drawing on paper by Laurie Lipton

Um amigo me pediu, há alguns dias, que lhe explicasse o que é isso de Nova Ordem Mundial. Disse-lhe que é, em essência, o novo comunismo, um comunismo que percebeu, já nos anos trinta do século passado, com Antonio Gramsci, que com a revolução não se poderia jamais impor uma sociedade comunista, já  que o modelo cultural ocidental era forte demais para ser destruído pela violência; só poderia estabelecer-se destruindo a moral cristã e corrompendo a cultura ocidental, que é herança da Grécia, Jerusalém e Roma. É por isso que é chamado marxismo cultural, embora seja mais justo chama-lo de “marxismo anticultural”. As ideias de Gramsci foram desenvolvidas e popularizadas nas últimas décadas pela chamada Escola de Frankfurt, que as introduziu nas universidades e na mídia, transformando-as progressivamente em hegemônicas a partir da década de 1960.

O amigo me perguntou: “Então as elites mundiais se tornaram comunistas?” “As elites mundiais” — respondi-lhe — “aspiram ao poder, a um poder (se possível) sem limites, a um poder total que não deixa espaço para a menor contestação; em suma, ao totalitarismo perfeito”. Essa sempre foi a aspiração do poder, mas as condições para alcançá-lo nunca foram cumpridas até agora, e todos os poderes caíram por terra, vítimas de suas próprias limitações.

Mas o que o marxismo cultural oferece às elites, que detêm o poder no mundo, é a maneira — pelo menos em teoria — de obter controle quase total sobre a população. Essas elites se importam pouco com rótulos; por isso, diante do atrativo da oferta, eles adotaram de bom grado o modelo. E deve-se acrescentar que, à oferta original desse modelo, foi acrescentada posteriormente a contribuição muito importante do desenvolvimento tecnológico, que oferece todos os instrumentos necessários para que esse controle sem fissuras se torne realidade: reconhecimento facial, microchips etc.

É claro que a tecnologia, por mais poderosa que seja, não lograria por si só o controle das pessoas, enquanto elas preservarem e valorizarem sua disposição de permanecer livres. E é nesse ponto que entra o marxismo cultural, cujo objetivo é precisamente o de anular a vontade das pessoas e transformá-las em sujeitos submissos ao poder, de modo que se poderia dizer que a Nova Ordem Mundial é a aliança entre o novo comunismo e o pós-capitalismo (ou capitalismo financeiro). A China de Xi Jinping pode nos dar uma ideia das tendências desse modelo.

E quais são os instrumentos com os quais esse marxismo cultural espera alcançar seu objetivo?

Trata-se, em suma, de destruir tudo o que permite à pessoa manter o apego à sua liberdade: sua identidade, sua cultura, suas raízes, sua tradição, sua religião. Não devemos esquecer que a civilização ocidental, independentemente do que cada um pensa ou acredita, é baseada nos princípios e valores do cristianismo, na alta filosofia grega (“batizada” pela Escolástica) e no direito romano. E, exatamente por isso, são esses os alvos que o marxismo cultural pretende destruir.

Como conseguir isso?

1. Primeiro, destruindo a moral cristã. O marxismo cultural, através da infiltração e controle da mídia, das universidades e do sistema educacional em geral, levou uma parte crescente da população a romper com os princípios da moralidade cristã e a aceitar outros princípios contrários à mesma. Esse foi o resultado da chamada revolução sexual, que desde o final dos anos 60, no século passado, mudou radicalmente a maneira como o Ocidente moderno aborda a sexualidade. A generalização de métodos contraceptivos, que permitem sexo livre e sem compromissos, a pornografia, o feminismo radical e, mais recentemente, a ideologia transgênero (que visa anular a natureza masculina ou feminina das pessoas, tornando-a opcional), a rejeição da heterossexualidade como norma, a generalização das uniões homossexuais, a promoção do aborto etc. — tudo isso criou um modelo cultural radicalmente antagônico ao modelo que nossa sociedade havia estabelecido até recentemente.

A contribuição da mídia para essa mudança foi fundamental, promovendo de todas as formas possíveis os novos modelos de comportamento contracultural.

Esse abandono da moralidade tradicional também significou o abandono da prática e até da crença religiosa, o que foi favorecido pela profunda crise que a Igreja Católica passou a viver desde a conclusão do Concílio Vaticano II, crise também favorecida — se não provocada — pela infiltração na própria Igreja, desde os anos 50 do século passado, de “liberais” partidários da adaptação da Igreja à cultura do “mundo”, pessoas que hoje ocupam posições-chave em sua hierarquia. Como resultado, estamos hoje diante de uma sociedade praticamente ateísta que, embora ainda seja nominalmente cristã, não conserva dela mais que o seu nome.

2. Em segundo lugar, através do medo. Uma sociedade assustada é uma sociedade facilmente controlável, que se lançará sem hesitação nas mãos daqueles que se ofereçam para extirpar a causa de seus temores. Criar ameaças falsas, e oferecer falsas soluções que lhes correspondam, é um método antigo de controle social que ainda funciona muito bem. O poder sempre jogou, e ainda joga, com o medo enquanto elemento de controle: medo de ataques terroristas, medo de epidemias e, mais recentemente, medo do aquecimento global pelo alarmismo climático.

O terrorismo mantém a sociedade mergulhada no medo. Não pretendo dizer, aqui, que seja um fenômeno provocado para esse fim, mas a verdade é que a resposta institucional ao terrorismo deixa muito a desejar. A prova mais óbvia é a grande facilidade oferecida aos terroristas para entrar e se estabelecer em território europeu, por meio da imigração ilegal massiva, sem nenhum controle, que os poderes da União Europeia — e do próprio Vaticano — promovem com fervor incomum.

Os surtos epidêmicos de certas doenças são usados em larga escala, pela mídia, para criar uma sensação de ameaça e vulnerabilidade, geralmente bastante desproporcional em relação à magnitude real do problema (lembre-se do caso da gripe A), que mantém a população em um estado de medo permanente, sujeita à manipulação.

E, finalmente, a catástrofe climática, o planeta em perigo, um final climático do mundo diante de todos nós. Na realidade, nada acontece que não esteja acontecendo desde que o mundo é mundo, pois o clima muda constantemente e os registros históricos o testemunham. Períodos quentes e frios alternam-se regularmente e não há motivo para maiores alarmes. Previsões catastróficas sistematicamente deixam de ser cumpridas, e a vida continua normalmente. Novas previsões alarmistas são lançadas sempre de novo a uma população assustada, e o fato de nunca se cumprirem importa pouco, porque as pessoas, em geral, não têm consciência disso.

Dificilmente se poderia encontrar um elemento de manipulação e controle social mais eficaz do que esse “terrorismo climático”, que convenceu metade (pelo menos) da população mundial de que o mundo acabará, se não nos colocarmos imediatamente nas mãos das elites que possuem o poder de nos salvar do extermínio.

Quinhentos cientistas de treze países enviaram, recentemente, um manifesto ao Secretário-Geral da ONU, denunciando o catastrofismo climático e anunciando que não há nenhum perigo climático, mas as pessoas não sabem nada disso e o embuste continua funcionando. É o medo como elemento privilegiado de controle social.

3. Em terceiro lugar, mediante a destruição de identidades culturais, nacionais e religiosas. O homem que tem raízes, e a elas se apega, é dificilmente manipulável; valoriza sua identidade e os elementos que a constituem; valoriza a sua liberdade. A destruição dessas raízes é essencial para transformar o homem em um sujeito manipulável e submisso. A identidade religiosa, como vimos, já foi destruída em grande parte da população ocidental. A identidade nacional torna-se cada vez mais confusa com a promoção cultural de entidades supranacionais, que centralizam cada vez mais o poder em detrimento da capacidade dos estados nacionais, cujas competências são cada vez mais reduzidas. O europeu está cada vez mais dependente de instâncias quase completamente fora de seu controle, e a mídia o convence de que as nações não fazem mais sentido em um mundo global.

Mas o elemento chave nessa destruição de identidades é a mistura cultural, a transformação da sociedade em uma mistura de raças e culturas, em boa parte incompatíveis entre si; mistura que apaga progressivamente os limites de cada uma delas, até resultar numa população “multicultural”, ou seja, sem nenhuma cultura definida. Para isso, o marxismo cultural no poder promove a imigração ilegal em massa, sem nenhum controle, manipulando inescrupulosamente os sentimentos e a solidariedade natural das pessoas.

O principal direito das pessoas, mais que emigrar para países estrangeiros, é o de permanecer em seu lugar de origem e ter as oportunidades necessárias para viver com dignidade. Se todo o dinheiro que os poderes usam para criar conflitos (que esvaziam os países), fosse usado para criar estruturas econômicas e culturais viáveis nesses mesmos países, as pessoas não precisariam emigrar. O Ocidente está esvaziando a África, privando-a de seus jovens e, portanto, de seu futuro, em vez de contribuir para criar as condições desses jovens terem lá o seu futuro.

Por outro lado, as nações ocidentais têm o direito de preservar sua cultura e seu equilíbrio; têm o direito de gerenciar a imigração, decidir quem entra em seus países e sob quais condições; têm o direito de impor obrigações àqueles que chegam, obrigações de respeito à cultura local e de cumprimento de suas leis; têm o direito de, considerando os meios disponíveis, decidir quantos imigrantes podem ser admitidos, a fim de que sua integração possa ser eficaz.

Os governos ocidentais renunciaram a toda capacidade de gestão em matéria de imigração, colocando em risco conscientemente — dir-se-ia voluntariamente — o futuro da cultura, do equilíbrio interno e até da paz social em seus países. Não há nisso nem casualidade nem imprevisto.

O que se pretende com tudo isso?

Um mundo submisso e manipulável. A era da democracia já passou, embora o nome seja preservado para manter certas aparências. O poder sempre acalentou a vontade de permanência. Hitler falava do Reich dos mil anos, Napoleão pretendia dominar a Europa através da construção de uma nova ordem revolucionária… Hoje, essa permanência está mais perto de ser alcançada. Todo o poder, hoje, aspira a perpetuar-se, destruir o adversário, não dar lugar a nenhuma alternância, tornar-se um senhor absoluto. Uma população consciente de sua liberdade, e disposta a usá-la, é o principal obstáculo que se opõe a esse desejo. A liberdade nunca foi tão ameaçada quanto em nosso tempo e provavelmente será cada vez mais. Uma parte crescente da população já está renunciando a ela, a cada dia que passa.

Nuvens muito escuras pairam sobre o futuro, mas ainda há muitas pessoas que não se entregaram. Em última análise, nunca foram as maiorias que encontraram a saída para as crises. São sempre as minorias determinadas que fazem o mundo avançar. É sempre o “pequeno resto”, que continua a acreditar na absoluta dignidade da pessoa humana, e continua a acreditar e a confiar em Deus, que pode encontrar e sustentar a sua liberdade, mesmo nas condições mais críticas, depositando sua confiança Naquele que nunca deixou de ser o Senhor da História.

https://infovaticana.com/2019/10/26/que-es-el-nuevo-orden-mundial/