todos os santos

[“Senhor, que é o homem”, pergunta o salmista, “para dele assim vos lembrardes e o tratardes com tanto carinho?” E, no entanto, com que maior estupor não cantariam os homens do Antigo Testamento, se contemplassem as bem-aventuranças reservadas por Deus aos santos e santas da Igreja Católica! Nesta homilia especial, Padre Paulo Ricardo medita sobre a grande boa-nova da religião cristã: na humanidade santíssima de Nosso Senhor, Deus veio viver a nossa vida, a fim de que nós vivamos a dEle.]

1. Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 5, 1-12) Naquele tempo, vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, e Jesus começou a ensiná-los: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados. Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus”.

Meditação. — 1. Nesta Solenidade de Todos os Santos, que no Brasil é transferida para o domingo seguinte a 1.º de novembro, a Igreja medita sobre o dom da santidade, proclamando o evangelho das bem-aventuranças. De fato, a santidade cristã consiste na configuração a Cristo pela prática de todas as suas virtudes, como Ele mesmo as apresenta no Sermão da Montanha. Tal configuração promove a união entre Deus e a alma, de modo que o ser humano pode participar da felicidade eterna, no seio da Trindade Santíssima.

Esse estado de perfeição da alma humana em Deus é algo bem próprio do cristianismo. Para as religiões primitivas, a palavra “santo” designava aquelas coisas separadas do ambiente profano para um fim sagrado. Desse modo, os sacerdotes reservavam um terreno para a construção de um templo que seria destinado somente ao culto religioso. Os judeus viveram isso plenamente com a construção do Templo de Jerusalém, na esteira do que Moisés já havia indicado, separando o tabernáculo para o culto. E Deus mesmo se manifestou entre eles, santificando aquele lugar com todos os seus objetos litúrgicos.

A santidade do Antigo Testamento era, no entanto, apenas uma prefiguração daquilo que Jesus faria conosco, depois da Encarnação. Como bem explica São Leão Magno, no mistério da união hipostática, por meio da qual “Ele assumiu a forma de servo sem a mancha do pecado, elevando o que é humano sem diminuir o que é divino”, Jesus nos tornou dignos de uma felicidade antes, para nós, inalcançável (DH 293). Como um verdadeiro pontífice entre o céu e a terra, Nosso Senhor veio participar de nossas vidas para que pudéssemos participar da vida de Deus.

Portanto, se nos unirmos a Ele, mediante o ato de fé, nós poderemos crescer em força e virtude para praticarmos as bem-aventuranças e, assim, participarmos da intimidade divina na Trindade. Porque, como diz São Paulo, o Evangelho “é uma força vinda de Deus para a salvação de todo o que crê” (Rm 1, 16).

2. Jesus é o novo Templo de Deus onde devemos oferecer o nosso culto de adoração. Isso significa que não há santidade possível fora de seu Corpo Místico, que é a Santa Igreja Católica, cuja doutrina precisa chegar a todos os homens. A novidade trazida por Jesus abriu acesso para que uma multidão pudesse se beneficiar da graça divina, algo muito diferente do Antigo Testamento, quando a santidade era coisa para poucos. Mas nós devemos receber essa graça, aceitando-a, em primeiro lugar, no Batismo, como dom e motor de nossas boas obras. Mais ainda: devemos levá-la a todos os povos, a fim de que se confirme a profecia do livro do Apocalipse: “Vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua: conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de vestes brancas e palmas na mão” (Ap7, 9).

No Céu, os santos já vivem a perfeita união com Deus, porque o veem face a face. Também as almas do Purgatório, embora ainda precisem se purificar de algumas penas temporais, já amam a Deus de todo coração e o aguardam ansiosamente antes da entrada definitiva no Paraíso. Aliás, o sofrimento do Purgatório é justamente o de não se poder ver ainda a quem se ama, isto é, ver a Deus. Ao contrário das almas condenadas ao Inferno, que odeiam e se revoltam contra o Senhor, as almas do Purgatório vivem amorosamente a punição, na certeza de que em breve verão a face de Deus; elas têm uma fé ardente, inflamada, e querem estar junto a Jesus.

A meditação acerca disso nos impulsiona a buscar tal santidade na terra, a fim de já experimentarmos a eternidade celeste. Como os santos do Céu e as almas do Purgatório, nós nos uniremos a Deus por meio da caridade, que é derramada em nós no dia de nosso Batismo. Crescendo nessa caridade, ou seja, no amor de Deus, nós iremos, aos poucos, nos configurando a Cristo, repetindo os seus gestos de amor pelos outros irmãos. Afinal de contas, a santidade é o amor do próprio Jesus derramado no nosso coração, e foi com esse amor que Santa Teresinha, o Padre Pio, a Irmã Dulce e tantos outros santos puderam fazer as grandes obras de caridade de suas vidas.

Nesta solenidade, portanto, devemos nos alegrar imensamente, dando glórias a Deus, que enviou o seu Filho, a fim de que, por meio dEle, pudéssemos experimentar a vida trinitária, o amor divino. Com esse amor, nós iremos amar os nossos irmãos até completarmos o número dos eleitos que estarão face a face com Deus no dia final. Enquanto isso, recorramos a intercessão de nossos amigos do Céu, pedindo a eles a graça de nos tornarmos santos como o Pai é santo.

Oração. — Senhor Jesus, que derramastes vosso sangue para a redenção dos homens, tornai-me digno de participar da vida trinitária e, um dia, contemplar face a face o rosto do Pai, na presença da multidão de santos e anjos que habitam o Céu. Assim seja.

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