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Parece evidente a queda de nível de que padece a humanidade, pelo menos a ocidental, nessas últimas décadas. Teme-se também que as coisas não estejam melhorando no resto do mundo, pois as influências são muito grandes: aqueles que não são ocidentais se nutrem, principalmente, daquilo que o Ocidente criou.

Já falei há muito tempo sobre a ameaça dessa “decadência evitável”. Será mesmo evitável? Isso já começa a parecer problemático. Uma grande proporção do que é feito, em todos os campos, é resolutamente inferior ao que poderia ser, ao que foi feito nos primeiros sessenta anos do nosso século, que ainda perdura na memória e conserva a atualidade.

Com exceções — que são muitas, mas não deixam de ser exceções —, o que hoje é dito, escrito, pintado, composto, construído ou projetado nas telas de cinema, está abaixo do nível exigido, já que um nível muito mais alto já tinha sido alcançado anteriormente.

Uma pessoa com alguma sensibilidade intelectual ou estética experimenta, todos os dias, uma impressão dolorosa: descontentamento. Como poucas coisas me descontentam mais do que não compreender algo, não apenas experimento essa impressão, mas tento descobrir as suas causas. Poder-se-ia pensar que houve um declínio das habilidades em nosso tempo, que os homens das últimas gerações são menos inteligentes do que há algum tempo.

Essa explicação não me convence. Acredito que os dons humanos, pelo menos nas épocas históricas que conhecemos, são aproximadamente os mesmos. As crianças que nasceram na Grécia clássica, de fantástica capacidade criativa, ou durante o também criativo Império Romano, provavelmente não eram diferentes daquelas nascidas nos quatro séculos sombrios que se seguiram à sua queda, até que um tímido renascimento cultural começou em 800, no tempo de Carlos Magno. Se tivessem sido feitos testes psicofísicos, essas medidas para obter o que agora é chamado de “quociente de inteligência”, e coisas semelhantes, acho que os resultados não seriam muito diferentes. Com mais razão, não há motivo para suspeitar de mudanças substanciais nas habilidades ao longo dos séculos da Era Moderna.

Se os resultados das últimas décadas se ressentem do que podemos chamar de “falta de inteligência”, isso não se deve à falta de habilidades, ou seja, de “possibilidades” psicofísicas, mas a causas estritamente humanas, biográficas, sociais e históricas como um todo. Acredito muito moderadamente no valor dos genes e em sua transmissão: os filhos das pessoas mais geniais costumam ser bastante medíocres; por outro lado, pais de gênios tem sido pessoas modestas, sem nada de extraordinário. Mais importante é a coexistência, a educação, o ambiente em que cada pessoa é formada; e, ainda mais, a liberdade de cada um, a sua vocação pessoal, a sua exigência de autenticidade. Eu já disse, nalguma ocasião, que os autores da Geração de 98, na Espanha, com a possível exceção de Miguel de Unamuno, eram homens de dotes nada extraordinários; a genialidade deles consistia no uso dessas habilidades, que lhes eram mais do que suficientes e lhes permitem continuar atuando sobre nós, depois de um século.

Se, hoje, as pessoas são tão “inteligentes” como antes, e suas obras não o são, exceto por um número limitado de exceções, é preciso perguntar por quê. A “Inteligência” não se perdeu; o que decaiu assustadoramente é seu “prestígio”, o seu respeito, a sua exigência. Tenho observado que, quando se elogia alguém que exerce funções culturais no sentido mais amplo da palavra, raramente se diz que é “inteligente”.

Confunde-se tudo. Existe um “igualitarismo” estranho, compensado pela amizade, pelos interesses econômicos ou pelo partidarismo. Fala-se incessantemente de alguns poucos, apesar de sua notória mediocridade, e pouco ou nada de outros, cujo trabalho tem um valor incomparavelmente superior. Os que não produzem, aqueles que se alimentam daquilo que é feito por uma minoria (que o faz, em princípio, para os outros), vivem em estado de confusão e desorientação, porque existe hoje uma desordem absoluta das hierarquias.

Já lembrei, algumas vezes, que nos anos que se seguiram à guerra civil espanhola, apesar das fortes pressões políticas, os espanhóis ainda continuaram aceitavelmente “orientados” em valores culturais, muito mais do que viria depois.

Quem hoje cria, em qualquer área ou disciplina, não se sente compelido a ser inteligente. Pode ser até que suas habilidades o permitam, mas ele não sente ao seu redor a pressão social que o leva a tirar proveito delas, a usá-las no máximo de seu rendimento. Quase tudo o que vemos, ouvimos ou lemos “poderia ser melhor”. Essa é a triste situação atual, que pode nos levar a uma decadência da qual será extremamente difícil sair, porque se terá produzido uma diminuição no próprio nível do “humano”, dificilmente superável.

O que se perdeu é o prestígio e o respeito pela inteligência real, posta em prática nas obras, relativamente independente das habilidades, que podem ser modestas; o importante é que sejam exercitadas. Quase todos os gênios, que tornaram a humanidade mais prodigiosa, eram pessoas “normais”, que não deslumbraram seus contemporâneos, nem procederam de linhagens particularmente ilustres. Só tinham “vocação”, e, em casos menos eminentes, algo tão importante e valioso: o gosto por fazer o que faziam. Experimentavam o prazer de aplicar o talento em algo para o qual sentiam que tinham nascido; viam-se forçados a dar o melhor de si para o que era o seu empreendimento vital.

Faziam o melhor possível; e isso lhes era suficiente. Era mais importante que o sucesso (o resultado de seu esforço raramente era espetacular). Lembro-me, desde menino, daqueles versos de Goethe, em seu poema “O cantor” (“Der Sänger”): “A canção que brota da garganta já é um prêmio, uma rica recompensa” (“Das Lied, das aus der Kehle klingt, ist Lohn, der reichlich lohnet”); e é por isso que o cantor desiste da corrente de ouro oferecida pelo rei e se contenta com um copo de vinho.

Há lembretes, que vem lá da infância, recebidos no berço ou na escola, que permanecem vivos na memória e são uma exigência duradoura ao longo da vida. O decisivo é recebê-los. Até que ponto isso ocorre hoje? O que as crianças e jovens nascidos nos últimos trinta anos ouvem, em casa, na escola, na Universidade, nas horas que passam em frente à televisão? Não se trata de melhorar as habilidades psicofísicas; não é possível, nem necessário. Os recursos de toda ordem, com que o conjunto da humanidade ocidental começa a sua vida, são imensamente superiores a tudo aquilo de que dispunha antes. Se não estamos em uma era criativa, não temos desculpas. Somos responsáveis por nós mesmos, pelo que fazemos de nossas vidas. Por exemplo, isso de renunciar à inteligência, negando-lhe o respeito e o prestígio que sempre teve. Em uma palavra, deixando que se perca.

(Publicado no jornal ABC de Madrid, 1º de agosto de 1996)