dom vital

[Capítulo da biografia do bispo brasileiro Dom Vital (1844-1878), escrita pelo poeta Jorge de Lima, situando a época — anos 70 do século XIX— em que explodiu a chamada Questão Religiosa, conflito entre a Maçonaria e a Igreja Católica].

A época em que [Dom Vital] apareceu é que era das mais complicadas e confusas que jamais houve. Igual a ela só mesmo esta em que vivemos! Desencadeara-se no mundo a guerra mais feroz contra a Igreja de Cristo. A França começara a agressão com a Comuna de Paris. A Alemanha, sob Von Bismarck, impunha o seu dogma da Kulturkampf e desenvolvia uma tremenda opressão contra os católicos de sua terra. Prendeu, encarcerou, processou os bispos mais importantes, dissolveu associações, confiscou, expulsou. Na Rússia cismática as igrejas católicas foram entregues aos inimigos de Roma; deportaram para a Sibéria mais de mil e duzentos padres, mataram duzentos mil gregos católicos, trucidaram bispos e sacerdotes sem conta. Na Espanha confiscaram os bens eclesiásticos e reeditaram ao pé da letra as perseguições da Alemanha e da Rússia! No México, na Venezuela, as mesmas espoliações; no Equador trucidaram, à porta da Igreja, o Presidente católico Dom Garcia Moreno!

E, no Brasil? No Brasil, meus senhores, os maçons andavam de opa, os padres eram grãos-mestres, o Imperador fazia sonetos e se congratulava com os republicanos. O mundo estava virado. Pairava sobre ele uma fuzarca universal; o Dr. Puig examinava a garganta de um santo e receitava sinapismos no braço; um menino tinha de dar no tio para livrar uma escrava; os vice-mestres dos conventos, a título de exame de vocação, mandavam os noviços pegar aranhas onde nem teias havia, e, no Recife, para onde fora um bispo decente, os irmãos do Santíssimo Sacramento ainda não tinham feito sua primeira comunhão. Em toda a parte do mundo a maçonaria, força das mais poderosas, armava revoluções e combatia a Igreja. Basta ler obras vulgaríssimas como Les Forces Secretes De La Revolution, de Léon De Poncins; Der französische Geist und die Freimaurere, de Wilhelm Ohr, ou Constitutions of the Freemason of the Premier Grand Lodge of England, dc W. J. Hugban, e centenas de milhares de outras obras sobre o assunto. Charles Maurras ou Delassus batem essa questão repisadíssima.

No Brasil havia a crença de que a maçonaria era diferente, nessa presunção muito brasileira de que todos os leões estrangeiros têm que ser sossegados debaixo deste céu e deste clima.

Pois bem, foi esse leão sossegado e aclimatado que justamente provocou entre nós os acontecimentos mais feios e mais imbecis de toda a história do Império. Então vejamos como as pessoas mais bem intencionadas, mais austeras, mais respeitáveis se viram de repente arrastadas por verdadeiro tufão de incoerências, de maldade, de chatice humana.

Pelos tempos de D. Vital a maçonaria meteu-se dentro da Igreja, mandando nos padres molengos, gritando para os sacristães, fazendo comícios e eleições sob o teto sagrado, só faltando dizerem missas os grão-mestres ou se criar a irmandade de São Sebastião José de Carvalho [Sebastião José de Carvalho e Melo era o nome do Marquês de Pombal]. O velho decente que foi Cairu [José da Silva Lisboa, visconde de Cairu,] dizia que toda aquela geração sem gosto conhecia só um livro, o Catecismo do Cidadão Francês de Volney. É verdade que muitíssimos maçons de hoje, com exceção de uma minoria culta que frequenta as lojas, sem saber da história e da origem da grande sociedade secreta e ignorando por igual os deveres da religião em que nasceram, enfiam a opa e o avental indiferentemente, entronizam em suas salas o Coração de Jesus e votam nas oficinas maçónicas protestos contra o ensino religioso nas escolas do Brasil. Porém, naqueles tempos de D. Vital, a coisa era mais feia, porque retribuía o padre as visitas do maçom.

As irmandades eram compostas de pedreiros-livres e nas lojas pululavam os padres-mestres. Ora, que as duas instituições se enfraqueciam assim, vestindo os mesmos hábitos exteriores e interiores. Alguns maçons, que não honram de modo nenhum a sua poderosa companhia, têm feito definhar a célebre Ordem, quebrando-lhe a tradicional solidariedade, dessorando-lhe o prestígio mundano, apegados no que menos vale numa agremiação política, ao rito; transformaram a maçonaria e se gabam de que ela é uma espécie de sociedade beneficente, literária e recreativa.

Viveiros de Castro asseverava que ela era uma espécie de grémio urbano de literatura. A gente duvida que, mesmo hoje, seja essa coisa ridícula. O certo é que Viveiros de Castro não falava a verdade.

Alexandre José Barbosa Lima, que em 1908 não era o convertido como tão docemente morreu, escrevia na Revista do Instituto Histórico Brasileiro:

Equiparados a empregados públicos, sujeitos ao ministro do Império e subsidiados pelo Orçamento como os demais funcionários, ficavam, em troca de mesquinha dotação orçamentária, os ministros da Igreja Cutólica quebrantados na sua autoridade sob a tutela suspicaz do jus cavendi, do recurso à coroa, do placet imperial e do exequatur. Dessa deplorável condição jurídica defluiu a perseguição religiosa.

Se houve perseguição religiosa, a maçonaria, sob cujo arrocho tal perseguição se deu, deixava de ser o que Viveiros de Castro asseverava: “Na época da questão religiosa, a maçonaria brasileira já havia perdido o seu caráter político e era simplesmente um instituição beneficente, literária e recreativa.”

Basta contar a história, para se ver que a tal sociedade literária e recreativa daqueles tempos, além de um sem-número de humilhações a que forçou a Igreja, por ocasião da questão religiosa, chegou ao ataque à mão armada, invadindo, no dia 10 de fevereiro de 1873, no Recife, o colégio e a capela dos padres jesuítas, ferindo três religiosos e arrasando totalmente o jornal católico A União. Tal a sociedade beneficente, literária e recreativa de então. Mas a verdade, infelizmente, é que foi ainda o padre desviado de seus deveres o principal provocador da questão religiosa, com a mesma facilidade com que outrora, pelos tempos de 17 e 24, fazia revoluções.

(Em: Jorge de Lima, Obra completa, v. I. Rio, Aguilar, 1958, p. 1120-1123)