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O peruano Alberto Chong, economista do BID  (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e a italiana Eliana La Ferrara, pesquisadora da Universidade Bocconi de Milão, fizeram duas pesquisas entre 2008 e 2009, a serviço do Departamento de Pesquisa do mesmo BID, sobre a influência da Rede Globo na população brasileira.

O primeiro trabalho, “Telenovelas e fertilidade: evidências brasileiras” (“Soap Operas and Fertility: Evidence from Brazil”, com a colaboração de Suzanne Duryea, também do BID), procurava conhecer os efeitos das onipresentes telenovelas — vistas no Brasil por todas as classes sociais — “na fertilidade das mulheres”; em palavras mais simples, sobre o encolhimento da família brasileira. Ficou bem claro, aos pesquisadores, que o momento da chegada do sinal da Globo marcava, naquele lugar, o início do declínio demográfico.

No segundo trabalho, “Televisão e divórcio: evidências nas telenovelas brasileiras” (“Television and divorce: evidence from brazilian novelas”), os autores mostravam como o contato com o estilo de vida moderno, propiciado sobretudo pelas telenovelas (mulheres emancipadas em ação, crítica aos valores tradicionais), fizeram aumentar o número de mulheres separadas e divorciadas no Brasil. O período coberto pelas pesquisas ia das décadas de 70 a 90, em que a Globo monopolizava a produção de novelas no Brasil.

Enfim, onde quer que a janelinha da Globo fosse aberta nas salas e quartos do Brasil, aumentava o número de mulheres separadas ou divorciadas, enquanto diminuía o nascimento de crianças, as quais, significativamente, eram nomeadas segundo os personagens mais importantes das telenovelas, revelando o quanto essas interferiam nas escolhas individuais dos brasileiros. Os pesquisadores insistem que essas influências não provêm genericamente da simples presença da televisão nas áreas estudadas, mas das realidades particulares retratadas pelas telenovelas.

Considerando a situação do Brasil, em especial as regiões mais pobres, com o baixo índice de alfabetização, pesquisa enfatiza o “papel crucial” desempenhado pela televisão, particularmente as telenovelas, como veículo de circulação de ideias e ferramenta de política pública (que podemos traduzir livremente por “instrumento de mudança de comportamento”), com a grande vantagem de atingir multidões a baixo custo. Nada mais adequado aos “formuladores de políticas de desenvolvimento”, para “a transmissão de importantes mensagens sociais e econômicas (por exemplo, sobre prevenção AIDS, educação infantil, direitos das minorias, etc.)”.

Apoiados em pesquisas anteriores — e mesmo reconhecendo que o divórcio possa, a longo prazo, ter efeitos negativos para os filhos —, os autores estão convencidos de que a separação fortalece as mulheres na guerra conjugal, sobretudo o facilitado divórcio unilateral (sem necessidade de consenso pelo casal). Elas conquistam maior “igualdade de gênero” no casamento, o que significaria mais justa distribuição do trabalho, doméstico ou fora de casa, fazendo também diminuir a violência doméstica, o homicídio conjugal e o suicídio.

Os economistas, que fizeram essas duas pesquisas para o BID, cantaram vitória diante do número elevado de dissoluções conjugais provocado pelas novelas da Globo. Nós, porém, que vivemos aqui embaixo, no mundo real, onde as pessoas se dão em casamento e depois se separam, sabemos onde estão as feridas do divórcio e como atingem concretamente as pessoas.