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Quando os filósofos do século XVIII tentaram substituir a antiga fé do cristianismo por suas novas doutrinas racionalistas, eles na realidade só abstraíram dela aqueles elementos com os quais seus pensamentos estavam profundamente marcados (de tal modo, que não conseguiam mais reconhecer a sua origem).

O deísmo do século XVIII era apenas uma sombra do cristianismo, uma abstração mental privada de vida própria, obtida da realidade viva de uma religião histórica. O deísmo preservava certas concepções fundamentais do cristianismo: a crença em um Criador benéfico, a ideia de uma Providência onipotente que ordenava tudo para o melhor possível e os principais preceitos da lei moral cristã; todas essas concepções, no entanto, perderam todo o significado sobrenatural, encaixando-se no esquema utilitário e racional da filosofia então reinante.

Desse modo, a lei moral foi despojada de todos os elementos ascéticos e ultramundanos, compreendida agora como mera prática filantrópica; a ordem da Providência se transformou em uma lei natural mecanicista. E esse era especialmente o destino da ideia de progresso, pois, embora na nova filosofia não houvesse lugar para o sobrenaturalismo da escatologia cristã, não conseguiu desfazer-se daquela concepção teleológica da vida, que era própria do cristianismo.

Como o objetivo final dos esforços da humanidade, a crença na perfeição moral e no progresso ilimitado da raça humana acabou substituindo a fé cristã numa vida para além desta vida. É uma ideia que está na raiz de todo o movimento filosófico iluminista, tendo sido formulada em seus detalhes muito antes dos Enciclopedistas aparecerem em cena.

Além disso tudo, é perfeitamente compatível com o que eu disse antes sobre as origens desse complexo de idéias, o fato de que o primeiro teórico da ideia de progresso ter sido um padre, o primeiro de uma longa série de eclesiásticos céticos e reformistas, que inclui personalidades como Mably, Condillac, Morelly, Raynal e Sieyès, tão característicos da época do Iluminismo.

Trata-se do Abade de Saint Pierre, um profeta que não recebeu muitas honras em seu próprio país. Tinha a reputação de ser meio original e meio maníaco, e, para a sua estátua, Voltaire escreveu a seguinte frase: “Não passa de uma cópia. Mas o original diria algumas idiotices”.

No entanto, de seu cérebro fértil saíram a maioria das reformas que os liberais dos dois séculos seguintes tiveram de realizar, ou que pelo menos tentaram realizar, como o tribunal internacional e a abolição da guerra, a educação gratuita e a reforma da educação feminina, tributação a favor dos pobres e eliminação da pobreza, sem mencionar outras inovações de interesse mais particular, como o uso social dos sermões.

Mas, sob tudo isso, estava sua doutrina fundamental do crescimento perpétuo e ilimitado da razão humana universal, que teria como efeito infalível a Idade de Ouro e o estabelecimento do paraíso na terra. Não seria preciso esperar muito para chegar a esse termo feliz: bastaria que os poderes existentes concordassem com os princípios defendidos pelo abade, que compartilhava a fé de sua época nas possibilidades ilimitadas de ação dos governos.

Essa teoria prevaleceu sobre todas as outras, na nova época que se abriu: embora o Deus dos deístas fosse apenas uma abstração pálida, um simples deus ex machina, a fé no progresso era bem capaz de mover sentimentos humanos e despertar um genuíno entusiasmo religioso. Fé no progresso que não era apenas comum entre os seguidores do racionalismo filosófico francês, mas teve um papel de não menor importância no nascimento do idealismo alemão e do liberalismo utilitário inglês.

(Christopher Dawson, Progresso e religione. Trad. de Luciano Foa. Milão, Edizioni di Comunità, 1948, p. 166-8)