capitalismo e socialimo

A posição usualmente adotada pelos observadores que desejam comparar esses dois monstros produz um erro de perspectiva muito explicável. O observador entra no recinto em que os monstros são expostos, e metendo-se no meio dos dois, conclui que se opõem, simplesmente porque ele, observador, instalou-se num centro que a bem dizer não era central. Bastará recuar um pouco ou procurar o verdadeiro centro para descobrir que as semelhanças são muito maiores do que as oposições . Diz por exemplo Fulton Sheen: “O capitalismo insiste no direito à propriedade, mas esquece seu uso social; o comunismo insiste no uso social, mas esquece os direitos da pessoa.” A construção simétrica da frase indica claramente que o observador já escolheu sua posição e tira conclusões de uma perspectiva.

Pelas razões que já expus, o capitalismo, de fato, não insiste absolutamente no direito à propriedade: ele explora uma bandeira que já encontrou e vive à custa de um privilégio oposto ao direito de propriedade. Qual é o defensor do capitalismo que insiste no direito de propriedade ? Com que voz fala o monstro? Chesterton mostrou com muita finura que o monstro contraditório é mudo porque não tem o que dizer.

Existe uma coisa que poderíamos chamar um distributismo ideal, se bem que, nesse vale de lágrimas, não podemos esperar que o distributismo seja ideal. No mesmo sentido, há certamente alguma coisa que poderíamos chamar um comunismo ideal. Mas não existe nada que se possa chamar capitalismo ideal, e não existe um ideal capitalista. Como já observamos (se bem que não tenha sido isso repetido como seria de desejar) todas as vezes que um capitalista se torna idealista, e principalmente quando se torna um sentimental, ele fala sempre como um socialista.

O capitalismo é economicamente contraditório: baseia-se ao mesmo tempo no lucro ilimitado, que empobrece o povo, e no elevado poder aquisitivo dos mesmos miseráveis. Estrebucha na agonia lançando mão da propaganda psicológica que é um blefe grosseiro, porque se gaba publicamente de ser um blefe) e nos últimos espasmos, não dispondo de nenhum outro recurso para incentivar os operários a trabalharem com salários mínimos, lança mão da eloquência socialista e invoca o testemunho da posteridade. Hoje, na fase que atravessamos, duvido que exista um só milionário, um só capitalista que não tenha feito seu pequeno discurso vermelho. O capitalista olha para o monstro vizinho como quem busca recursos, como quem procura imitar um ator de sucesso para ver se adquire um pouco de sua falada sedução.

Aquela definição de Fulton Sheen, segundo a qual o capitalismo insiste no direito à propriedade, não convém ao capitalismo de fato.

Talvez seja aplicável à situação económica do século XIV, ou à triste alvorada do liberalismo. Na verdade, e principalmente no que se refere à pessoa humana, o liberalismo foi o começo do desumanismo, anárquico, confuso, eufórico; o capitalismo é o desumanismo quase perfeito, mas ainda com certos elementos indecisos; o totalitarismo fascista ou comunista é o desumanismo levado à suprema perfeição.

Isto, aliás, pode dar uma ideia de como um socialista vê o capitalismo. O socialista vê o capitalismo com uma profunda irritação, considerando-o seu adversário mais perigoso. E o mais perigoso, porque mais facilmente o pode absorver; e mais irritante, porque mais parecido. O que o socialismo mais detesta e mais combate no capitalismo é a empírica anarquia com que esse regime mecaniza o homem; é, digamos assim, um sentimento de sacrilégio que agita o marxista, quando ele vê as imperfeitas centralizações da sociedade capitalista. A relação entre o socialismo comunista e o capitalismo pode ser comparada a um acorde de sétima em música. A proximidade gera a dissonância; o quase produz a máxima exasperação.

O marxismo é uma concepção técnica do universo; o capitalismo não é propriamente concepção mas é um estado que produz uma gradativa e irresistível aproximação de um tecnicismo total, ainda que guarde uma irritante sobra de humanidade, sobra de caráter negativo e com o odioso aspecto de um privilégio. O socialista, rigorosamente técnico e ortodoxo, detesta no capitalismo essa sobra de humanidade, e não o sinal negativo dessa sobra. O leitor que se julga socialista e que discordar de mim — consciente de que sua indignação não é uma mera indignação de maquinista, mas uma revolta moral, uma revolta de homem — então não é socialista.

É um equivocado; é um sujeito como qualquer outro, como Chesterton e como eu.

(Gustavo Corção. Três alqueires e uma vaca. Rio, Agir, 1958)