornam homens de oração, perdem seu tempo». O que era, para Escrivá, a oração?

PC: Antes de tudo, rezar para ele significava aprender a ter um relacionamento direto e sincero com Deus, mas também significava dedicar, todos os dias, a uma parte importante do tempo a Ele. Neste sentido, São Josemaria foi para nós um excelente treinador de oração, sabendo que o que importa não é tanto o esforço humano, mas o próprio auxílio de Deus. Há uma frase que exprime bem o que era oração para Escrivá: “Ficar diante do Tabernáculo é como estar diante do sol: mesmo se a pessoa se distrai, sai bronzeado”. Dizia também: “Quando você se sentir como um cachorrinho aos pés da cruz, sem um único bom pensamento, fique parado e faça companhia a Jesus. Ele ficará feliz”. Isso significa que a oração não deve ser avaliada apenas quanto à satisfação interior, mas como oferecimento a Deus e à Sua graça. Quando conheci Josemaría, fiquei impressionado com o seu contínuo relacionamento com Deus: com os anjos, com São José, com Maria, com Jesus, com o Espírito Santo, e assim por diante, dia e noite. Ora, esse relacionamento foi gerado precisamente na oração e nos sacramentos.

CS: A primeira coisa de que fala no livro é sobre amor: Escrivá era um “homem enamorado”. O senhor mesmo disse que, quando o conheceu, se sentiu como que afetado pelo amor…

PC: Quando o conheci, ele tinha 59 anos, e me senti imediatamente marcado pela sua afeição. Essa foi minha primeira convulsão interior: pensei que ser cristão significava aderir a um sistema de pensamento, mas me enganava. Aprendi, com ele, que um cristão é alguém que sabe querer bem. Ele sempre repetia que Jesus havia dado um distintivo aos seus seguidores: ” “Nisso todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (João 13, 35). Por isso, ele dizia que os cristãos não se reconhecem por serem sóbrios, educados, castos, cultos, mas pela maneira como se querem bem, uma vez que amam como Jesus nos ama. É claro que a doutrina, o catecismo, a teologia são necessários, mas são um auxílio para mais amar, e amar melhor. E São Josemaria era o primeiro a dar o exemplo: ele via almas por toda parte, pessoas a quem amar. Dedicava-se a cada pessoa como se não tivesse mais nada a fazer, contagiando a todos com um carinho surpreendente e fascinante. Era impossível ter um relacionamento formal com ele, pois ele rompia com todos os padrões e ia direto ao coração. Via-se bem como o coração dele andava enamorado…

CS: Via-se o quê?

PC: O amor não pode ser descrito, mas havia sinais. Por exemplo, ele nos ensinava a rezar frequentemente com canções de amor, aquelas explicitamente relacionadas a Deus, mas também as não religiosas.

CS: A certa altura, o senhor diz: “Todos percebíamos que ele era um santo”. Por quê?

PC: Por seu entusiasmo e familiaridade com Deus. Falava de Jesus, de Maria, dos santos como se os conhecesse pessoalmente. Ele nos ensinou a tratar Deus como um pai, e nos fez descobrir realmente o significado desse “Abba” de Jesus no Getsêmani. Através do relacionamento com ele, também nós descobrimos a paternidade de Deus; e, de fato, em seu túmulo está escrito: “O pai”, como gostávamos de chamá-lo.

CS: Uma última pergunta. Ao lado de cada santo, sempre está Maria. E Escrivá, nisso, não é exceção. Como foi seu relacionamento com a Mãe de Deus?

PC: Uma frase resume tudo: “A Jesus se vai — e se “retorna” — sempre por Maria”.

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