Padre Pio e a Missa2

Existem certas coisas na vida que são muito bonitas para serem esquecidas, como é o caso do amor materno. Por isso ele é guardado carinhosamente numa foto. O amor dos soldados que sacrificaram as próprias vidas pelo seu país da mesma forma é muito bonito para ser esquecido, por isso sua memória é reverenciada no Memorial Day. Mas, a maior bênção que já aconteceu aqui na terra foi a visitação do Filho de Deus em forma e vestes humanas. Sua vida, acima de todas as vidas, é bela demais para ser esquecida, por isso guardamos com carinho a divindade de Suas Palavras na Sagrada Escritura, e a caridade de Suas Ações em nossas ações cotidianas. Infelizmente, isto é tudo que algumas almas se recordam, propriamente Suas Palavras e Suas Ações; importante como são, elas não são a grande característica do Divino Salvador.

O mais sublime ato na história de Cristo foi Sua Morte. Morte é sempre importante porque ela sela um destino. Todo homem morrendo é uma cena. Toda cena de morte é um lugar sagrado. É por isso que a grande literatura do passado, que abordou as emoções que acompanham a morte, nunca foi ultrapassada. Mas, de todas as mortes na lembrança do homem, nenhuma foi mais importante do que a Morte de Cristo. Todas as pessoas que nasceram neste mundo, nasceram para viver; nosso Senhor veio ao mundo para morrer.

A morte foi uma pedra de tropeço na vida de Sócrates, mas ela foi a coroa da vida de Cristo. Ele mesmo nos disse que veio “para dar a sua vida em resgate de muitos”; que ninguém tiraria a sua vida; mas que ele a daria por Si mesmo.

Se, então, a morte foi o supremo momento pelo qual Cristo viveu, ela foi, consequentemente, a realidade mais importante que Ele desejou que fosse lembrada. Ele não pediu para que os homens registrassem Suas Palavras numa Escritura; Ele não pediu para que a sua gentileza para com os pobres fosse gravada na História, mas ele pediu para que os homens fizessem memória de Sua Morte. E, a fim de que esta memória não tivesse nenhuma narrativa confusa por parte dos homens, Ele mesmo instituiu a maneira correta de recordá-la.

O memorial foi instituído na noite anterior à Sua Morte, e desde então ficou conhecido como “A Última Ceia”. Tomando o pão em Suas Mãos, Ele disse: “Este é o meu corpo, que será entregue por vós”, isto é, entregue à morte. Depois, sobre o cálice de vinho, Ele disse: “Este é o meu sangue, do novo testamento, que será derramado por muitos para remissão dos pecados”. Desta forma, em um símbolo não sangrento de separar o Sangue do Corpo, separando a consagração do Pão e do Vinho, Cristo se comprometeu a morrer diante do olhar de Deus e dos homens, e representou Sua Morte que aconteceria no próximo dia, às três da tarde. Ele estava oferecendo a si mesmo como Vítima para ser imolada, e para que os homens nunca se esquecessem de que “não há maior amor do que dar a vida por seus amigos”, Ele deu o divino mandamento para a Igreja: “Fazei isto em minha memória”.

No dia seguinte, Ele realizou em sua completude o que fora prefigurado e indicado no dia anterior, ao ser crucificado entre os dois ladrões e Seu Sangue se esvair de Seu Corpo para a redenção do mundo.

A Igreja que Cristo fundou não somente preservou a Palavra que Ele falou, e as maravilhas que Ele operou; ela também O levou a sério quando Ele disse: “Fazei isto em memória de mim”. E a ação por meio da qual nós revivemos Sua Morte na Cruz é o sacrifício da Missa, no qual nós celebramos como que um memorial do que Ele fez na sua Última Ceia, para prefigurar a Sua Paixão.

Por essa razão, a Missa é para nós o ápice do culto Cristão. Um púlpito no qual as palavras de nosso Senhor são repetidas não nos une a Ele; um coro no qual doces emoções são cantadas nos mantém tão distantes de Sua Cruz quanto de Suas Vestes. Um templo sem altar de sacrifício não existe entre os povos primitivos, e é sem sentido entre os cristãos. E, dessa forma, na Igreja Católica o altar, e não o púlpito ou o coro ou o órgão, é o centro da liturgia, pois nele é revivido o memorial de Sua Paixão. Seu valor não depende de quem o diz, ou de quem o ouve; seu valor depende Dele que é o único Sumo Sacerdote e Vítima, Jesus Cristo nosso Senhor. Com Ele nós estamos unidos, apesar de nosso nada; em um certo sentido, por um momento, nós perdemos a nossa individualidade; nós unimos nosso intelecto e nossa vontade, nosso coração e nossa alma, nosso corpo e nosso sangue, tão intimamente com Cristo, que o Pai Celeste não vê mais a nós por meio de nossas imperfeições, mas O vê em nós, o Filho Amado no qual Ele pôs Seu bem querer. A Missa é, por essa razão, o maior evento na história da humanidade; o único ato que protege o mundo pecaminoso da ira de Deus, porque sustenta a Cruz entre o céu e a terra, renovando, assim, o decisivo momento em que nossa triste e trágica humanidade, de forma inesperada, tomou o rumo da plenitude de uma vida sobrenatural.

O que é importante, neste ponto, é que assumamos a adequada atitude mental diante da Missa, e nos lembremos deste importante fato, que o Sacrifício da Cruz não é algo que aconteceu há dezenove séculos. Ele ainda está acontecendo. Não é algo que aconteceu no passado como a assinatura da Declaração de Independência; é um drama permanente no qual a cortina ainda não foi abaixada. Não deixemos que se pense que tudo já aconteceu há muito tempo, e, dessa forma, não diz mais nada a nós a não ser como algo no passado. O Calvário pertence a todos os tempos e a todos os lugares. É por isso que, quando Nosso Senhor subiu às alturas do Calvário, foi oportunamente despojado de Suas vestes: Ele salvaria o mundo sem os ornamentos de um mundo passageiro. Suas vestes pertenciam ao tempo, porque elas O localizavam, e O fixavam como um habitante da Galileia. Agora que Ele foi despojado delas e completamente despojado de coisas terrestres, Ele não mais pertence à Galileia, nem a uma província romana, mas ao mundo. Ele se tornou o pobre universal do mundo inteiro, pertencendo não a um povo, mas a todos os homens.

Para expressar melhor a universalidade da Redenção, a cruz foi levantada na encruzilhada da civilização, num ponto central entre as três grandes culturas de Jerusalém, Roma e Atenas, em nome das quais Ele foi crucificado. A cruz foi, dessa forma, afixada como um sinal diante dos olhos dos homens, para arrebatar o indolente, cativar o insensato e seduzir o mundano. Foi o único fato ineludível, ao qual as culturas e as civilizações do Seu tempo não puderam resistir. É também o único fato ineludível do nosso tempo, ao qual não podemos resistir.

As personagens na Cruz são símbolos de todos os que crucificam. Nós estávamos lá em nossos representantes. O que nós fazemos agora para o Cristo Místico, eles fizeram em nossos nomes para o Cristo histórico. Se nós temos inveja dos bons, nós estávamos lá nos escribas e nos fariseus. Se temos medo de perder alguma vantagem temporal ao abraçarmos o Divino Amor e a Verdade, estivemos lá em Pilatos. Se confiamos nas forças materiais e buscamos conquistar por meio do mundo ao invés do espírito, estivemos lá em Herodes. E a história continua nos pecados comuns do mundo. Todos eles nos tornam cegos para o fato de que Ele é Deus. Existe, então, um tipo de certeza inevitável sobre a Crucifixão. Os homens que são livres para pecar são também livres para crucificar.

Enquanto houver pecado no mundo a Crucifixão é uma realidade. Como o poeta colocou:

“Eu vi o filho do homem passando,
Coroado com uma coroa de espinhos.
‘Não estava terminado, Senhor’, disse eu,
‘E todo o sofrimento carregado?’
“Ele voltou para mim seu olhar tremendo:
‘Ainda não entendeste?
Toda alma é um Calvário e todo pecado é um madeiro”.

Nós estávamos lá durante a Crucifixão. O drama já foi completado no que concerne à visão de Cristo, mas ainda não foi desfraldado para todos os homens, de todos os lugares e em todos os tempos. Se o rolo de um filme, por exemplo, tivesse consciência de si mesmo, ele saberia o drama do início ao fim, mas os espectadores no cinema não saberiam até que tivessem visto o filme se desenrolar na tela.

De maneira parecida, nosso Senhor na Cruz viu, em Sua mente eterna, o drama todo da história, a história de cada alma, e de como, mais tarde, ela reagiria à sua Crucifixão; mas embora Ele tenha visto tudo, nós não poderíamos saber como reagiríamos à Cruz até que nós fôssemos desenrolados na tela do tempo. Nós não tivemos consciência de estar presentes no Calvário naquele dia, mas Ele estava consciente da nossa presença. Hoje nós sabemos o papel que desempenhamos no drama do Calvário, apesar de que vivemos e atuamos agora no drama do século vinte.

Por isso o Calvário é atual; porque a Cruz é Crise; porque em um certo sentido as chagas ainda estão abertas; porque a Dor ainda permanece deificada, e porque o sangue, como estrelas cadentes, está ainda gotejando sobre nossas almas. Não há escapatória da Cruz nem mesmo através de sua negação, como fizeram os fariseus; nem mesmo vendendo Cristo, como Judas fez; nem mesmo crucificando-O como fizeram os executores. Nós todos vemos isso, quer abraçando a cruz como salvação, quer fugindo dela até a desgraça.

Mas, como isso se tornou visível? Onde acharemos o Calvário perpetuado? Nós acharemos o Calvário renovado, revivido, representando, assim como nós vemos, na Missa. O Calvário é um só com a Missa, a Missa é uma só com o Calvário, pois em ambos existe o mesmo Sacerdote e a mesma Vítima.

Imagine então o Sumo Sacerdote Cristo deixando a sacristia do céu para o altar do Calvário. Ele já colocou a túnica da nossa natureza humana, o manípulo do nosso sofrimento, a estola do sacerdócio, a casula da Cruz. O Calvário é sua catedral; a rocha do Calvário é a pedra do altar; o sol avermelhado é a lâmpada do santuário; Maria e João são os altares laterais vivos; a Hóstia é seu Corpo; o vinho é Seu Sangue. Ele em pé é o Sacerdote, mas prostrado é a Vítima. Sua Missa está para começar.

(Prólogo do livro Calvary and the Mass, do Bispo Fulton J. Sheen, traduzido pela equipe do site do Padre Paulo Ricardo)