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Para muita gente, por influência da mídia e das escolas, a Idade Média continua a ser uma época de trevas. Mas, para quem busca a verdade, as coisas são bem diferentes. Foi naquela “época de trevas”, por exemplo, sobretudo a partir do século X — quase um milênio depois da encarnação do Verbo —, que a Igreja Católica conseguia colher os frutos de sua educação moral sobre os povos europeus: começava, então, a definir-se aquilo que seria conhecido como Família Cristã.

O cristianismo ocidental, através da Igreja, criou na Idade Média um padrão de família incomum, responsável por uma civilização absolutamente única na História. O novo padrão incluía o repúdio à poligamia, ao incesto, ao divórcio, além de desestimular os casamentos forçados e casamentos de mulheres muito jovens. O resultado foi uma sociedade muito especial: a ocidental, centrada no indivíduo, que com o passar do tempo se transformaria naquilo que o antropólogo Joseph Henrich, do Departamento de Biologia Evolutiva Humana da Universidade de Harvard, chamou de “psicologia OEIRD” (sigla composta das palavras “ocidental, educada, industrializada, rica e democrática”).

Esta é a tese sustentada por ele, e seus três colaboradores, em recente e interessante artigo científico, publicado pela revista Science no dia 8 de novembro de 2019: “The Church, intensive kinship, and global psychological variation” (“A Igreja, parentesco intensivo e variação psicológica global”). Antes desse estudo, historiadores e apologistas já tinham repetido a mesma ideia (de que a civilização ocidental era fruto do cristianismo católico), mas a novidade, agora, é que o assunto recebe um tratamento mais formalmente científico, na confluência interdisciplinar da história, da psicologia e da antropologia.

Embora esses novos padrões familiares criados pela Igreja já estejam bem documentados, poucos esforços foram feitos, segundo o pesquisador, para explicar de forma mais rigorosa as suas origens e suas consequências. Mais precisamente, a proposta da equipe chefiada por Joseph Henrich é que a Igreja Católica Ocidental, principalmente por sua influência na instituição do casamento durante a Idade Média, teve um papel decisivo na mudança de comportamento do homem europeu, sobretudo ao transformar as estruturas familiares de parentesco, especialmente a união matrimonial entre primos.

À primeira vista, isto pareceria irrelevante aos leigos no assunto. No entanto, a verdade é que as pessoas, vivendo em sociedades com forte presença de instituições baseadas em relações de parentesco (como o já mencionado casamento entre primos), estavam mais sujeitas às exigências coletivistas. Dotadas de grande lealdade grupal, eram mais conformistas e obedientes, rendidas ao ponto de vista dos mais velhos. Como não confiavam em estranhos, nada era mais natural que a prática do nepotismo.

Já nas sociedades menos sujeitas às “relações intensivas de parentesco”, como as que surgiram na Idade Média cristã — quando a Igreja não só proibiu casamento de parentes, próximos ou distantes, como incentivou o casamento por livre escolha e a residência independente dos recém casados —, desenvolveu-se nos indivíduos uma postura de maior independência, associada ao pensamento analítico e à imparcialidade no julgamento, maior confiança em pessoas estranhas, respeito a princípios morais universais.

O estudo conclui que é marcante a diferença, do ponto de vista psicológico, entre as populações caracterizadas como ocidentais (educadas, industrializadas, ricas e democráticas) e o resto do mundo. O qual, como podemos facilmente constatar por nossa conta, procura participar dos benefícios produzidos por aquelas, sem contudo aderir aos princípios morais que estiveram na origem de seu desenvolvimento espiritual e material. É o caso da China e da Índia.

Aliás, o próprio mundo ocidental, sem as bases cristãs que permitiram sua eclosão, será inevitavelmente desfigurado. Seus atributos diferenciadores (educação, industrialização, riqueza, democracia), desligados das fontes sobrenaturais que permitiram seu desenvolvimento mais ou menos coeso, facilmente se transformarão em ensino manipulador, progresso desumano, consumismo doentio, totalitarismo globalista.